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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
25/12/2019 20/12/2019 1 / 5 1 / 5
Distribuidora
Universal

Cats
Cats

Dirigido por Tom Hooper. Roteiro de Lee Hall e Tom Hooper. Com: Francesca Hayward, Idris Elba, Laurie Davidson, Rebel Wilson, Robbie Farchild, Mette Towley, James Corden, Jason Derulo, Naoimh Morgan, Danny Collins, Laurent Bourgeois, Larry Bourgeois, Steven McRae, Taylor Swift, Ray Winstone, Jennifer Hudson, Ian McKellen e Judi Dench.

Eu avisei. E voltei a avisar. E o fiz pela terceira vez. Em vão: não apenas Tom Hooper foi ardorosamente defendido como, depois de fazer uma dedicada campanha, levou o Oscar de Melhor Direção e ganhou a oportunidade de continuar a manchar o Cinema com suas lentes grande-angulares, seus planos holandeses e seus closes excessivos. Como Clemenza disse a Michael em O Poderoso Chefão, “é preciso parar essas coisas no início. Como deveriam ter parado Hitler em Munique; não deveriam tê-lo deixado escapar impune”. Assim, era inevitável que, mais cedo ou mais tarde, Hooper atacasse o planeta com algo como Cats – e antes que alguém diga que o estou comparando a Hitler, esclareço que... não?

Entusiasmado depois de ver uma mediocridade como Os Miseráveis ser indicada a prêmios de Melhor Filme, o cineasta britânico decidiu adaptar para as telas outro musical de sucesso nos palcos, escolhendo, para isso, a icônica obra de Andrew Lloyd Webber criada a partir de poemas escritos por T.S. Eliot e que permaneceu em cartaz na Broadway por quase 20 anos. Não que isto indique qualquer solidez do original, que, convenhamos, valia mais pelo conceito absurdo e por seus elementos plásticos do que pela qualidade de seu libreto, que sequer se esforçava para contar uma história minimamente coesa ao concentrar-se em um grupo de gatos que, autobatizados de Jellicles, cantam e dançam diante de uma felina anciã, a Velha Deuteronômio (Dench), que escolherá um deles para “ganhar uma nova vida”. Para que ninguém diga que falta conflito à narrativa, um gato criminoso chamado Macavity (Elba) decide sequestrar os demais competidores para tentar aumentar as próprias chances de vitória.

Com roteiro escrito por Hooper ao lado de Lee Hall, esta adaptação ainda procura criar alguma estrutura ao elevar Victoria (Hayward) à condição de protagonista, apresentando-a como uma gata abandonada pelos donos que, adotada pelos Jellicles (suspiro), serve como desculpa para que premissas daquele universo sejam explicadas ao público. Ou “explicadas”, já que as letras das canções não fazem sentido algum – incluindo a mais conhecida delas, “Memory”. Além disso, as passagens que trazem os personagens emocionadíssimos raramente conseguem justificar estas emoções e boa parte das músicas é amaldiçoada por melodias aborrecidas ou quase inexistentes (não é à toa que “Melody” ganha uma reprise, já que contrasta de modo brutal com as demais).

Ao mesmo tempo, a decisão de contratar o renomado coreógrafo Andy Blankenbuehler para criar os números de dança é anulada pela absoluta incapacidade de Tom Hooper de compreender as bases do gênero, já que a câmera sempre em movimento, os planos fechados e os cortes frequentes destroem qualquer possibilidade de que algo memorável se apresente na tela. Um dos piores exemplos disso, aliás, pode ser testemunhado quando o dançarino Steven McRae, interpretando o gato Skimbleshanks (nem vou comentar os nomes das criaturas), começa a sapatear em um ritmo crescente para evocar o som de uma locomotiva apenas para ter seu efeito sabotado pela intromissão de Hooper e da montadora Melanie Oliver, que fazem (juro!) algo em torno de vinte cortes em poucos segundos – e se há algo que tornava os musicais clássicos memoráveis era o fato de que podíamos ver os movimentos e ritmos dos artistas na tela e constatar seu talento sem que houvesse dúvida sobre a possibilidade de vários planos diferentes terem sido remendados para criar um único passo. Do mesmo modo, de que adianta homenagear os elaborados padrões geométricos de Busby Berkeley na sequência envolvendo baratas (sim) se não teremos tempo de apreciá-los apropriadamente? Para completar, assim como havia feito em seus trabalhos anteriores, o cineasta desperdiça o belo design de produção graças à sua decupagem atroz – e não sei por que diretores de arte, cenógrafos e figurinistas insistem em trabalhar com Hooper se terão seus esforços atirados no lixo.

O que nos traz aos gatos em si, estas aberrações que, graças à ideia de combinar efeitos digitais, maquiagem e, ora, a anatomia humana, transformam a experiência de assistir a Cats em um pesadelo constante. Se nos palcos o conceito de atores vestindo figurinos peludos e tentando evocar os movimentos de felinos pode até funcionar, já que o espectador sabe que no teatro há um acordo tácito entre artista e público para que a imaginação deste complemente o que a limitação da própria mídia determina, no cinema a dinâmica é diferente, tornando artificial e ridículo o que ao vivo seria aceitável. Além disso, o filme jamais decide se quer salientar a “felinidade” dos atores ou a humanidade dos gatos: aqui, eles caminham eretos; ali, sobre quatro patas (ou melhor: mãos e joelhos). De maneira similar, alguns possuem pelos nos pés e nas mãos enquanto outros exibem apenas a pele humana de seus intérpretes – e é patente que tampouco há lógica na decisão de trazer alguns personagens usando roupas e tênis ao mesmo tempo em que outros surgem nus (ah, sim: e um dos gatos tem um dente de ouro, já que... por que não?).

Mas os desastres não param por aí, já que o tamanho dos gatos em relação ao ambiente varia de cena para cena, o uso de fios para simular seus saltos é pavoroso e o nariz de Jennifer Hudson aparece escorrendo em todas as cenas. (Porque Grizabella SOFRE em caixa alta, itálico e negrito, entendem?) Já Rebel Wilson e James Corden, como os comediantes do projeto, são forçados a encaixar piadinhas em cada fala ou verso – e há uma cena que traz vários planos de Wilson sozinha, comentando o que vê, que sou capaz de jurar ter sido rodada posteriormente, apenas com a atriz no estúdio, depois que algum executivo decidiu que faltava “humor” ao longa. E se Judi Dench e Ian McKellen até escapam relativamente incólumes à tragédia (ênfase no “relativamente”), Idris Elba naufraga no ridículo de seu personagem, sendo triste testemunhar seus esforços para trazer vida a uma muleta de roteiro. Para completar, a estreante Francesca Hayward, como Victoria, demonstra sua competência como bailarina, trazendo elegância e fluidez em seus movimentos, mas jamais tem a chance de explorar seu talento como atriz, já que a personagem passa a projeção inteira oscilando entre duas expressões: encantamento e aflição. Ok, e Hudson canta “Memory” (duas vezes, já falei?) com entrega e emoção incondicionais, mas... chegou um momento em que minha vontade era apenas a de lhe entregar um lenço para que finalmente assoasse o nariz.

Ruim, mas não a ponto de se tornar interessante (Hooper é incompetente até em sua ruindade), Cats é uma estupidez aborrecida e esteticamente hedionda. Talvez um dia alguém faça uma comédia sobre os bastidores desta produção e consiga trazer, mesmo tardiamente, algum sentido para sua existência. Até que isto aconteça, porém, já ficarei satisfeito se esta catástrofe resultar no fim da carreira de seu diretor. Hitl... Hooper já foi longe demais.

26 de Dezembro de 2019

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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