Marca do Tempo, A
Dirigido e roteirizado por Kateryna Gornostai.
Único documentário a figurar na competição oficial da Berlinale deste ano, A Marca do Tempo, uma coprodução envolvendo França, Luxemburgo, Holanda e, crucialmente, a Ucrânia, é uma obra cuja essência pode ser resumida pela dedicatória feita pela diretora Kateryna Gornostai ao seu irmão, morto durante a guerra entre Rússia e Ucrânia. Inserindo-se em um crescente corpo de obras documentais que buscam retratar o conflito, muitas das quais já comentei nas últimas coberturas da Berlinale e de Cannes, A Marca do Tempo se distingue graças à sua abordagem focada nas escolas do país e, consequentemente, na maneira como crianças e adolescentes foram e continuam sendo afetados pela guerra.
Para construir o retrato mais abrangente possível, Gornostai intercala passagens capturadas em diversas cidades ucranianas: algumas que foram ocupadas e posteriormente liberadas, outras que permanecem sob ocupação, algumas próximas ao front de batalha e outras bem mais distantes deste. Esta variação geográfica permite, claro, que observemos de forma palpável como a proximidade da linha de combate impacta diretamente a vida das pessoas – uma constatação que, embora possa parecer óbvia em teoria (cidades mais próximas do front exibem maior grau de destruição, por exemplo), revela-se chocante ao ser testemunhada na prática, no cotidiano daqueles que ali vivem.
Particularmente eficaz ao evocar a atmosfera de um país sob ataque, concentrando-se em como esta realidade transforma o dia a dia das gerações mais jovens, o filme utiliza o sistema educacional como fio condutor da narrativa: com isso, uma simples festa escolar, evento tão corriqueiro na vida de crianças em tempos de paz, assume um caráter sombrio quando é abruptamente interrompida por sirenes de alerta para um possível ataque aéreo, obrigando todos a se dirigirem a abrigos subterrâneos enquanto aguardam o perigo passar para que, então, retomem a celebração. Com qualquer possibilidade de normalidade fraturada pela necessidade de treinar as crianças para evacuações de emergência ou de ensiná-las a reconhecer objetos perigosos (como um ursinho de pelúcia ao qual uma bomba foi amarrada), o longa ilustra a tragédia que se tornou a realidade não só das crianças, mas dos adolescentes – e quando vemos a cerimônia de formatura de cadetes da marinha, com todos aqueles rostos ainda infantis já se preparando para o combate, é impossível não lamentar o que a vida lhes reservou. Do mesmo modo, perceber como há escolas inteiras funcionando em estações de metrô, buscando assim a segurança do subterrâneo, reforça uma lógica perturbadora de adaptação a um estado de sítio permanente – e é igualmente angustiante notar como as sirenes de ataque antiaéreo, antes um sinal de pânico imediato, tornam-se parte da paisagem sonora a ponto de as pessoas mal acelerarem o passo ao ouvi-las.
E é evidente que o fato de se acostumarem a esta realidade não a torna menos triste; pelo contrário, é algo que acentua a tragédia. Nas cidades mais próximas ao front, por exemplo, onde as aulas presenciais foram suspensas, acompanhamos crianças tendo aulas de educação física online e uma professora lecionando matemática em um quadro negro improvisado em seu quintal enquanto transmite a aula para seus alunos. Mas talvez a imagem mais comovente desta adaptação forçada seja a de uma adolescente vestida para sua formatura de ensino médio, com maquiagem e vestido longo, enquanto se senta sozinha em frente a um computador para participar da cerimônia virtual – uma cena que evoca as privações e adaptações vividas durante a pandemia e o impacto dessas rupturas na vida dos jovens.
Outra consequência lamentável desse contexto, e que o filme não deixa de registrar, é o fomento do nacionalismo e do patriotismo exacerbados, que acabam sendo ativamente incutidos nas crianças através de interrupções nas aulas para momentos de “silêncio nacional” e do ensino de canções patrióticas. Como resultado, vemos crianças e adolescentes expressando o desejo de se alistar para lutar, incluindo uma jovem de cerca de 14 ou 15 anos declarando sua aspiração de se tornar sniper – além, claro, de acompanharmos também crianças engajadas em jogos infantis que são, na verdade, treinamentos militares disfarçados. Essa militarização da infância e da juventude insere-se, evidentemente, em uma longa história de luta pela identidade nacional ucraniana, que remonta a confrontos com o poder centralizador soviético e a tentativas de supressão da cultura local, mas é óbvio que em um período de guerra, essa postura defensiva em relação à identidade nacional se intensifica, correndo o risco de se transformar em um nacionalismo perigoso associado ao autoritarismo e à xenofobia.
Neste aspecto, o grande mérito de um documentário como A Marca do Tempo reside em sua capacidade de impedir que a realidade de uma guerra, tão distante para muitos, se torne uma mera abstração estatística, um número de mortos divulgado diariamente. Ao focar nas experiências das crianças, o filme transcende as disputas políticas imediatas – os interesses de Putin ou Zelensky, a presença de grupos extremistas em ambos os lados – e se concentra no impacto humano do conflito. Não há crianças neonazistas, nacionalistas ou de extrema direita; existem apenas crianças cuja pureza e inocência são brutalmente confrontadas e corrompidas pela estupidez e pela mesquinhez dos adultos.
E a destruição desta pureza é um dos efeitos mais perversos da guerra, esta invenção repulsiva de homens adultos sedentos de poder.
Texto originalmente publicado como parte da cobertura do Festival de Berlim 2025
21 de Fevereiro de 2025
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