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Bom Menino

★★★☆☆3/5 estrelas
12 min

Dirigido por Ben Leonberg. Roteiro de Ben Leonberg e Alex Cannon. Com: Indy, Shane Jensen, Larry Fessenden, Stuart Rudin, Arielle Friedman e Anya Krawcheck.

Todos os anos, dúzias de filmes de terror povoados por ameaças sobrenaturais entrevistas nos cantos do quadro e anunciadas por ruídos distantes são lançadas nos cinemas e nas plataformas de streaming; de certo modo, é como se todo aspirante a diretor acreditasse ter um clássico do medo escondido em sua alma e esperando para ser entregue ao mundo como um grande presente. Gênero eternamente subestimado, o terror soa simples para quem supõe que o sucesso de um de seus exemplares pode ser medido por sustos, ignorando que plantar um acorde alto na trilha sonora ou atirar um gato sobre a protagonista nada mais é do que uma muleta preguiçosa, um recurso de picaretas incapazes de construir uma atmosfera que mantenha o público em alerta. Não à toa, para cada Saint Maud, Oddity, Longlegs, O Mal que Nos Habita e Fale Comigo há centenas de antologias V/H/S e de desastres como Five Nights at Freddy´s, Feitiço de Aniversário, O Chamado 4, GOAT e por aí afora.

Ao mesmo tempo, encontrar novas formas de contar velhas histórias representa um exercício delicado que pode sacrificar convenções estabelecidas sem substituí-las por estratégias narrativas eficazes – e, neste sentido, um filme como Bom Menino, que se propõe a enfocar o horror a partir dos olhos de um cãozinho, poderia facilmente cair no puro ridículo. Felizmente, a produção é beneficiada por três elementos importantes: a fotografia inteligente, a sinceridade de sua abordagem e, principalmente, o carisma de seu protagonista.

Dirigido por Ben Leonberg e estrelado por seu próprio retriever da Nova Escócia (que, em um exemplo de entrega total ao papel, realmente se chama Indy), Bom Menino tem início com o pequeno herói dormindo aos pés de seu tutor, Todd (Jensen) – que, logo percebemos, se encontra gravemente doente. Com a atenção dividida entre o humano e uma sombra que se insinua em um dos cantos da sala, Indy parece sentir que há algo de errado antes mesmo que Vera (Friedman), irmã do sujeito, entre ansiosa no apartamento e chame uma ambulância. Depois de uma breve montagem que ilustra o crescimento do cãozinho sob os cuidados de Todd (na realidade, imagens de arquivo reais pertencentes ao cineasta), testemunhamos o reencontro da dupla quando o rapaz sai do hospital e decide se mudar temporariamente para uma cabana que pertenceu ao avô (Fessenden), morto em circunstâncias misteriosas. E é ali que estranhas aparições passam a ser observadas pelo animalzinho à medida que o outro se torna cada vez mais adoentado.

Em um nível superficial, é fácil inspirar a identificação do público com a situação principal, já que qualquer um que tenha convivido com cães ou gatos reconhece a sensação de estranhamento ao vê-los parados no meio de um cômodo encarando o vazio – e, mesmo sendo um materialista convicto, já me peguei tentando chamar a atenção de minha gata para que esta interrompesse seu duelo de olhares com o invisível. Assim, quando vemos Indy reagir a latidos vindos do porão, a vultos cuja presença mal podemos perceber e a outros fenômenos sempre ignorados pelo tutor, nos afligimos por sua segurança e admiramos sua coragem ao investigá-los. Ou talvez “coragem” seja nossa interpretação humana para uma curiosidade raramente acompanhada pela percepção racional de perigo.

Fotografado pelo próprio diretor (sob o pseudônimo Wade Grebnoel, que traz seu sobrenome invertido), Bom Menino intensifica nossa proximidade de Indy ao manter a câmera quase sempre na altura de seu olhar, seguindo a estratégia utilizada, por exemplo, por Spielberg ao seguir seu elenco infantil em E.T. (e a admiração de Leonberg pelo cineasta também é refletida no nome de seu diminuto companheiro). Sem jamais revelar claramente os rostos dos humanos que surgem em cena, o longa mantém a perspectiva do retriever, convertendo os ambientes em espaços amplos que parecem encolhê-lo ainda mais e tornar o mundo ao seu redor mais assustador. Empregando sombras duras, contraluz e desfoques para converter Todd em um quase desconhecido, o realizador merece créditos também pela execução de movimentos de câmera que certamente exigiram paciência e infindáveis repetições, já que ocorrem em sincronia perfeita com as ações do protagonista – e não é surpresa, portanto, que as filmagens tenham exigido mais de 400 dias. Para completar, o diretor estreante demonstra possuir um ótimo senso de composição, criando quadros que, ancorados por Indy, guiam o olhar do espectador pelo ambiente em busca de possíveis ameaças.

Isto não significa, porém, o descarte de convenções do gênero, como jump scares e sequências de pesadelo – embora, claro, haja certo componente de novidade no fato de estarmos visualizando os sonhos de um cachorro. Além disso, como já observado, Leonberg trata o conceito com tanta sinceridade que acabamos por aceitar, por exemplo, planos subjetivos que normalmente seriam cômicos por trazerem o ponto de vista do cãozinho. Em vez disso, ficamos tocados pelo modo com que o filme retrata a percepção emocional de Indy, como no instante em que, vendo Todd sair de casa, se posiciona diante da janela para esperar seu retorno e uma elipse súbita expõe como permanece ali por horas.

Sim, é óbvio que o velho e bom efeito Kuleshov contribui para que projetemos em Indy nossas interpretações e referentes, mas isto é apenas mais um motivo para admirarmos a eficiência técnica da condução de Leonberg, que também assina a montagem (neste caso, como Curtis Roberts). Por outro lado, mesmo com breves 72 minutos, Bom Menino acaba por sucumbir pontualmente às limitações de sua abordagem narrativa, tornando-se repetitivo antes de chegar ao bom clímax.

Tocante ao evocar a lealdade e a dedicação inabaláveis de um cão, esta é uma obra que comprova como até as histórias mais batidas podem surpreender nas mãos de um cineasta inspirado e nas patas de seu adorável astro.

Observação: se você precisa saber o destino de Indy antes de decidir se assiste ao filme ou não, recomendo que consulte o site Does the Dog Die?.

28 de Outubro de 2025

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Pablo Villaça
Avaliação do CríticoPablo Villaça
3.0
★★★☆☆

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