Dirigido por Johanna Moder. Roteiro de Johanna Moder e Arne Kohlweyer. Com: Marie Leuenberger, Claes Bang, Julia Franz Richter, Hans Löw, Nina Fog, Caroline Frank, Andreas Ortner.
Há um problema recorrente em narrativas que giram em torno de conspirações: depois de envolverem o público com seus mistérios e possibilidades, várias destas obras acabam por decepcionar quando a verdade começa a ser revelada, já que a imaginação do espectador – ou mesmo o puro sentimento de curiosidade – por vezes é mais forte do que aquilo que os realizadores haviam concebido.
O que nos traz ao austríaco Bebê da Mamãe, parte da mostra competitiva da Berlinale de 2025.
Apresentando-nos inicialmente a um casal prestes a ser disparado naquele brinquedo de parque de diversões que costuma registrar em vídeo as reações apavoradas dos participantes e publicá-los na Internet (e não sei como já não haviam surgido em alguma produção), o filme estabelece em seus primeiros segundos a sintonia e o carinho entre a maestrina Julia (Leuenberger) e seu companheiro Georg (Löw), que, apaixonados, estão determinados a ter um bebê apesar de um histórico de tentativas malsucedidas. Ou talvez ele esteja determinado, já que a diretora Johanna Moder logo planta indícios do desinteresse de Julia – como, por exemplo, ao enfocá-los em sua primeira visita a uma clínica de inseminação artificial, quando Georg se dedica a ouvir as explicações do médico, o dr. Vilfort (Bang), enquanto sua esposa se distrai observando um aquário. Meses depois, quando o bebê nasce em um parto difícil – que Moder torna angustiante ao empregar um travelling circular em torno da mesa de cirurgia -, algo parece dar errado e a criança é levada para outra sala sem que explicações sejam oferecidas aos pais, que finalmente sentem algum alívio quando todos retornam com o recém-nascido já recuperado. E é aí que a inquietação da protagonista se torna maior, já que por algum motivo ela sente que aquele não é seu filho.
A partir deste ponto, Bebê da Mamãe segue uma tradição do suspense (e do horror): narrativas sobre mulheres que suspeitam de maquinações sinistras à sua volta, mas não conseguem convencer ninguém sobre suas desconfianças, sendo questionadas inclusive quanto à sua sanidade. Neste aspecto, o longa é hábil ao ressaltar o isolamento crescente de Julia à medida que esta percebe - ao lado do espectador, sempre ancorado ao ponto de vista da personagem - alguns elementos estranhos sobre o bebê, que, embora tenha uma audição perfeita e desperte com um leve estalar de dedos, dorme pesadamente mesmo que sua mãe aumente ao máximo o volume das músicas que escuta.
Beneficiado pela boa trilha instrumental de Diego Ramos Rodriguez, que ajuda a construir uma atmosfera de angústia sem se tornar excessiva, e pela ótima direção de arte de Hannes Salat, que ancora em ambientes estéreis e impessoais aqueles que despertam a desconfiança de Julia, o filme também emprega um recurso eficiente para evocar a paranoia da personagem ao adotar uma câmera que parece flutuar ao segui-la em alguns momentos, como se ela estivesse sempre sendo monitorada. Além disso, a performance de Leuenberger é eficaz tanto ao evocar seu desespero e sua angústia quanto ao sugerir como o instinto materno não é algo que lhe vem facilmente: ainda que determinada a descobrir a verdade sobre seu bebê e preocupada com seu destino, Julia se mostra desconfortável, por exemplo, quando ouve o marido se referir a ela como “mamãe” – e com isso Bebê da Mamãe faz uma crítica à expectativa social de que toda mulher abrace a maternidade como seu destino desejável e inevitável (um apontamento dividido com outro filme da competitiva, o excelente Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria, que discuti anteriormente).
Mas não só: salientando também a importância da sororidade, o roteiro escrito pela cineasta ao lado de Arne Kohlweyer não por acaso traz outra mulher (e mãe) como única pessoa a apoiar Julia, já que entende não só as dificuldades naturais de cuidar de um bebê como também a exigência de perfeição e sacrifício maternos por parte da sociedade – uma exigência nem sempre dirigida aos pais, frequentemente ausentes no cotidiano familiar.
É uma pena, portanto, que a obra perca força no terceiro ato à medida que os mistérios vão sendo solucionados – não que fossem realmente enigmáticos, já que não é difícil prever a direção para a qual o roteiro está caminhando antes mesmo que a projeção chegue à metade. Para piorar, o desfecho em si é súbito e insatisfatório ao deixar várias pontas soltas em prol de uma ambiguidade que pouco acrescenta à experiência.
A performance de Marie Leuenberger merecia uma conclusão melhor.
Texto originalmente publicado como parte da cobertura do Festival de Berlim 2025
18 de Fevereiro de 2025
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