Dirigido por Amélie Bonnin. Roteiro de Amélie Bonnin e Dimitri Lucas. Com: Juliette Armanet, Bastien Bouillon, François Rollin, Tewfik Jallab, Dominique Blanc, Mhamed Arezki, Pierre-Antoine Billon, Amandine Dewasmes.
Nos últimos dois anos, o cinema internacional (e em particular o francês) gerou vários exemplos de um subgênero que costumo chamar de “musical surpresa”: filmes que, sem qualquer sugestão inicial do gênero, subitamente surpreendem o espectador quando os personagens começam a cantar (de modo frequentemente desafinado) melodias que mal se configuram como tal, sugerindo o que veríamos e ouviríamos caso um vizinho ou um estranho na rua desse início a um improviso musical. Não se trata, claro, de uma estratégia narrativa original - Woody Allen já havia explorado a ideia, por exemplo, em Todos Dizem Eu Te Amo, de 1996 -, mas que parece vir ganhando popularidade entre realizadores: se em 2024 tivemos em Cannes obras como os franceses Beating Hearts (de Gilles Lellouch) e Emilia Pérez (de Jacques Audiard), a edição deste ano trouxe o também francês Partir um Dia e o chileno La Ola*. Nenhum com bons resultados, diga-se de passagem.
Exibido como filme de abertura do festival, Partir um Dia gira em torno da chef Cécile Béguin (Armanet), que, depois de participar do programa de televisão Top Chef, está prestes a inaugurar seu próprio restaurante ao lado do companheiro Sofiane (Jallab), preocupando-se em conceber um menu que seja um representante incontestável de alta culinária. Ansiosa com a aproximação da inauguração, Cécile ainda descobre estar grávida e, como se não bastasse, é informada de que seu pai sofreu um ataque cardíaco (o terceiro!), o que a leva a retornar à sua pequena cidade natal para visitá-lo. Vivido por François Rollin como um homem que se recusa a aceitar a fragilidade de sua saúde, Gérard Béguin é proprietário de um restaurante localizado em um posto de gasolina, não demorando até que o filme aponte a ironia representada pelo fato de que a origem da paixão da protagonista pela culinária é também uma antítese da sofisticação dos pratos que agora cria e que envolvem termos rebuscados como "redução", "emulsificar", "confitar" e "mise en place".
Baseado em um curta-metragem dirigido pela diretora Amélie Bonnin, que também assina a direção deste longa, Partir um Dia recorre a uma estrutura narrativa previsível: a protagonista passa praticamente toda a projeção tentando retornar a Paris e à sua vida de refinamento, mas este esforço constante para fugir de suas raízes é sempre sabotado por algum imprevisto ou por impulsos que ela mesma falha em compreender. Infelizmente, o roteiro assinado por Bonnin ao lado de Dimitri Lucas constrói artifícios pouco críveis para dificultar esse retorno – como o fato inexplicável de a personagem depender da carona oferecida pelos caminhões que param no posto de gasolina, aparentemente ignorando a existência de serviços como ônibus, táxis ou Ubers. O objetivo, claro, é o de forçá-la a reconhecer o valor da “simplicidade” que passou a rejeitar.
Para ilustrar esta rejeição, aliás, o filme emprega um recurso com bom potencial humorístico: as anotações feitas por Gérard de declarações feitas pela filha em sua participação no Top Chef e que frequentemente insultavam suas origens e o tipo de culinária que ele passou a vida praticando. Estas falas, contudo, são por vezes tão pesadas que se torna difícil enxergar o humor na insistência do pai em recitá-las; em vez disso, a simpatia do espectador pela protagonista é desafiada, já que suas observações esnobes, arrogantes e genuinamente ofensivas sintetizam um dos problemas centrais da obra: a agressividade e a postura antipática de Cécile, que desafiam nossa identificação com a personagem mesmo que compreendamos as pressões que a perturbam.
Outro elemento que complica esta questão, por sinal, é seu reencontro com um amigo da juventude (e antigo interesse amoroso), Raphaël (Bouillon), que, além de clichê, é marcado pelo profundo egoísmo dos dois personagens – um egoísmo cuja natureza específica não discutirei para evitar spoilers, mas que envolve certas revelações que tornam difícil nosso investimento emocional nessa relação, que em vez disso cede lugar até mesmo a certa antipatia pelo casal e impaciência diante de seus dilemas quase adolescentes.
E já que mencionei “impaciência” como uma reação provocada pelo projeto, é inevitável apontar como esta só se torna mais acentuada quando os interlúdios musicais tomam conta da narrativa. Surgindo aleatoriamente durante a projeção e oscilando entre passagens que sugerem que a música é apenas uma representação não-diegética da subjetividade emocional e mental daquelas pessoas e outras nas quais fica claro que os personagens estão de fato cantando e sendo ouvidos pelos demais, as canções e coreografias trazem uma crueza que pode até buscar desafiar as convenções do gênero, mas que na prática soa como um recurso artificial e sem muito propósito. O fato é que, apreciando ou não os resultados de Beating Hearts e Emilia Pérez, ao menos os elementos musicais destes filmes contrastavam com os universos crus e violentos que apresentavam ao espectador, criando um choque estilístico curioso. Já em Partir um Dia torna-se difícil identificar este contraste, já que a realidade classe média dos personagens e sua aparente sofisticação cultural transformam o recurso em uma mera afetação arbitrária que parece existir apenas para diferenciar superficialmente a produção de inúmeras outras que investem exatamente nas mesmas convenções e clichês.
Esta artificialidade atinge seu ápice quando personagens que mal foram apresentados já começam a cantar sobre mágoas da juventude, falhando em estabelecer qualquer conexão orgânica com a narrativa – e não é à toa que um dos poucos bons momentos do filme ocorre quando (vejam a ironia) um personagem está prestes a iniciar uma canção e é interrompido. O que representa um alívio não só para o espectador, mas para o elenco, já que há sempre a sensação de que os atores não se encontram confortáveis com as músicas e as coreografias que devem executar.
Para piorar, Partir um Dia demonstra um conservadorismo surpreendente ao lidar com o arco relacionado à gravidez da protagonista: declarando desde o princípio seu desejo de abortar, já que não tem qualquer desejo de ser mãe, Cécile tem sua decisão questionada de modo recorrente por vários dos personagens que supostamente contam com a simpatia do espectador – e há um momento em que o longa chega a empregar um dos recursos mais vis defendidos por políticos conservadores, obrigando a gestante a ouvir os batimentos cardíacos do feto. O mais decepcionante, porém, é constatar como o próprio filme parece se recusar a ouvir a personagem, insistindo, através de outros personagens e de sua própria estrutura (com flashbacks maniqueístas que mostram Gérard interagindo com a filha ainda criança), que a maternidade poderia ser uma “vocação” legítima de Cécile. E considerando a assinatura de uma mulher na direção e no roteiro, esta abordagem é ainda mais frustrante.
Não é incomum que filmes de abertura de festivais sejam medíocres; talvez esta seja uma estratégia dos organizadores para baixar nossas expectativas e nos levar a uma apreciação maior do restante da programação. Se for este o caso, porém, desta vez o Festival de Cannes exagerou na dose.
Texto originalmente publicado como parte da cobertura do Festival de Cannes 2025
* A observação sobre a (má) qualidade de A Onda foi adicionada posteriormente, depois da exibição do longa chileno.
14 de Maio de 2025
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