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Fernão de Magalhães

★★★★☆4/5 estrelas
12 min

Dirigido e roteirizado por Lav Diaz. Com: Gael García Bernal, Dario Yazbek Bernal, Ronnie Lazaro, Hazel Orencio, Ângela Azevedo, Amado Arjay Babon, Tomás Alves, Brontis Jodorowsky.

Conhecido por criar narrativas contemplativas - longas produções que frequentemente ultrapassam cinco ou seis horas de duração -, o cineasta filipino Lav Diaz tende a construir suas obras a partir de quadros abertos e planos predominantemente estáticos e extensos, muitas vezes transformando cada cena em uma única tomada ininterrupta e que servem de moldura para suas preocupações temáticas recorrentes: as interseções entre fé, religião e poderes políticos e econômicos. Neste sentido, Fernão de Magalhães, exibido fora de competição em Cannes, é um representante típico da filmografia do diretor. Por outro lado, trata-se da primeira grande produção internacional do realizador e de seu primeiro trabalho com um ator de renome global: o mexicano Gael García Bernal, que aqui encarna o navegador português que dá título ao projeto.

Com uma duração de 165 minutos - quase um curta-metragem para os padrões de Diaz -, o filme acompanha cerca de 16 anos da vida de Fernão de Magalhães, que, primeiro a realizar a circum-navegação do globo, teve o Estreito de Magalhães batizado em sua homenagem e faz parte do grupo dos grandes navegadores da História como Cristóvão Colombo, Pedro Álvares Cabral, Bartolomeu Dias e Vasco da Gama (ainda que, para os latinos, a implicação elogiosa do adjetivo “grandes” seja questionável considerando a natureza colonialista, destrutiva e o legado de atrocidades humanas pavoroso daquelas expedições). Escrito pelo próprio diretor, o roteiro tem início em 1505, com as primeiras batalhas das quais o sujeito participou, passando pela conquista de Malaca em 1511, por seu eventual distanciamento da Coroa portuguesa e por sua aproximação do rei espanhol (que financiaria sua mais ambiciosa expedição) até chegar à sua morte em 1521, aos 41 anos de idade.

No entanto, o que interessa a Diaz não é a possibilidade de criar uma aventura histórica, mas sim um retrato sem qualquer romantização, evitando assim a tradicional estratégia de produções do tipo, que insistem em transformar o passado em espetáculo para as audiências contemporâneas. Assim, quando presenciamos um baile, por exemplo, não vemos o habitual salão grandioso com candelabros iluminando figurinos luxuosos, mas sim um ambiente apertado e escuro, com vestimentas que, embora suntuosas para os padrões da época, estão longe da opulência que normalmente atrai prêmios de figurino. Em vez disso, o mundo retratado em Magalhães é essencialmente cruel, primitivo e brutal. De modo similar, o filipino investe em um naturalismo que é refletido pelo excelente desenho de som, que abandona trilhas épicas para se concentrar em ruídos diegéticos: durante as explorações na selva, ouvimos os sons da natureza e o correr da água nos rios; nas sequências marítimas, somos envolvidos pelo barulho das ondas, das tempestades, da madeira das caravelas se contraindo e das velas batendo contra o vento – uma imersão sonora que complementa a austeridade visual do longa.

Investindo em uma fotografia em cores que – aí, sim – cria um contraste com seus trabalhos habituais em preto e branco, Diaz (que assina a direção de fotografia ao lado de Artur Tort) adota uma paleta com tonalidades vivas, intensas, que ressaltam a beleza dos ambientes ainda intocados pelos invasores. Ainda assim, ao manter sua preferência por planos abertos, o cineasta subverte possíveis expectativas comerciais que poderiam surgir com a presença de um astro como García Bernal, já que em boa parte da projeção mal conseguimos distinguir seu rosto (não só em função da distância, mas das sombras provocadas pelo capacete que usa em várias cenas) - e o primeiro close do mexicano surge apenas na segunda metade do filme. Isto, contudo, só ressalta o talento do ator, que, mesmo com poucas falas e raramente ajudado por closes, consegue transmitir através de sua expressão corporal a evolução do personagem, substituindo gradualmente a segurança inicial por hesitação, medo, fragilidade e, finalmente, brutalidade — tudo com uma economia de gestos que mantém a sintonia com a abordagem minimalista de seu diretor.

Justificando o tom contemplativo da narrativa como modo eficaz de retratar a lógica temporal daquele período, tão distante da velocidade dos dias de hoje e de suas gratificações instantâneas, Magalhães transforma a expedição marítima em uma jornada exaustiva, torturante, muitas vezes parecendo acompanhar um barco à deriva no qual o tédio e a tensão constantes formam uma combinação perigosa que não demora a resultar em tentativas de motim. Ao mesmo tempo, Diaz e seu protagonista ilustram a brutalidade do navegador sem idealizações históricas: em determinado momento, por exemplo, quando dois marinheiros são flagrados em um ato sexual, Magalhães condena um deles à morte por "atos contra a natureza". Como se não bastasse, a ambição crescente do sujeito, que vem acompanhada de paranoia e autoritarismo crescentes, aos poucos parece converter o interesse exploratório em pura mesquinhez religiosa, com os esforços de conversão e evangelização das populações locais deturpando completamente a lógica da missão e do próprio Magalhães ao transformar uma expedição quase científica em empreitada colonizadora.

O que nos traz à representação da violência pelo longa: se Truffaut afirmou (com propriedade) ser praticamente impossível fazer um filme antiguerra, já que a representação da violência na tela tem a tendência estética de torná-la excitante, Magalhães oferece uma solução peculiar para a questão ao se limitar a exibir os momentos após as batalhas. Assim, em vez retratar combatentes trocando tiros, tecendo estratégias de ataque e duelando com suas espadas, Lav Diaz se concentra nas consequências de tudo isso, preenchendo os quadros com uma praia coberta de corpos espalhados pela areia e, em outro instante, explicitando o resultado do extermínio de um grupo indígena ao mostrar dúzias de cadáveres em uma aldeia e na floresta. Além disso, o diretor escancara a naturalização daquela violência ao trazer personagens conversando despreocupadamente em meio a corpos em decomposição, o que funciona como um comentário visual poderoso sobre como a brutalidade colonizadora era normalizada por seus autores.

Ainda que não alcance o mesmo equilíbrio entre o tom contemplativo e um ritmo que mantenha a narrativa em movimento, como em A Mulher que se Foi e A Interrupção, por exemplo, é importante ressaltar que um filme pontualmente entediante não é necessariamente uma obra ruim; ao contrário, há muitas obras consideradas “lentas” que representam experiências maravilhosas – principalmente quando esta “lentidão” é um efeito deliberado e não defeito de execução.

E Laz Diaz é um mestre nestes efeitos.

Texto originalmente publicado como parte da cobertura do Festival de Cannes 2025

19 de Maio de 2025

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Pablo Villaça
Avaliação do CríticoPablo Villaça
4.0
★★★★☆

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