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A Odisseia

Crítico★★★★☆4/5
Público☆☆☆☆☆Sem votos
11 min
A Odisseia
A Odisseia

Dirigido e roteirizado por Christopher Nolan. Com: Matt Damon, Anne Hathaway, Tom Holland, Robert Pattinson, Zendaya, Lupita Nyong´o, Charlize Theron, Elliot Page, Samantha Morton, Jon Bernthal, Himesh Patel, Mia Goth, Benny Safdie, Logan Marshall-Green, James Remar, Ryan Hurst e John Leguizamo.

No texto introdutório de sua tradução de A Odisseia, a professora britânica Emily Wilson ressalta que o conceito de xênia era fundamental para os gregos antigos, estabelecendo a importância da hospitalidade direcionada a desconhecidos e como esta criava laços duradouros que se revelaram cruciais para a expansão desta civilização pelo Mediterrâneo, possibilitando que a lógica das cidades-estado independentes acabasse sendo substituída por uma estrutura mais interconectada. Tratada como sendo a “lei de Zeus”, a xênia reconhecia, há três mil anos, que tratar estranhos como família era determinação divina – e embora seja impossível ignorar como a violência era comum e brutal na Idade do Bronze, é curioso perceber que a mera ideia de estender a mão ao próximo se tornou controversa no século 21.

Não é acaso, portanto, que esta adaptação de Christopher Nolan menciona a “lei de Zeus” em diversas ocasiões, já que não apenas o início da guerra de Troia é marcado pela ação traiçoeira de um hóspede ao sequestrar a esposa de seu anfitrião como o conflito é encerrado com a completa destruição do conceito, uma vez que a troca de presentes (xeinion) era outro elemento fundamental para estabelecer confiança entre duas partes, sendo utilizada, em vez disso, para contrabandear os guerreiros gregos para o interior das muralhas da cidade. Assim, ao longo da projeção, vemos Telêmaco (Holland) frustrado com os abusos dos pretendentes à mão de sua mãe Penélope (Hathaway), que passam anos consumindo as provisões do Reino de Ítaca; o ciclope Polifemo e os homens de Odisseu (Damon) ignorando qualquer respeito mútuo; os gigantes lestrigões partindo imediatamente para o ataque aos visitantes de sua terra; e, claro, tudo que ocorre na casa de Circe (Morton). É como se o Cavalo de Troia fosse também a caixa de Pandora e sua abertura trouxesse o colapso de qualquer traço de civilidade.

Ansiosos para retornar ao lar depois de dez anos de cerco aos troianos, Odisseu e seus guerreiros gastariam outra década na jornada de volta, encontrando novos obstáculos e terríveis ameaças em cada parada – e quando o longa tem início, o jovem Telêmaco, filho do herói, encontra-se à beira do desespero depois de passar a vida em um limbo de poder criado pela ausência do pai. Determinado a descobrir o que ocorreu, ele deixa Ítaca enquanto sua mãe mantém à espera os pretendentes que disputam a mão da Rainha, insistindo para que esta escolha o novo marido. Enquanto isso, Odisseu, há anos vivendo com a deusa-ninfa Calipso (Theron), se esforça para recuperar as memórias apagadas pelo consumo de flores de lótus, algo que serve de âncora para os flashbacks que revelarão sua história.

Saltando entre linhas narrativas que acompanham Telêmaco, Penélope e Odisseu não apenas em lugares distintos, mas em diversos tempos, A Odisseia parece feita sob medida para as sensibilidades artísticas de Nolan, que ainda tem a chance de explorar outros temas e recursos favoritos como traumas do passado, o peso das memórias sobre o presente (e como estas nem sempre são objetivas), ansiedades despertadas por esposas em perigo, personagens que se encarregam de narrar suas trajetórias e, claro, a imagem da água e o constante perigo de afogamento (uma obsessão que observei, por exemplo, ao escrever sobre Dunkirk). Navegando com destreza entre os desafios enfrentados pelos três personagens, o cineasta já comprova esta fluidez ao introduzir o filme em uma longa sequência expositiva que, embalada pela fantástica trilha de Ludwig Göransson, se rende ao silêncio quando finalmente encontramos o herói recolhendo destroços de um barco sem parecer compreender exatamente o que faz, dando continuidade à introdução in medias res sem perder o ritmo.

Contribui para isto a disposição de Nolan – aí como roteirista – de não tratar o texto atribuído a Homero como material sagrado, condensando personagens, eliminando passagens e respeitando mais o tom do que o conteúdo do poema de mais de 12 mil versos. Assim, é Calipso quem faz Odisseu perder a memória com a flor de lótus (eliminando a Terra dos Lotófagos) e é para esta que o sujeito conta sua história (eliminando a ilha de Esquéria, o rei Alcínoo e Nausícaa), enquanto a estadia com Circe é reduzida de um ano para uma ou duas noites. É claro que por vezes o realizador exagera na lipo, transformando os Lestrigões, por exemplo, em desinteressantes figuras grandalhonas com armaduras de aço em vez de gigantes canibais.

Mas certamente a principal decisão de Nolan foi eliminar completamente da narrativa a presença física dos deuses, cuja existência, embora jamais questionada pelos humanos, se manifesta apenas através de fenômenos naturais; a exceção ficando por conta de Atena (Zendaya), que é vista apenas por Odisseu ainda que o filme invista em uma espécie de piada interna ao trazer Telêmaco comentando que este ou aquele personagem “tem os olhos de Atena” (no poema, estes eram a deusa transfigurada como disfarce) – e mesmo esta representação deve ser acompanhada de um asterisco que discutirei mais adiante.

Encarnando Odisseu como um líder nobre que faz questão até de alertar suas presas antes de tentar atingi-las com suas flechas, Matt Damon evoca a inteligência do herói (como ao demonstrar compreender as verdadeiras motivações de Agamenon para atacar Troia) e sua natureza afetuosa, sendo hábil também ao expressar sua exaustão crescente ao longo da jornada. É claro que contribui para esta nobreza a exclusão dos atos mais violentos e indesculpáveis do guerreiro (como a invasão a Ísmaro e a consequente execução dos homens e escravização das mulheres), mas, considerando as limitações de tempo, seria difícil recuperar o espectador caso a passagem estivesse presente – e estratégia similar se aplica a Telêmaco, que não apenas se mostra mais afetuoso com a mãe como se mantém íntegro até o desfecho (ao contrário do horror perpetrado contra as criadas do palácio).

Em vez disso, é Agamenon quem se torna amedrontador com sua figura imponente e armadura inconfundível, tendo o rosto, de forma apropriada, mantido parcialmente oculto em quase todas as suas aparições, o que o torna ainda mais aterrorizante (sendo importante pontuar como a força do sujeito deve-se menos ao seu intérprete, Benny Safdie, e mais ao esforço da figurinista Ellen Mirojnick – um trabalho admirável em escala, variedade e eficiência narrativa). E se John Leguizamo converte Eumeu em forte representação de sabedoria e lealdade e Robert Pattinson é fantástico como o vilão Antinoo, Anne Hathaway compõe Penélope como uma mulher cuja frustração diante do modo como é consistentemente subestimada rivaliza apenas com a dimensão de seu amor e de sua fé no retorno do marido. Finalmente, Jon Bernthal aproveita ao máximo seu pouco tempo de tela ao emprestar dignidade a Menelau sem sacrificar seu lado rancoroso, estabelecendo com Lupita Nyong´o uma dinâmica intensa que sugere as fissuras criadas pelos eventos descritos em A Ilíada (e recriados, por exemplo, em Troia), me incomodando apenas certa alteração que indica um ato violento de vingança pouco convincente e totalmente dispensável.

(É aqui que, por obrigação profissional, devo apontar a natureza ridícula dos protestos contra a contratação de Nyong´o para viver Helena, expondo um óbvio racismo mal disfarçado por apego a “fatos históricos” – um apego curioso quando aplicado a uma personagem que nasceu de um ovo e é vista em um filme no qual Matt Damon interpreta um grego e todos conversam em inglês coloquial, com direito a “fucking” e tudo mais. Ou talvez seja mesmo pura ignorância e estes indivíduos acreditem que A Odisseia é um relato documental que, transmitido por séculos através de tradições orais, finalmente foi registrado em forma de poema por “Homero”, uma espécie de Petra Costa da Grécia Antiga. Aliás, para ser bem sincero, acho que seria menos absurdo apontar como a seleção da atriz poderia ser interpretada como apresentando conotações racistas e misóginas ao replicar o estereótipo da “mulher negra raivosa” – um tropeço que se repete na escalação de Himesh Patel como Euríloco, atribuindo a alguém de ascendência indiana as ações pontualmente traiçoeiras do braço direito de Odisseu, que, para piorar, frequentemente lava as mãos diante das decisões mais brutais e as delega ao outro. Mas duvido que as pessoas críticas a estas escolhas – o que inclui a ótima participação de Elliot Page como Sinon – se incomodem com estas questões específicas.)

Resgatando de certa maneira o sucesso da abordagem realista (ou “naturalista”, como prefiro dizer) da trilogia Batman, Nolan retrata a jornada de Odisseu com uma fotografia que trata os aspectos físicos daquele universo como elementos de textura palpável e cores discretas, empregando as câmeras IMAX e sua película de 65mm exposta horizontalmente para criar uma resolução equivalente a nada menos do que 16K – o que significa que, mesmo ao assistirmos a uma versão digital do filme em uma sala comum, os detalhes registrados tornam visíveis cada dobra de tecido, cada pena de flecha e cada grão da areia escura de Hades. Além disso, a distância focal é usada ativamente não apenas para criar focos de atenção, mas também para disparar no espectador reações condicionadas por nossas experiências com o audiovisual – e mostrar o ciclope fora de foco, ao fundo de um quadro instável, é um exemplo de como isto confere ainda maior verossimilhança à criatura. De forma similar, Nolan leva o espectador para dentro do Cavalo de Troia para que testemunhemos – e de certo modo sintamos – a claustrofobia experimentada pelos gregos, sendo também visível o esforço físico necessário para transportar a estrutura para dentro da cidade (e notem como, ao sair do cavalo, Odisseu inicialmente caminha com dificuldade). Finalmente, a maneira como as transformações provocadas por Circe são retratadas é brilhante por exigir toque e modelação, o que traz fisicalidade ao que acontece em uma sequência de puro horror que Samantha Morton usa para roubar momentaneamente o filme.

Mas méritos também devem ser atribuídos ao desenho de som de A Odisseia, que converte o ruído do oceano revolto em um rugido animal capaz de fazer as poltronas do cinema tremer (e já que mencionei “rugido”, o grito do ciclope Polifemo é perturbador). Como se não bastasse, a solução encontrada por Nolan e sua equipe para o canto das sereias é fabulosa, prendendo o espectador à subjetividade perceptual dos guerreiros, que têm os ouvidos tapados com cera, e permitindo que imaginemos os sons apenas através das reações de Damon, que vai do encantamento ao horror absoluto em questão de segundos.

Dito isso, A Odisseia é bem mais do que uma aventura contada com sofisticação técnica e inspiração artística; é também um comentário humanista sobre o horror da guerra e as ações perversas de homens que recebem autorização para colocá-las em prática em função do uniforme que vestem e das ordens que seguem. Pois o Odisseu de Damon não é apenas um homem exausto; os ecos das barbáries que testemunhou – e perpetrou – estão presentes em sua postura e em seus olhos (algo que Ralph Fiennes também evocou maravilhosamente no bom O Retorno, de Uberto Pasolini, que narra apenas os dez últimos livros do poema). Assim, é um pequeno tropeço que Nolan evite os aspectos mais gráficos do ataque a Troia, permitindo apenas breves vislumbres que mais sugerem do que expõem, já que seria importante que a violência extrema do massacre, tão impactante sobre o herói, se tornasse mais evidente.

O que nos traz à Atena de Zendaya, cuja natureza acaba seguindo a lógica empregada para (não) retratar os demais deuses, sendo perfeitamente possível encará-la como um sintoma do estresse pós-traumático de Odisseu e símbolo da culpa que o corrói. E é por isso que ater-se aos humanos é tão importante nesta versão de A Odisseia, já que a presença dos estratagemas e das disputas envolvendo os deuses do Olimpo acabaria por remover parte da culpa dos humanos, que, mesmo tendo livre-arbítrio, ainda seriam peças manipuladas por grandes ou pequenas divindades: Atena, Poseidon, Hélio, Éolo, Hermes e, claro, Zeus. Aliás, é justamente por este motivo que se torna tão frustrante quando, nos minutos finais, Nolan parece sentir a necessidade de mastigar para o espectador os temas do filme e seus paralelos com o mundo contemporâneo em uma narração óbvia.

O que não os torna menos relevantes. Afinal, para muitos dos seguidores do quase-xará moderno de Zeus, o conceito de xênia há muito foi substituído pela xenofobia e por uma falta generalizada de compaixão. Hoje, Troia cedeu lugar à Palestina, a Alepo, a Mariupol e às comunidades do Rio de Janeiro.

Com a diferença de que as ações dos micênicos contemporâneos são transmitidas em tempo real, defendidas por sociopatas nas redes sociais e aplaudidas por bilionários que tentam vendê-las como uma vitória “contra o terrorismo”. Não há autorreflexão para os Odisseus do século 21.

18 de Julho de 2026

Pablo Villaça
Avaliação do CríticoPablo Villaça
4.0
★★★★☆

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