Dirigido e roteirizado por Bi Gan. Com: Jackson Yee, Shu Qi, Mark Chao, Jue Huang, Li Gengxi, Chen Yongzhong.
Depois de participar da mostra Un Certain Regard em 2018 com seu Longa Jornada Noite Adentro (do qual não gosto muito, devo dizer), o jovem cineasta chinês Bi Gan teve seu novo trabalho confirmado na competitiva de Cannes 2025 apenas alguns dias antes do início do evento: Resurrection. Talvez em função da entrada tardia no cronograma ele tenha sido programado apenas para o fim do festival e em um horário no fim da noite, 22h – duas decisões complicadas se considerarmos que se trata de um filme com 160 minutos de duração, o que talvez explique por que tantas pessoas deixaram a sala durante a projeção. No dia seguinte, nos corredores do Palácio dos Festivais, muitos admitiram tê-lo achado insuportavelmente monótono – e embora compreenda por que alguns podem ter se sentido entediados (até mesmo pelo cansaço acumulado), a qualidade narrativa do longa é tamanha que não posso deixar de considerar injusta a rejeição por ele sofrida.
Partindo de uma premissa tão complicada que nem mesmo as três ou quatro cartelas de explicação que abrem a projeção conseguem torná-la mais compreensível, o roteiro escrito pelo próprio diretor se passa em uma realidade na qual a humanidade parou de sonhar, o que por algum motivo lhe conferiu imortalidade. Contudo, algumas pessoas (conhecidas como phantasmers) ainda preservam esta capacidade, conseguindo mergulhar em seus próprios sonhos – e acabam atraindo a atenção de outros indivíduos que têm o poder de enxergar o que os tais phantasmers veem ao sonhar.
Ou algo assim. Porque a verdade é que durante boa parte de Resurrection eu sentia estar deixando passar alguma informação importante que esclareceria toda a trama; isto é, ao menos até perceber que buscar “decifrar” o filme era um esforço tolo, já que o que de fato merecia atenção eram a atmosfera onírica construída por Bi Gan e, principalmente, sua elaborada homenagem à história do Cinema e à evolução de sua linguagem. Pois o fato é que o longa tem uma estrutura quase antológica, sendo construída a partir de cinco ou seis histórias que, em sua abordagem, refletem períodos e estéticas diferentes da Sétima Arte, tendo em comum apenas a figura do phantasmer vivido por Jackson Yee, que em cada segmento interpreta um personagem distinto.
Assim, os vinte minutos iniciais do filme, completamente sem diálogos e apresentados em uma razão de aspecto 1.33:1, refletem os primórdios do cinema, chegando a fazer referências inclusive a alguns dos esforços que antecederam a criação do cinematógrafo pelos Lumière – como o fenacistoscópio, dispositivo que envolvia discos com ilustrações sequenciais em suas bordas que, quando girados, criavam ilusão de movimento. Ainda nesta introdução há homenagens ao expressionismo alemão (especialmente Nosferatu) e aos filmes de trucagens típicos dos primeiros anos do cinema, exemplificados pela obra de Georges Méliès. Da mesma forma, O Regador Regado, dirigida pelos Lumière e considerada a primeira comédia produzida pela nova mídia, recebe dupla homenagem: uma recriação direta e, mais tarde, através de sua projeção sobre um lençol, criando uma elegante conexão entre o início e o final da narrativa – que traz também brincadeiras com o noir, incluindo uma citação direta de A Dama de Shanghai.
Incluindo momentos de malabarismo técnico notáveis, Resurrection traz, por exemplo, o contrazoom criado por Hitchcock em Um Corpo que Cai (e que consiste na aproximação física da câmera de um objeto enquanto um zoom out é realizado - e vice-versa), mas que aqui é executado com uma variação curiosa que o faz parecer quase impossível: enquanto o contrazoom é feito, os objetos em cena também parecem se mover, criando um efeito de deformação na profundidade ainda mais intenso. Já em outro momento, Bi Gan emprega um split focus (técnica adorada por Scorsese e De Palma e que Kléber Mendonça Filho também utilizou em O Agente Secreto), que consiste em manter em foco perfeito elementos nas extremidades do campo enquanto o espaço entre eles surge desfocado – e que aqui também ganha uma variação curiosa e rara ao ser combinado com uma panorâmica vertical (tilt).
Já o penúltimo segmento (ou “sonho”), ambientado na virada do milênio durante a ansiedade coletiva relacionada ao "bug do ano 2000", constitui talvez o grande destaque técnico do longa, sendo rodado inteiramente em um plano-sequência de aproximadamente 35 minutos e durante o qual a câmera percorre espaços amplos, sobe e desce escadas, atravessa vielas e alterna entre objetividade e subjetividade, assumindo temporariamente o ponto de vista de um personagem. Trata-se de uma proeza tão impressionante que, quando finalmente houve um corte, a plateia que ainda permanecia na sala Debussy se entregou a uma empolgada salva de palmas.
Rico em simbolismos e apresentando uma essência poética em sua abordagem, o filme ainda concebe imagens profundamente evocativas como a do monstro introduzido no início e cuja deformação nas costas se revela um projetor cinematográfico - e trocar o rolo de filme neste projetor significa desencadear novos sonhos da criatura, o que se traduz em um comentário inspirado sobre a relação entre o Cinema, imaginação/sonhos e vivências pessoais na criação das histórias. Para completar, a estrutura circular da narrativa culmina em um plano final maravilhoso, consolidando o filme como uma homenagem não só ao Cinema, mas também ao próprio cinéfilo.
E não há lentidão ou tédio pontual que elimine o fascínio que Resurrection é capaz de despertar.
Texto originalmente publicado como parte da cobertura do Festival de Cannes 2025
23 de Maio de 2025
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