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Honey Bunch

★★★☆☆3/5 estrelas
12 min

Dirigido e roteirizado por Dusty Mancinelli e Madeleine Sims-Fewer. Com: Grace Glowicki, Ben Petrie, Jason Isaacs, India Brown, Patricia Tulasne, Julian Richings, Kate Dickie, Jesse LaVercombe, Sarah Kolasky, Lina Roessler.

Algo está errado. É isso que o espectador sente já nos primeiros segundos de Honey Bunch, antes mesmo de ter a chance de conhecer os personagens e de começar a entender o que estão vivendo. Eficaz em estabelecer uma atmosfera pesada e angustiante sem a necessidade de explicar a razão por trás deste tom, o filme, exibido em sessão especial da Berlinale, representa uma experiência inquietante que apenas lentamente permite que a dimensão real de seus horrores tome conta da projeção, quando então saltamos da ansiedade ao pesadelo.

Ambientado nos anos 70 e com uma abordagem estilística que remete a clássicos similares daquela década - como O Homem de Palha e Inverno de Sangue em Veneza -, o filme acompanha Diana e Homer (Grace Glowicki e Ben Petrie, também casados na vida real), enquanto chegam a uma clínica que funciona em um velho casarão no meio do nada. Sofrendo dores constantes, apresentando dificuldades para se locomover e atormentada por lapsos de memória desde que sofreu um acidente de carro, Diana é convencida pelo companheiro a se submeter a um tratamento revolucionário oferecido por um médico que promete não apenas eliminar as sequelas neurológicas, mas melhorar suas condições físicas de modo geral. No entanto, não demora muito até que Diana passe a ter visões perturbadoras e a desconfiar de que algo sinistro está ocorrendo – possivelmente com a anuência de Homer. Lidando continuamente com a enfermeira/governanta Farah (Dickie), já que o misterioso dono da clínica jamais está presente, a protagonista é acompanhada em seu tratamento por apenas uma outra paciente, a jovem Josephina (Brown), que conta com o apoio entusiasmado e esperançoso de seu pai Joseph (Isaacs).

Dirigido e roteirizado por outro casal da vida real, os canadenses Dusty Mancinelli e Madeleine Sims-Fewer, Honey Bunch investe em uma direção de arte que contribui imensamente para sua atmosfera opressiva, estabelecendo o casarão no qual a maior parte da ação transcorre como um lugar de paredes escuras e espaços claustrofóbicos, chegando a incluir um elemento clássico do gênero: o labirinto vivo situado nas proximidades. Enquanto isso, a fotografia de Adam Crosby adota uma luz esfumaçada que reforça a sensação de confusão da protagonista, como se sua névoa mental se manifestasse no ambiente ao seu redor – e os zooms recorrentes, outra referência às inspirações cinematográficas da década de 70, funcionam quase como pontuações, surgindo como pontos de exclamação que nos alertam sobre perigos invisíveis.

Mas há muito mais no arsenal dos cineastas: vez por outra, planos brevíssimos, quase subliminares, invadem a ação ecoando as memórias fragmentadas de Diana e plantando pistas para revelações posteriores, ao passo que os quadros que mostram a protagonista ou seus reflexos sendo cobertos por outras pessoas são inteligentes de um ponto de vista narrativo (ressaltando o sentimento de estranhamento geral) e temático (algo sobre o qual pouco posso dizer, já que envolveria spoilers).

Oferecendo oportunidades únicas a Grace Glowicki, que tem a chance de exibir sua versatilidade em um papel cujas facetas vão se multiplicando à medida que a história avança, o longa também merece créditos pela complexidade de seus “vilões” (reais ou imaginários, já que Diana passa boa parte da trama no escuro): jamais enxergando as ações destes personagens em preto e branco, o roteiro permite que suas motivações se tornem compreensíveis para o espectador mesmo que este não aprove o que fazem – e neste sentido Ben Petrie faz um trabalho brilhante, já que as razões de Homer para levar a esposa para a clínica podem ser vistas como benignas ou suspeitas, mantendo o suspense acerca da natureza do sujeito quase até o fim.

Quanto às revelações da segunda metade da projeção (que obviamente não discutirei em detalhes), é importante fazer um contraponto ao que escrevi sobre Bebê da Mamãe: se naquele filme a narrativa desmoronava quando seus segredos eram desvendados, aqui estes tornam a experiência mais interessante - embora, claro, possam soar… extremos para alguns espectadores.

O que ainda é melhor do que apenas repetir lugares-comuns do gênero.

Texto originalmente publicado como parte da cobertura do Festival de Berlim 2025

18 de Fevereiro de 2025

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Pablo Villaça
Avaliação do CríticoPablo Villaça
3.0
★★★☆☆

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