Dirigido e roteirizado por Julia Ducournau. Com: Mélissa Boros, Golshifteh Farahani, Tahar Rahim, Emma Mackey, Finnegan Oldfield, Louai El Amrousy.
Em 2021, durante a edição do Festival de Cannes realizada em plena pandemia, uma das maiores surpresas foi a conquista da Palma de Ouro por Titane, dirigido pela francesa Julia Ducournau — apenas o segundo filme comandado por uma mulher a receber esta distinção (dois anos depois, Justine Triet se tornaria a terceira com Anatomia de uma Queda). A vitória surpreendeu não apenas pela estatística sexista do evento, mas também pela natureza singular da obra: um filme que, ao combinar elementos de drama tradicional com um terror surrealista, criava uma atmosfera pesada e angustiante controlada com segurança por uma diretora considerada relativamente inexperiente.
Assim, é natural que Alpha, seu filme seguinte, tenha gerado expectativas ao trazê-la de volta à mostra competitiva de Cannes - e, como o anterior, este novo trabalho também gera angústia através de uma tensão constante criada pela combinação de drama e terror com aspectos surrealistas, abrindo a projeção já com a cena impactante de um homem que, viciado em heroína, tem as várias marcas de injeção em seu braço conectadas por uma linha desenhada por sua sobrinha, uma criança de cinco ou seis anos que não compreende a gravidade da situação. Trágica e evocativa, a imagem sintetiza a transmissão de traumas entre gerações que o longa irá explorar.
A partir daí, o roteiro também escrito por Ducournau salta no tempo e reencontra a menina, agora adolescente, tendo o braço (esquerdo, como o do tio) perfurado não por uma injeção de heroína, mas por um instrumento improvisado de tatuagem que marca sua pele com a letra "A" (simbolizando seu nome, que dá título ao projeto). Chocada ao descobrir o que a filha fez, a médica interpretada pela iraniana Golshifteh Farahani fica aterrorizada com a possibilidade de que a garota tenha contraído um vírus através da agulha compartilhada, desencadeando uma dinâmica que se tornará ainda mais complexa quando seu irmão (e tio da protagonista) ressurge em sua vida ainda tomado pelo vício. Aos poucos, Alpha (Boros) e seu tio Amin (Rahim) estabelecem uma conexão marcada pela vulnerabilidade e pelo fato de ambos se tornarem prisioneiros da personagem de Farahani enquanto esta espera os resultados do exame de sangue da filha e tenta reabilitar o irmão dependente químico.
Desenvolvendo-se como um drama estruturado a partir das relações entre estes três personagens, o filme jamais esquece que uma destas pessoas é uma adolescente que, apesar das atitudes autodestrutivas e das evidentes restrições à figura materna, ainda reconhece a autoridade da mãe principalmente no que diz respeito à sua segurança: em certo momento, por exemplo, depois de demonstrar medo durante um procedimento médico, Alpha ouve a sugestão de uma enfermeira para que ela mesma aplique a injeção em segredo, rejeitando a ideia ao entender que só o fato de não poder contar à mãe já significa se tratar de algo arriscado - revelando a confiança infantil (e acertada) que ainda mantém na figura materna como protetora. Já em outra passagem igualmente tocante, a médica interrompe uma discussão tensa que mantém com a garota ao vê-la fazer uma confusão inocente, abraçando-a e beijando-a em uma reação quase involuntária de afeto que qualquer pai ou mãe reconhecerá facilmente como aquele impulso irresistível diante da ternura inesperada de um filho.
Ainda assim, é a exaustão física e emocional crescente da personagem de Farahani que contribui para intensificar a ansiedade despertada pelo longa: dividida entre os cuidados com o irmão e incapaz de se tranquilizar mesmo quando o exame da filha não identifica a presença do vírus (o que a leva a manter a garota sob vigilância enquanto aguardam novos testes), a médica aos poucos tem as origens de seu instinto superprotetor exploradas pela narrativa sem que isso justifique a pressão exagerada que exerce sobre Alpha. Aliás, esta estrutura que intercala flashbacks aos incidentes do presente reflete uma escolha curiosa no que diz respeito à fotografia de Ruben Impens: se a maior parte da história, que se passa nos dias atuais, é apresentada em tons dessaturados e frios, criando uma atmosfera opressiva, o passado é continuamente visto através de cores mais quentes e intensas – algo inesperado, já que as memórias retratadas nada têm de agradáveis ou nostálgicas (sentimentos que habitualmente justificariam uma paleta mais saturada). Esta escolha aparentemente contraditória acaba por ser justificada conforme a projeção avança – e mesmo que a lógica resultante dependa de elementos decepcionantes do roteiro, a estratégia visual de Ducournau ao menos é coerente.
Infelizmente, há uma outra escolha narrativa feita pela diretora que nem as marcantes imagens resultantes conseguem justificar e que dizem respeito à natureza do vírus que aterroriza o universo do filme: transmitido sexualmente (com relações homossexuais sendo vistas pelos personagens como principal vetor de contágio, gerando atos de homofobia) e também por agulhas contaminadas e pelo contato direto com sangue infectado, o vírus causa uma doença que leva a um definhamento progressivo até a morte inevitável. Em outras palavras: trata-se evidentemente, mesmo sem menção explícita, de uma representação da AIDS, particularmente no contexto dos anos 80, quando a doença era uma sentença de morte e provocava pânico generalizado, além de intenso preconceito contra os portadores do vírus, que eram frequentemente marginalizados pela sociedade. Contudo, em vez de retratar a epidemia diretamente, Ducournau concebe um vírus que gradualmente transforma as pessoas em mármore e que, em estágios avançados, provoca tosses que eliminam pó até que seus corpos se petrifiquem totalmente.
Trata-se, como já mencionado, de uma escolha que resulta em imagens únicas; há uma beleza plástica perturbadora na transformação, com as diferentes tonalidades de mármore refletindo a pele das vítimas e criando imagens cuja estética fascinante apenas ressalta o horror da situação (além disso, a lógica da petrificação permite que, assim como em Titane, a cineasta invista no body horror e no gore). Em certa sequência que se passa em um clube de strip-tease, por exemplo, Ducournau traz indivíduos em diferentes estágios de infecção dançando com partes do corpo já marmorizadas, o que implica em movimentos ao mesmo tempo grotescos e hipnotizantes.
Mas… com qual propósito? O que a realizadora pretende dizer com esta alegoria específica? O que o filme ganha, como narrativa, ao converter o HIV em um vírus que transforma pessoas em mármore? Isto acrescenta alguma camada de significado ao longa além do impacto visual imediato? Infelizmente, a resposta parece ser negativa, com a escolha soando como mero artifício estilístico talvez resultante da expectativa gerada pela abordagem de Titane. Para piorar, o clímax envolve uma revelação que, além de previsível e clichê, é decepcionante em sua artificialidade, levando o longa a desmoronar em um momento crucial.
Apesar destes problemas graves, Alpha está distante de ser um fracasso completo (as performances de Farahani e Rahim são excelentes) – e torço para que seja apenas um tropeço aborrecido que servirá para inspirar sua obviamente talentosa diretora em seus passos seguintes.
Texto originalmente publicado como parte da cobertura do Festival de Cannes 2025
19 de Maio de 2025
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