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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
22/01/2015 16/01/2015 4 / 5 4 / 5
Distribuidora
Sony

Foxcatcher - Uma História que Chocou o Mundo
Foxcatcher

Dirigido por Bennett Miller. Roteiro de E. Max Frye e Dan Futterman. Com: Steve Carell, Mark Ruffalo, Channing Tatum, Sienna Miller, Anthony Michael Hall e Vanessa Redgrave.

Logo nos minutos iniciais de Foxcatcher, os irmãos Mark e David Schultz, ambos medalhistas de ouro em luta greco-romana, se entregam a uma sessão de treinamento durante a qual, sem dizerem qualquer palavra, executam os movimentos típicos do esporte e que dão a impressão de um abraço combativo, como se ao mesmo tempo estivessem se confortando e se confrontando nos braços um do outro. Trata-se de um plano fabuloso para introduzir a relação entre os irmãos, já que aquela parece ser a dinâmica dominante de suas interações: ao mesmo tempo em que se amam profundamente e confiam no apoio que recebem do outro, há sempre um leve desconforto partindo do caçula, Mark (Tatum), que parece ressentir algo em relação ao irmão (Ruffalo) mesmo sem compreender exatamente a natureza deste ressentimento.


Inspirado numa história real (que chocou os Estados Unidos, não o “mundo”, como indica o tolo subtítulo em português), o roteiro de E. Max Frye e Dan Futterman acompanha inicialmente Mark enquanto este, solitário e frustrado com o resultado de seus treinamentos, palestra para um grupo desinteressado de crianças em troca de 20 dólares, devora um sanduíche em seu carro, janta sozinho em sua pequena casa e trata o irmão-treinador com um distanciamento incômodo. É então que o sujeito recebe uma ligação do milionário John E. du Pont (Carell), que, dono de uma das maiores fortunas do país, oferece ao rapaz a oportunidade de liderar uma equipe de luta em troca de um salário generoso (ao menos, para os padrões de Mark) e de toda a infraestrutura disponível em sua mansão-fazenda Foxcatcher, já utilizada por sua mãe (Redgrave) para a criação de cavalos premiados.

Parece, claro, um sonho realizado – e du Pont, com seus discursos sobre a grandeza da América e a importância de se valorizar atletas como Mark, soa como um homem idealista e generoso cujo único propósito é inspirar e fomentar talentos. Assim, é curioso observar como o diretor Bennett Miller consegue evocar uma atmosfera fria e desconfortável já desde o princípio, mesmo que du Pont até então tenha demonstrado apenas boas intenções. Claro que, para isso, contribui imensamente a performance de Steve Carell, que, sob uma pesada maquiagem que o deixa quase irreconhecível, concebe o personagem como um homem de expressão constantemente neutra e que, mesmo ao exibir alguma reação, não parece capaz de adequá-la à situação à qual está reagindo.

Empregando uma dicção pausada que parece liberar as palavras em pequenos arrancos, como se conversar fosse uma ação dolorosa e desconfortável, o John du Pont de Carell é o tipo de homem que não hesita em se apresentar como especialista em diversas áreas e que, claro, logo sugere a Mark que o trate por “Águia Dourada” – como “seus amigos gostam de chamá-lo” (e não é preciso muito esforço para perceber que não, não chamam, mas que certamente du Pont gostaria de ser chamado assim caso tivesse amigos). Patético em sua óbvia necessidade de ser reconhecido como alguém melhor do que é, du Pont não vê problema em disputar – e vencer, claro – um campeonato que traz seu nome ou em se entregar a discursos que apontam para um papel de líder que ele definitivamente não tem junto à equipe de lutadores que financia. Por outro lado, estes esforços ganham um tom mais melancólico do que repulsivo à medida que percebemos que surgem do desespero para ser aceito pela mãe distante e fria como o grande homem que jamais conseguirá ser.

Neste sentido, du Pont não poderia ter conseguido um “discípulo” melhor do que Mark, cuja solidão e frustração diante da própria vida o tornam uma versão sem dinheiro do outro. Incapaz de conceber uma existência que não tenha a luta como centro, Mark tem, neste autoisolamento, sua grande maldição e a principal diferença com relação ao irmão, que, mesmo sendo um atleta dedicado e bem-sucedido, construiu uma família amorosa e é respeitado e admirado pelos companheiros de esporte. Assim, é fascinante observar como a postura dos dois homens, ditada por anos de treinamento, sugere facetas diferentes de suas personalidades: se os antebraços constantemente estendidos de David parecem sempre abertos a um abraço, a postura encurvada de Mark traz uma impressão defensiva e mesmo infantilizada – e não é à toa que, sempre que se entrega a um abraço (seja com o irmão ou com du Pont), Mark abaixa a cabeça e a enterra no corpo do outro, como uma criança profundamente carente e insegura em busca de proteção e carinho.

Mas se a performance de Carell é a mais chamativa e a de Tatum impressiona mesmo sendo calcada na introspecção, Mark Ruffalo é, claro, aquele que cria o personagem mais caloroso da narrativa. Generoso, expansivo com os filhos e sempre preocupado com o irmão, David Schultz é um homem capaz de se manter calmo diante da raiva alheia e que mantém um código de conduta profissional admirável – e o fato de conciliar família, amigos e carreira é algo que claramente provoca ressentimento e mesmo inveja não só em seu irmão, mas principalmente em John du Pont. Aliás, que Ruffalo seja capaz de transmitir tanta humanidade é algo já esperado (poucos atores contemporâneos possuem uma persona tão gentil), mas seu talento como ator é evidenciado especialmente na cena em que David é levado a chamar du Pont de “mentor” diante das câmeras, quando seu desconforto, sua resistência e sua inevitável capitulação diante da obrigação profissional são exibidos por Ruffalo de forma sutil, mas evidente – numa cena que por si só já garantiria sua indicação aos principais prêmios do ano.

No entanto, se é inevitável discutir tão amplamente as atuações (já que Foxcatcher tem nestas seu ponto forte), seria injusto não reconhecer os méritos técnicos da produção: o design de produção de Jess Gonchor, por exemplo, é brilhante não só ao conceber os espaços sufocantes ocupados por Mark (mesmo quando este se muda para uma casa maior, o ambiente parece sempre encolher ao seu redor), mas também ao transformar a mansão de du Pont em uma espécie de museu construído para honrar sua mãe, trazendo retratos da matriarca e referências ao seu interesse por hipismo que surgem como lembretes constantes de que seu filho, mesmo já na meia-idade, não conseguiu criar ali seu próprio espaço – e a própria sala de troféus surge como um quase insulto à falta de conquistas de John.

Enquanto isso, a fotografia de Greig Fraser investe praticamente o tempo todo em uma paleta acinzentada e dessaturada, salpicando-a com tons mais quentes apenas em momentos pontuais (que geralmente abordam David e sua família), ao passo que a montagem adota um ritmo estudado e melancólico que encontra um tempo importante para se deter em planos-detalhe que ajudam a ilustrar não só o cenário (como ao enfocar os objetos de cena espalhados pela mansão), mas principalmente a atmosfera daquele universo. Enquanto isso, o cineasta Bennett Miller (Capote, O Homem que Mudou o Jogo) não só mantém as atuações de seu elenco coesas – e seria muito fácil que cada ator disparasse em uma direção -, mas é hábil também ao introduzir pequenos detalhes na mise-en-scène que sugerem tensões subjacentes de forma discreta (como, por exemplo, a conversa que Mark e David mantém na porta da casa do primeiro e cuja metade inferior é mantida fechada, simbolizando a barreira que du Pont construiu entre os irmãos).

Trágico não só pela perda que trouxe, o relacionamento entre os três homens de Foxcatcher é um pequeno estudo de personalidades ao mesmo tempo conflitantes e complementares: se du Pont desejava respeito mesmo que através das conquistas alheias, Mark sonhava em atingir estas conquistas como um meio de provar seu valor e sentir que merecia o amor que lhe era devotado. E é uma pena que justamente o mais sereno do trio tenha sido surpreendido entre dois indivíduos cujas interações, em retrospecto, representam uma receita inevitável de desastre.

23 de Janeiro de 2015

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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