Em Busca do Ouro
Dirigido e roteirizado por Charles Chaplin. Com: Charlie Chaplin, Mack Swain, Tom Murray, Henry Bergman, Malcolm Waite, Georgia Hale.
O primeiro dia de exibições do Festival de Cannes de 2025 trouxe, como presente de boas-vindas, uma cópia restaurada de Em Busca do Ouro, um dos muitos clássicos realizados por Charles Chaplin - uma escolha que também serve para celebrar o centenário de seu lançamento em junho de 1925 (ele chegou ao Brasil no mês seguinte). Esta nova cópia, aliás, carrega um propósito duplo, já que não se trata apenas de uma restauração da qualidade da imagem em si, mas de um resgate da montagem original, que acabou sendo obscurecida de certo modo pela versão de 1942 criada pelo próprio Chaplin e na qual este eliminou as cartelas com intertítulos (substituindo-as por uma narração), refez elementos da trilha sonora e removeu ou encurtou cenas.
Chaplin, claro, era um perfeccionista. Enquanto muitos realizadores do período silencioso do Cinema lançavam dezenas de filmes anualmente, ele refazia tomadas de forma enlouquecedora e, não raro, esgotava seus atores no processo – e em Em Busca do Ouro, por exemplo, Mack Swain, seu parceiro de cena durante boa parte da narrativa, chegou a desistir do filme em certo ponto por estar farto de repetir takes enquanto vestia um pesadíssimo casaco de pele sob o calor da Califórnia (a história se passa no Alasca, lembrem-se), sendo convencido a muito custo a retornar para a conclusão das filmagens.
Dito isso, mesmo reconhecendo como este perfeccionismo produziu uma obra notavelmente homogênea, devo admitir que há, em Em Busca do Ouro, algumas questões que me impedem de colocá-lo no mesmo nível de filmes como Luzes da Cidade (meu favorito absoluto), O Garoto ou Tempos Modernos – como, por exemplo, o fato de evidenciar de modo mais transparente sua estrutura episódica. Sim, esta é uma característica relativamente comum entre as comédias das décadas de 10 e 20, que eram frequentemente concebidas a partir de gags criadas no processo de filmagem e em torno das quais um fiapo de trama era amarrado, mas aqui a desconexão entre segmentos específicos do filme se torna bem mais patente – o que não deixa de ser irônico, já que este talvez tenha sido o primeiro projeto que Chaplin iniciou já tendo a história inteira mapeada.
É fácil observar, por exemplo, como o filme salta de uma prioridade narrativa a outra: há segmentos em que, como seria de se esperar, a comédia é o foco ostensivo – até ceder espaço a uma extensa seção em que o romance, tingido por um toque (melo)dramático, assume o centro da obra, deixando pouquíssimo espaço para gags. Aliás, refletindo esta oscilação, o longa introduz personagens importantes – incluindo o interesse amoroso do protagonista - depois de transcorridos mais de trinta minutos de projeção, o que representa um relativo descuido que Chaplin não costumava exibir.
Porém, feitas estas ressalvas (e que são pecadilhos diante de suas inúmeras virtudes), Em Busca do Ouro impressiona não só como feito artístico, mas pela escala de sua produção: é sempre espantoso testemunhar a magnitude dos projetos encabeçados naquele período por realizadores como Chaplin, que detinham não apenas liberdade criativa completa, mas poder e prestígio para jamais limitá-la por preocupações financeiras – e a quantidade de figurantes nos planos iniciais, por exemplo, é espantosa, somando mais de seiscentos indivíduos formando uma infindável fila de garimpeiros rumo ao Alasca (numa das poucas passagens rodadas em locação). De modo similar, os cenários envolvem a recriação de montanhas cobertas de neve, cabanas rústicas construídas sobre mecanismos que permitem sua inclinação e, claro, a cidadezinha que evoca o assentamento de Klondike que existia no território de Yukon no período da corrida do ouro.
Igualmente satisfatório é constatar como, um século depois, o humor do filme permanece incrivelmente eficaz, despertando um riso que vem não da nostalgia ou mesmo de uma admiração condescendente, como às vezes se observa em relação a obras do passado, mas de um riso genuíno que reflete a capacidade de Chaplin para conceber e executar gags – um talento que só rivalizava com seu talento para o humor físico. E, claro, mesmo os momentos de humor mais sutil, daqueles que provocam não a gargalhada aberta, mas um sorriso de canto de boca – como na célebre dança dos pãezinhos –, se tornam também memoráveis graças à delicadeza quase infantil de suas ideias.
(A propósito: é curioso notar como esta passagem, hoje universalmente associada a Em Busca do Ouro, foi originalmente executada por Roscoe “Fatty” Arbuckle em The Rough House (1917) – algo que discuti em um extenso post em meu blog sobre a trágica história do comediante. Isto, porém, não deve ser encarado como plágio por parte de Chaplin; a reciclagem, o reaproveitamento e o refinamento de gags presentes em outros filmes eram práticas correntes no período. Por outro lado, não acho absurdo supor que a sequência da cabana precariamente equilibrada na beira de um precipício tenha inspirado, décadas depois, outro instante fantástico em Um Golpe à Italiana, demonstrando como a Arte tem este poder de surpreender através de inspirações do passado.)
Outro elemento notável diz respeito à sua inventividade para empregar todo e qualquer elemento narrativo disponível na época para contar sua história: mesmo sem poder utilizar muitos diálogos, por exemplo (além daqueles presentes nos intertítulos), Chaplin consegue pregar uma peça no espectador através da ambiguidade de um pedido de desculpas e de uma declaração de amor, que inicialmente supomos ser dirigidas a um personagem apenas para sermos corrigidos logo depois. De forma similar, as cartelas que sempre apresentam o interesse amoroso interpretado por Georgia Hale desempenham função dupla graças à ilustração que trazem ao lado do nome da garota: uma flor que, em sua última aparição, surge sem pétalas, comunicando imediatamente algo importante sobre sua trajetória emocional.
Muito mais sentimental do que a maioria de seus contemporâneos, Chaplin escancara sua empatia até por personagens secundários (ou mesmo figurantes) – e na passagem que acompanha a virada de ano, ele se detém nos rostos de várias destas figuras para capturar suas expressões melancólicas enquanto a evocativa “Auld Lang Syne” é cantada em coro, sugerindo uma vida interior que acentua a humanidade do filme. Enquanto isso, o próprio Vagabundo comove, como de costume, através de sua inocência e de sua boa-fé, não conseguindo conter a felicidade ao dançar com Georgia ainda que desconfie de que há algo errado (e Chaplin comprova seu talento como ator ao permitir que notemos esta desconfiança em seu olhar).
Mestre da ironia dramática (quando leva o espectador a possuir informações que faltam ao protagonista), o astro-roteirista-produtor-compositor-diretor pontua a projeção com vários exemplos eficazes do recurso, tornando-nos ainda mais próximos de seu icônico personagem graças à nossa simpatia (e piedade) por sua ignorância, transformando cada uma de suas vitórias em motivo de celebração e de uma alegria que vai além daquela já trazida pelo riso frequente.
Texto originalmente publicado como parte da cobertura do Festival de Cannes 2025
14 de Maio de 2025
(O Cinema em Cena é um site totalmente independente cuja produção de conteúdo depende do seu apoio para continuar. Para saber como apoiar, conhecer as recompensas - além do acesso gratuito a todo nosso conteúdo -, basta clicar aqui. Precisamos apenas de alguns minutinhos para explicar. E obrigado desde já pelo clique!)

Críticas Relacionadas


