Dirigido e roteirizado por Guillaume Giovanetti e Çagla Zencirci. Com: Saadet Işıl Aksoy, Nilgün Türksever, Nesrin Yatman, Nevin Zencirci, Sibel Oral, Tulya Yılmaz, Derya Yatman, Meriç Kılıç, Erkan Kolçak Köstendil, Muhammet Uzuner, Osman Alkaş.
Exibido na Berlinale como parte da seção Panorama, Confidente é uma produção turca que, escrita e codirigida por Guillaume Giovanetti e Çagla Zencircique, se apoia em um artifício que em mãos incompetentes normalmente se revela como simples muleta narrativa: um herói – ou, neste caso, heroína – que passa quase todo o filme em conversas telefônicas (como no fraco Chamada de Emergência, nos eficientes Culpa e Por um Fio e no excelente Locke). O problema é que estruturas como esta exigem uma segurança considerável e, sobretudo, uma direção inventiva para evitar que o resultado final soe como um mero amontoado de diálogos – e a dupla de diretores de Confidente definitivamente não supera estes obstáculos.
Girando em torno de Arzu (Aksoy), uma mulher que trabalha em uma linha de telessexo na Turquia, o roteiro logo revela que esta é divorciada e vive sob a ameaça constante de perder a guarda do filho caso sua profissão seja descoberta. Aliás, uma das primeiras (e lamentáveis) escolhas do longa é povoar essa empresa majoritariamente com mulheres de meia-idade, reservando a juventude e a beleza convencional exclusivamente para a protagonista e fazendo assim um julgamento escancarado sobre o perfil das mulheres que os diretores acreditam serem as únicas que aceitariam este tipo de emprego – um preconceito que é ressaltado pelo fato de Arzu exibir uma limitação física que, sem desempenhar qualquer papel na narrativa, é obviamente fruto da percepção de que apenas um problema físico explicaria sua presença ali.
Curiosamente, o filme até ensaia um começo promissor ao sugerir como a natureza do trabalho daquelas mulheres não é o de meramente vender sexo virtual, mas sim fantasias, mostrando a habilidade daquelas profissionais em adaptar suas personas às necessidades e fetiches específicos de cada cliente. Em certo momento, por exemplo, um cliente tenta "converter" a protagonista, buscando afastá-la daquela “vida” (as aspas estão conotadas no seu tom de voz), e ela o mantém na linha ao perceber que o próprio ato da conversão é o fetiche do sujeito.
Infelizmente, esta promissora linha temática é rapidamente abandonada, já que, ignorando potenciais discussões sobre os contextos políticos, religiosos e sociais específicos da Turquia (um prato cheio considerando a profissão da protagonista), o filme opta por investir em um suspense raso e repleto de clichês desencadeado por um evento catastrófico: um terremoto. Durante uma ligação, um adolescente com quem a protagonista conversava fica preso sob os escombros e - não há suspensão de descrença que resista aqui – descobre que o único botão funcional de seu telefone danificado é o de rediscagem, forçando-o a ligar para a linha de telessexo. A partir daí, Arzu assume a missão de ajudá-lo a conseguir resgate.
Mas a coisa piora com a introdução de um elemento burocrático absurdo: aparentemente, no sistema turco retratado pelo filme, apenas um promotor específico tem a autoridade para iniciar os procedimentos de resgate em larga escala após o desastre – e, vejam a coincidência!, a protagonista havia, em uma ligação anterior, entreouvido justamente a voz desse mesmo promotor enquanto conversava com outro cliente, descobrindo assim que ele frequentava uma casa de orgias. Utilizando essa informação (e sendo, aparentemente, a única pessoa capaz de contatar o promotor em meio ao caos nacional), ela o localiza para que ele possa autorizar o resgate, envolvendo-se, no processo, em uma teia de conspirações, traições, revelações e até um possível assassinato – tudo isso sem sair de sua linha telefônica. E mais: mesmo com um número reduzidíssimo de personagens, o filme ainda tenta tratar a revelação do grande vilão da história como algo surpreendente, aparentemente ignorando que ao reduzir as possibilidades a basicamente duas pessoas qualquer tentativa de suspense se torna absolutamente ridícula.
Além da inverossimilhança da trama, Confidente recorre também a clichês dramáticos para tentar gerar conflitos pessoais entre personagens - como a colega de trabalho que literalmente vira as costas para a protagonista em um momento de necessidade (girando a cadeira, para enfatizar a rejeição) e um chefe que assedia Arzu e cujo comportamento o próprio filme tenta suavizar ao revelar um suposto lado romântico (ele compra passagens aéreas sem data fixa para que fujam juntos – a ideia de “romance” dos roteiristas não se diferencia do assédio).
Neste contexto, não há o que Saadet Işıl Aksoy possa fazer – e nem vou dizer que a atriz se esforça, já que não há nada no roteiro ou na mise-en-scène que possa desafiá-la de fato. Como se não bastasse, o filme ainda tenta se vender como politizado ao inserir monólogos artificiais sobre empoderamento feminino, sexismo e patriarcado – e embora esses temas pudessem, em tese, ser relevantes no contexto do telessexo, a forma como são introduzidos (com a narrativa parando para que a protagonista discurse) soa forçada, condescendente e, em última análise, ridícula, falhando em fortalecer a personagem ou apresentar argumentos genuinamente interessantes.
Finalmente, Confidente recorre a um dos clichês mais batidos e reveladores da falta de propósito de um filme: o plano derradeiro em que o protagonista olha diretamente para a câmera. Arrisco dizer que é uma regra quase infalível: em 99% das ocasiões em que uma obra se encerra desta maneira, a quebra da quarta parede se torna apenas um indicativo de que o diretor não sabia como concluir a história ou de que não tinha nada a dizer, empregando a tentativa de criar uma cumplicidade ou um confronto final através desse olhar direto como disfarce para a falta de ideias.
E assim os diretores desta porcaria comprovam como são capazes de errar do primeiro ao último segundo de projeção.
Texto originalmente publicado como parte da cobertura do Festival de Berlim 2025
20 de Fevereiro de 2025
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