Dirigido por Mike Flanagan. Roteiro de Mike Flanagan e Jeff Seidman. Com: Karen Gillan, Brenton Thwaites, Katee Sackhoff, Rory Cochrane, Annalise Basso, Garrett Ryan, James Lafferty, Kate Siegel.
O Espelho, em teoria, poderia ser apenas mais um entre tantos exemplares do gênero “terror” que Hollywood produz rotineiramente: apresentando-se como uma mistura dos subgêneros (se é que podemos chamá-los assim) “casa mal-assombrada”, “objeto possuído”, “terror familiar”, “espectro feminino de cabelos escuros” e “protagonista temendo a insanidade”, o filme tinha tudo para ser uma produção burocrática dependente da trilha sonora para causar sustos e com personagens unidimensionais cujos destinos são irrelevantes para o espectador. Poderia. Em vez disso, o longa dirigido por Mike Flanagan a partir de um roteiro co-escrito por ele e Jeff Seidman surge como um projeto que investe na tensão constante em vez de no choque pontual e que se mostra surpreendentemente eficiente ao criar uma atmosfera densa durante a maior parte da projeção.
Iniciando a narrativa já com a imagem de duas crianças que, aterrorizadas, olham através da fresta da porta enquanto o pai com expressão dura percorre os corredores sombrios da casa segurando um revólver, O Espelho logo passa a acompanhar o jovem Tim Russell (Thwaites), que, liberado de um sanatório depois de 11 anos de internação, tenta lidar com a tragédia de ter sido obrigado a matar o pai depois que este assassinou a esposa e se preparava para executar os dois filhos. Convencido de que os incidentes sobrenaturais que vivenciou foram apenas um mecanismo encontrado por sua mente para aliviar a dor, Tim é surpreendido ao perceber que a irmã Kaylie (Gillan) não só ainda acredita que o pai foi influenciado por algum tipo de espírito maligno como ainda encontra-se determinada a provar isto. Para alcançar este objetivo, a moça recupera o antigo espelho que julga responsável pela tragédia e planeja uma série de experimentos devidamente registrados em vídeo – o que dá início, claro, a mais uma noite de terror para os irmãos.
Alternando entre este experimento presente e os incidentes passados que revelam o que houve com os pais dos jovens (Cochrane e Sackhoff), O Espelho poderia facilmente ser prejudicado pelo fato de já sabermos como aqueles eventos antigos irão terminar. Porém, em vez de simplesmente preencher as lacunas, o bom roteiro vai gradualmente alterando a estrutura da narrativa: por um lado, acompanhamos, sim, um mergulho na insanidade por parte do patriarca da família ao melhor estilo O Iluminado; por outro, porém, a fronteira entre flashbacks e presente vai se diluindo a ponto de não sabermos mais se estamos de fato revendo fatos já ocorridos e, portanto, imutáveis ou se estamos testemunhando uma espécie de jornada temporal. Quando a montagem (feita pelo próprio Flanagan) usa fusões engenhosas para alternar entre as duas épocas, acabamos experimentando a sensação de que tudo ocorre simultaneamente, transformando aquelas figuras do passado em fantasmas, mas também em projeções de suas versões contemporâneas – e, assim, é fascinante perceber como, às vezes, a versão adulta de um dos irmãos acaba interagindo com a infantil do outro. Desta forma, a fluidez cronológica de O Espelho acaba se tornando seu maior e mais inesperado atrativo, contribuindo para a tensão e complexidade da história.
Demonstrando habilidade também como diretor de terror, Flanagan usa os recursos habituais do gênero para manter o espectador tenso: quadros constantemente fechados que sugerem alguma presença sinistra logo após os limites da tela; personagens que são situados no canto do quadro, evocando uma claustrofobia sufocante; sussurros distantes e ameaçadores; figuras que surgem subitamente em cena; entre outros clichês narrativos que acabam funcionando bem por serem empregados para ajudar o filme em vez de funcionarem como base deste. Além disso, a fotografia de Michael Fimognari mostra-se impecável ao empregar mudanças no esquema de luz para converter uma casa moderna, espaçosa e aconchegante em um ambiente sufocante, opressivo e ameaçador, ao passo que o design de produção acerta não só na concepção da casa, mas no uso de cores – e observem, por exemplo, como o verde presente nos figurinos iniciais de Kaylie fazem uma rima visual importante com as plantas que se tornam as primeiras “vítimas” do espelho, sugerindo que a própria garota teve sua vida ressecada pelas ações do objeto (e também é sintomático que a primeira aparição do espelho ocorra em um ambiente de paredes vermelhas).
Eficaz ao suavizar a necessidade dos diálogos expositivos ao trazer a moça contando a história trágica do personagem-título em uma apresentação que faz todo o sentido do ponto de vista narrativo, O Espelho é uma obra que trabalha por seus sustos em vez de tentar conquistá-los artificialmente através de acordes súbitos na trilha sonora ou de gatos que saltam sobre a mocinha vindos sabe-se-lá-de-onde. E só isso já o coloca acima de 90% das obras do gênero que saem de Hollywood todos os anos.
03 de Julho de 2014

Kaylie está convencida de que um espelho assombrado antigo está por trás dos assassinatos dos seus pais. Uma década depois, depois de ter sido acusado pelos homicídios, o irmão de Kaylie está pronto para retomar a vida, mas ela ainda quer provar que a relíquia foi responsável pela destruição de sua família.
Críticas Relacionadas

