What Marielle Knows
Dirigido e roteirizado por Frédéric Hambalek. Com: Laeni Geiseler, Julia Jentsch, Felix Kramer, Mehmet Ateşçi, Moritz von Treuenfels, Sissy Höfferer, Victoria Mayer, Nadja Sabersky, Marion Mitterhammer.
Um dos motivos que me levam a amar a literatura de Ted Chiang reside em sua habilidade não apenas de criar conceitos instigantes, mas de explorá-los até seus limites; muitos realizadores até conseguem pensar em premissas originais, mas boa parte acaba sendo desperdiçada ao jamais deixar a superfície por acreditar que uma boa ideia é o bastante para gerar uma obra envolvente. Na Berlinale 2025, por exemplo, vi ontem e hoje dois exemplos que se situam nos extremos opostos desta discussão: enquanto o argentino A Mensagem se limita a apresentar um conceito curioso apenas para basicamente abandoná-lo em seguida, o alemão What Marielle Knows emprega o seu como ponto de partida para uma rica exploração de temas como honestidade, privacidade e a complexidade das relações familiares.
Começando já com uma imagem (literalmente) de impacto, o longa abre a projeção com o close em câmera lenta da personagem-título (Geiseler) enquanto esta leva um tapa de uma amiga durante uma briga na escola. Por razões que o roteiro não se preocupa em esclarecer (e de fato não há necessidade; qualquer explicação seria arbitrária por natureza), a partir desse instante a jovem se torna capaz de ver e ouvir tudo que os pais fazem e dizem em tempo real, gerando uma série de confrontos despertados pelo contraste entre o que os adultos expressam em seu cotidiano e a forma como realmente agem.
Escrito e dirigido por Frédéric Hambalek, o roteiro poderia empregar esta premissa para criar narrativas carregadas de choques, drama e suspense, sendo interessante (e surpreendentemente eficaz) que a abordagem escolhida seja a da comédia – ainda que, claro, os confrontos presentes ao longo da obra também contenham uma carga dramática apropriada e que surge da percepção crescente dos pais de Marielle sobre seu afastamento mútuo e sobre a dificuldade em manter uma pose de autoridade quando a filha está a par de todas as suas hipocrisias e fragilidades.
Para ressaltar este contraste, o filme inicialmente estabelece aquela família como um núcleo próximo do ideal: Tobias (Kramer), o pai, trabalha em uma posição de destaque em uma grande editora, enquanto Julia (Jentsch), a mãe, é executiva de uma grande corporação - todos vivendo em uma casa grande e confortável. No entanto, o próprio design da casa, que tem basicamente a forma de um cubo, já sugere certo conformismo e uma tentativa de projetar “adequação” às regras sociais que permeiam a vida da família – uma fachada de perfeição que os novos poderes de Marielle acabam por expor e que o casal tenta preservar através de subterfúgios que criam várias situações cômicas, como a decisão de conversarem em francês quando sozinhos por saberem que a filha não fala aquela língua. Além disso, justamente por terem consciência da “presença” constante da garota, eles adotam posturas atípicas quando em seus respectivos trabalhos, assumindo por exemplo um moralismo artificial que visa servir de “lição” para a menina. Neste aspecto, as performances de Jentsch e Kramer são fonte constante de diversão, incluindo também um toque de ironia quando percebemos os custos da franqueza absoluta para aquele casamento.
Pois este é um dos temas que Hambalek situa no centro da narrativa: o paradoxo na constatação de que o excesso de honestidade pode fazer mal a uma relação, trazendo à baila questões íntimas que, mantidas arquivadas, podem maturar e mudar com o tempo, mas que inevitavelmente provocarão explosões, desconfianças e mágoas quando expostas. Ao mesmo tempo, é revelador observar a tensão entre Marielle e a mãe, em particular: encarnada por Jentsch como uma figura imperfeita (quem não é?), mas genuinamente preocupada com o bem-estar da filha, Julia tem cada um de seus erros analisado sob um microscópio e usado para condená-la, ao passo que o pai, mesmo com todos os seus problemas, mantém-se admirado por Marielle – uma dinâmica familiar injusta, mas psicologicamente rica.
Ressaltando a sensação de vigilância constante experimentada pelos adultos através de vinhetas que, introduzidas de tempos em tempos na projeção, trazem Marielle olhando diretamente para a câmera com uma expressão de julgamento, o filme mantém uma atmosfera de tensão que leva o espectador a perceber o desgaste enfrentado por Tobias e Julia, trazendo páthos à narrativa sem sacrificar suas intenções cômicas.
Uma narrativa que, tornando o sucesso do projeto ainda maior, Hambalek consegue amarrar com inteligência ao reconhecer que certa ambiguidade não só é bem-vinda, mas dramaticamente eficaz.
Texto originalmente publicado como parte da cobertura do Festival de Berlim 2025
17 de Fevereiro de 2025
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