Dirigido por Rebecca Zlotowski. Roteiro de Rebecca Zlotowski, Gaëlle Macé e Anne Berest. Com: Jodie Foster, Daniel Auteuil, Virginie Efira, Mathieu Amalric, Vincent Lacoste, Luàna Bajrami, Sophie Guillemin, Aurore Clément, Irène Jacob, Park Ji-min, Jean Chevalier e Frederick Wiseman.
"O mais importante não é sobre o que um filme é, mas como ele é sobre o que é" – esta máxima do amado e saudoso Roger Ebert é algo que se aplica perfeitamente a Vida Privada, novo trabalho da diretora francesa Rebecca Zlotowski exibido fora de competição no festival de Cannes 2025 e cujo roteiro problemático, que muitas vezes beira a implausibilidade, encontra sua redenção na consciência que a realizadora demonstra ter sobre a natureza do material com o qual trabalha, transformando potenciais deficiências em virtudes ao estabelecer uma atmosfera que, sem chegar a ser abertamente irreverente em relação ao material, mantém uma distância irônica que permite ao espectador desfrutar da narrativa sem levá-la demasiadamente a sério.
Esta estratégia aparece desde os créditos iniciais, que, com sua tipografia (e a cor desta, intensamente vermelha) e a música que a acompanha (“Psycho Killer”, lançada no final da década de 70 e regravada duas vezes na década seguinte), evocam os thrillers psicológicos produzidos por Hollywood na segunda metade dos anos 80, estabelecendo desde o primeiro momento um diálogo com um subgênero bastante específico. Não que o filme remeta esteticamente a estas produções na maior parte da narrativa, mas a associação é estabelecida de modo tão marcante em seus primeiros minutos que o espectador familiarizado com o período já se torna consciente da atmosfera do que verá a seguir.
Escrito por Anne Berest, Gaëlle Macé e pela própria diretora, o roteiro acompanha a psiquiatra Lilian Steiner, radicada em Paris há décadas e interpretada por Jodie Foster em uma performance quase inteiramente conduzida em francês (algo que ela já havia feito aos 15 anos de idade em Moi, Fleur bleue). Depois de receber a notícia do suicídio de uma de suas pacientes (Efira), ela comparece ao velório e é hostilizada pelo viúvo, Simon (Amalric) – e imediatamente tenta processar o ocorrido ao registrar em seu gravador portátil uma análise sobre o comportamento do sujeito, numa atitude que diz muito sobre sua personalidade e sua tendência de intelectualizar experiências emocionais a fim de mantê-las sob controle.
O que ela demora um pouco mais a perceber é que está chorando involuntariamente, com as lágrimas escorrendo por seu rosto sem qualquer outra expressão consciente ou ativa de emoção, como se fosse um autômato que subitamente detecta em si capacidades até então desconhecidas. Interpretando o fenômeno como um problema físico, numa negação absoluta da própria vulnerabilidade, ela procura o ex-marido, o oftalmologista Gabriel (Auteuil), o que os leva a uma reaproximação e traz à tona sua relação fria com o filho adulto e, por extensão, com o neto recém-nascido que ela sistematicamente encontra desculpas para evitar. Ao mesmo tempo, a protagonista passa a suspeitar das circunstâncias envolvendo a morte da paciente, concluindo que esta possivelmente deixou pistas destinadas especificamente a ela.
Implausível em sua dependência contínua de coincidências para o avanço da trama – como no instante em que Lilian chega com seu carro no momento perfeito para identificar certa figura -, Vida Privada também se entrega ao clichê de tratar o hipnotismo como um fenômeno quase mágico através do qual a pessoa não apenas acessa memórias específicas convenientemente relevantes para a resolução do mistério, mas consegue literalmente reassistir a estas lembranças como se fossem gravações, descobrindo detalhes que não havia notado durante a experiência original. Além disso, o roteiro também parece confundir a hipnose com regressão mediúnica, o que ressalta a inverossimilhança de toda a história.
Outro elemento que desafia a credulidade do espectador é o comportamento da própria protagonista que, apesar da formação como psiquiatra e da consequente familiaridade com processos mentais, frequentemente expressa teorias e suspeitas que soariam absurdas mesmo vindas de um leigo. Em diversos momentos, suas conjecturas chegam a soar como devaneios de uma pessoa beirando a insanidade – e considerando que ela não é insana, é surpreendente sua falta de autoconsciência sobre como suas palavras e ações serão percebidas pelos outros.
Porém – e este é um imenso “porém” -, todos estes elementos que poderiam resultar em desastre são neutralizados pela abordagem de Zlotowski, que jamais demonstra levar a sério seu material, estabelecendo um tom que permite ao espectador aceitar estas inconsistências como parte de sua proposta. Se o filme tentasse apresentar sua trama como um autêntico suspense psicológico, se tratasse as sequências de hipnotismo com seriedade supostamente realista ou se investisse emocionalmente nos dramas pessoais dos personagens sem manter um distanciamento irônico, certamente naufragaria sob o peso de todas as suas inconsistências lógicas e narrativas; se isto não ocorre é porque a diretora demonstra inteligência ao adotar uma abordagem que se apresenta claramente como exercício de gênero.
Sem jamais tentar justificar narrativamente a necessidade de ter uma protagonista estrangeira (a única referência explícita às suas diferenças culturais se limita à frustração diante do fato de os franceses saírem de férias – o que nada diz de positivo sobre os norte-americanos), o projeto basicamente assume que a razão para esta escolha foi puramente pragmática: a possibilidade de trabalhar com uma atriz como Jodie Foster (e como discordar da decisão?).
Enquanto isso, um elemento temático que denota o cuidado narrativo de Zlotowski diz respeito à recorrência de cenas nas quais a protagonista surge subindo ou descendo escadarias circulares, o que estabelece uma metáfora visual que ecoa de forma interessante um dos temas centrais do longa: a circularidade das próprias experiências humanas, a tendência daqueles personagens de terminarem suas jornadas onde começaram (ou de começarem onde eventualmente terminarão) e a repetição de padrões comportamentais que persistem apesar das tentativas conscientes de superá-los.
Apesar de toda essa seriedade aparente, Vida Privada também acerta ao reconhecer o potencial cômico dos esforços investigativos do casal formado por Lilian e Gabriel – e que por vezes remetem ao ótimo Um Misterioso Assassinato em Manhattan, que trazia Woody Allen e Diane Keaton em papeis que dividem similaridades com estes interpretados por Foster e Auteuil (que, por sinal, criam uma dinâmica notável). Assim, mesmo que as explicações finais para os mistérios apresentados ao longo da narrativa não sejam muito convincentes em sua lógica interna (ou em sua verossimilhança psicológica), o filme é suficientemente divertido e interessante em seu desenvolvimento para que nos lembremos de como a forma muitas vezes importa mais que o conteúdo.
Texto originalmente publicado como parte da cobertura do Festival de Cannes 2025
21 de Maio de 2025
(O Cinema em Cena é um site totalmente independente cuja produção de conteúdo depende do seu apoio para continuar. Para saber como apoiar, conhecer as recompensas - além do acesso gratuito a todo nosso conteúdo -, basta clicar aqui. Precisamos apenas de alguns minutinhos para explicar. E obrigado desde já pelo clique!)

Críticas Relacionadas

