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Valor Sentimental

★★★★★5/5 estrelas
12 min

Dirigido por Joachim Trier. Roteiro de Joachim Trier e Eskil Vogt. Com: Renate Reinsve, Stellan Skarsgård, Inga Ibsdotter Lilleaas, Elle Fanning, Anders Danielsen Lie, Jesper Christensen, Lena Endre, Cory Michael Smith.

A imaginação constitui parte fundamental do processo criativo, claro, mas independentemente do grau de invenção que se possa incorporar a uma obra, há sempre uma base emocional originada das experiências pessoais, uma camada de realidade que sustenta mesmo as construções ficcionais mais absurdas. A arte, quase por definição, explora a história íntima do artista, suas vivências, traumas e alegrias, transformando-os em matéria-prima para a expressão estética – e não é por acaso que tantas músicas giram em torno de corações partidos e amores frustrados, que inúmeras poesias contemplam a morte ou que diversos filmes abordam relações familiares problemáticas e traumas psicológicos, já que se tratam de temas que, por sua universalidade na experiência humana, representam farto material para a produção artística em todas as suas formas.

Assim, quando falamos da honestidade de uma obra, não se trata necessariamente de uma discussão sobre sua autenticidade factual, sobre uma reprodução literal de incidentes biográficos, mas sim de sua capacidade de refletir uma verdade pessoal, uma experiência subjetiva que, mesmo quando transformada pela imaginação, mantém sua raiz emocional. As criações mais poderosas são frequentemente aquelas que alcançam dimensão universal precisamente porque narram experiências que, mesmo filtradas pelo referente do artista, ecoam a condição humana como um todo, transcendendo barreiras culturais, temporais e sociais.

Valor Sentimental, novo filme de Joachim Trier apresentado na competição do Festival de Cannes, reflete tão bem essas questões que, à medida que se aproxima de seu desfecho, a convergência de seus temas, das experiências particulares que retrata, provoca um impacto emocional cuja intensidade chega a ser inesperada, mantendo-se com o espectador muito depois dos créditos finais.

Roteirizado por Trier ao lado de Eskil Vogt, o longa acompanha três personagens cujas relações constituem seu núcleo emocional: um pai e suas duas filhas, cada um carregando suas próprias feridas e mecanismos de defesa. Ancorando o filme vem a filha mais velha, Nora (Reinsve), que é uma atriz que, logo no início da projeção, enfrenta uma crise de pânico momentos antes da estreia de uma peça - situação aparentemente recorrente em sua carreira e que resulta numa sequência não apenas divertida, mas eficiente ao estabelecer o tom da obra, que combinará a fragilidade emocional dos personagens, seu senso de humor e a convergência entre suas experiências profissionais e pessoais.

Já a irmã caçula, Agnes (Lilleaas), abandonou a profissão de atriz depois de protagonizar ainda na infância o filme mais respeitado do pai, o cineasta Gustav Borg (Skarsgård), cuja carreira atravessa um longo período de estagnação criativa. Quando a mãe das garotas morre, Gustav – que havia se mudado para a Suécia depois do divórcio – retorna com o propósito não só de reencontrar as filhas, mas de realizar um longa que deverá ser rodado na casa da família e estrelado por Nora, que compreensivelmente recusa o convite-convocação.

Embora soe como um clichê terrível em qualquer texto crítico, é impossível não descrever a casa dos Borg como um personagem central de Valor Sentimental, já que Trier trata a residência como uma entidade viva, explorando-a externa e internamente com sua câmera já nos segundos iniciais da projeção enquanto revela texturas, formas, cômodos e cores, estabelecendo aquele espaço como um repositório de memórias e testemunha constante dos dramas familiares que ali se desenrolaram ao longo de décadas. Assim, na sequência de abertura vemos planos como o de uma criança esfregando levemente o braço contra a parede e de um pé descalço tocando o assoalho de madeira - imagens triviais que, no entanto, evocam uma relação tátil com o ambiente. Como consequência, qualquer alteração neste ambiente provoca no espectador a sensação de que algo essencial se perdeu, como se um fragmento da própria casa tivesse morrido. Do mesmo modo, Trier consegue transmitir, sem recorrer a efeitos sonoros ou diálogos explicativos, a atração magnética que determinado cômodo exerce sobre Gustav, que em certo momento precisa se afastar, como se para evitar uma armadilha, por razões que só compreenderemos mais tarde.

Aliás, as próprias estruturas da residência refletem e influenciam a dinâmica familiar – e um bom exemplo diz respeito à mãe de Nora e Agnes, que, psicanalista, mantinha seu consultório no andar térreo sem saber que a tubulação interna conduzia as vozes até o quarto da filha mais velha, que assim ouvia as sessões e as confidências dos pacientes. A ironia neste caso é que enquanto a família demonstra imensa dificuldade em expressar sentimentos e discutir seus problemas, ressentimentos e traumas, a casa literalmente transportava confissões de estranhos para o quarto da garota, criando um contraste irônico entre a transparência emocional dos pacientes e a turvação afetiva dos moradores. Para completar, a rachadura que se estende por uma das fachadas do imóvel funciona como metáfora óbvia (mas eficaz) da cisão emocional que atravessa as relações familiares apesar da aparente unidade que tentam projetar para o mundo exterior.

Desenvolvendo a personalidade dos personagens de modo complexo, tornando-os multidimensionais, contraditórios e humanos em suas falhas e aspirações, o longa estabelece o narcisismo de Gustav, por exemplo, ao trazê-lo em uma cena aparentemente trivial, quando, ao encontrar Nora para um almoço, sugere que a garçonete pensou se tratar de um casal - embora nada no comportamento da atendente houvesse indicado tal interpretação. Este comentário aparentemente inconsequente acaba por expor sua incapacidade de aceitar o próprio envelhecimento, que resulta numa autoimagem de homem que segue atraente (mesmo para mulheres muito mais jovens) e denuncia uma vaidade que possivelmente mascara inseguranças relacionadas à passagem do tempo e à perda de relevância. Em contrapartida, seu amor genuíno pelo Cinema como forma de expressão se junta à sua ambição artística a ponto de se sobrepor às considerações afetivas e mesmo ao bom senso, levando-o a presentear o neto com filmes pouco apropriados (para usar um eufemismo) à sua idade.

O que nos traz ao seu novo projeto cinematográfico, que, claramente autobiográfico e inspirado parcialmente em sua mãe, leva o sujeito a negar repetidas vezes qualquer conexão pessoal com a trama – e o fato de desejar que o neto interprete um personagem que evidentemente o representa na infância apenas salienta o que ele nega reconhecer. Esta inconsistência ilustra, entre outras coisas, a complexidade psicológica que pode se mostrar presente na criação artística e que leva o artista a projetar, ainda que inconscientemente, seus traumas e dores naquilo que produz, utilizando a ficção como veículo de expressão e como forma de exorcizar os próprios demônios.

Neste contexto, quem surge como fonte inesperada de estabilidade familiar é Agnes, justamente a filha caçula, que assume o papel de mediadora/cuidadora e demonstra preocupação constante com o bem-estar do pai, com o equilíbrio emocional da irmã e com a relação tensa entre ambos, frequentemente sacrificando no processo suas próprias necessidades – e Inga Ibsdotter Lilleaas consegue transformar uma personagem que poderia facilmente ficar apagada em um eixo fundamental da narrativa. Enquanto isso, Renate Reinsve, que já havia colaborado com Trier em A Pior Pessoa do Mundo, oferece uma performance que impressiona com sua capacidade de evocar tristeza e vulnerabilidade através do olhar, mesmo em situações aparentemente alegres ou celebratórias: logo após a estreia de uma peça, por exemplo, ela recebe congratulações, conversa e sorri com desenvoltura, permitindo no entanto que o espectador perceba em seus olhos uma profunda melancolia. Não é surpresa, portanto, que a relação entre as irmãs constitua um dos aspectos mais tocantes da narrativa, refletindo suas personalidades e estratégias distintas para lidar com traumas compartilhados – e a conversa que mantêm no ato final representa uma das melhores passagens de toda a filmografia do cineasta.

Ilustrando a transformação do trauma em expressão artística sem cometer o erro de romantizar este processo (ao contrário do que fez o pavoroso A Onda), Trier reconhece que fetichizar a angústia e a tristeza como fontes privilegiadas de inspiração é uma perspectiva essencialmente cruel. No final das contas, a dor é simplesmente dor; se dela eventualmente emerge algo belo ou significativo, trata-se de uma consequência acidental, nunca de uma justificativa para o sofrimento em si.

Texto originalmente publicado como parte da cobertura do Festival de Cannes 2025

21 de Maio de 2025

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Pablo Villaça
Avaliação do CríticoPablo Villaça
5.0
★★★★★

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