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Lore (I)

★★★★☆4/5 estrelas
12 min

Dirigido por Cate Shortland. Com: Saskia Rosendahl, Nele Trebs, André Frid, Mika Seidel, Kai-Peter Malina.

Selecionado pela Austrália como representante do país na corrida ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, Lore conta a história de uma jovem alemã que, após a derrota do Terceiro Reich, perde a companhia do pai, oficial nazista, e da mãe, colaboradora do Partido, sendo obrigada a conduzir os quatro irmãos menores numa jornada de centenas de quilômetros até Hamburgo a fim de encontrarem a avó.

Escrito pela diretora Cate Shortland e por Robin Mukherjee a partir de um livro de Rachel Seiffert, o longa assume, portanto, a estrutura de um road movie que enfocará o choque de realidade experimentado pela jovem protagonista, que, de adolescente segura dos ideais inquestionáveis de Hitler, é obrigada a confrontar a barbárie promovida pelos nazistas durante a guerra. Vivida pela excelente Saskia Rosendahl, que não tenta suavizar as crenças repulsivas da personagem e sua agressividade diante do mundo, Lore demonstra carregar o peso do mundo nas costas – e não é para menos, já que se vê, de um dia para o outro, responsável por quatro crianças, incluindo um recém-nascido, em um país destruído pela guerra e no qual a fome e a falta de serviços de infraestrutura básicos eram cotidianas.

Ainda assim, a ótima fotografia de Adam Arkapaw é inteligente ao explorar a beleza das locações percorridas pelas crianças sem, com isso, deixar de ressaltar o isolamento e a dificuldade enfrentados pelos jovens – e é particularmente eficiente o momento em que, durante uma brincadeira em um bosque de intenso verde, Lore e a irmã percebem a chuva das cinzas oriundas da destruição de documentos e fotos comprometedores por parte dos nazistas. A partir daí, o longa acompanha a degradação física dos irmãos, que, cobertos por picadas de insetos e consumidos pela desnutrição, dependem da caridade de estranhos, formando uma aliança inesperada com um jovem que, portando documentos que o identificam como judeu, se torna fundamental para a sobrevivência da família.

O interessante na abordagem de Shortland, porém, é sua insistência em enxergar o mundo sempre a partir do ponto de vista de Lore – que, claro, vê os soldados norte-americanos como criminosos dispostos a matar seus irmãos e Thomas (Malina), o jovem judeu, como um traidor em potencial que quer apenas usar o bebê para inspirar a simpatia de estranhos. Além disso, em vez de simplesmente seguir o caminho mais óbvio e ilustrar a mudança gradual da protagonista, a cineasta opta por retratar a perda da inocência (política e sexual) experimentada pela garota, que, mesmo jamais renegando claramente o Führer, parece compreender, ao final do filme, que seu mundo não era tão preto-e-branco quanto imaginava.

E, neste aspecto, Lore funciona ao usar a moça como um retrato de toda uma geração de alemães que, no pós-guerra, finalmente percebe que seu líder estava longe de ser o anjo que julgavam e que, afinal, estavam do lado errado do conflito. É só lamentável que, para isso, o filme tenha que se mostrar tão repetitivo e prolixo em sua abordagem. 

Texto originalmente publicado como parte da cobertura do Festival do Rio 2012, daí sua menor extensão.

10 de Outubro de 2012

Pablo Villaça
Avaliação do CríticoPablo Villaça
4.0
★★★★☆

Abandonada com seus irmãos mais novos depois que os pais nazistas são presos, Lore conduz o que resta de sua família por uma Alemanha arrasada pela guerra em 1945. Para sobreviver, as crianças têm que chegar até a casa de sua avó no Norte, mas, em meio ao caos de uma nação derrotada, Lore encontra o intrigante e misterioso Thomas, um jovem refugiado judeu. Indesejado, malquisto, Thomas os segue e Lore vê sua frágil realidade ser destruída tanto por sentimentos de ódio quanto de desejo. Distribuição: Europa Filmes e Mares Filmes

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Avaliações dos Usuários

Nelson Luiz de Oliveira
Nelson Luiz de Oliveira13 de mar. de 2018

Somente ontem, no Netflix, assisti esse filme, do qual nem tinha ouvido falar. Minhas impressões, portanto, estão muito vivas, e meu senso crítico bastante influenciado por esse ótimo trabalho. Me permita discordar da sua crítica sobre a prolixidade de Lore. A meu ver, não há nada de excessivo no filme. Ao contrário, tudo o que vi foi concisão. A longa jornada e alguns fatos que se assemelham é necessária para mostrar o panorama de destruição da Alemanha e de exposição das vísceras (simbólicas e literais) do nazismo. A jornada tem de ser longa porque longo tem de ser o caminho para a reversão de crenças tão poderosas e enraizadas na sociedade alemã. E a prova disso é que o nazismo temaima em ressurgir aqui e ali. Lore vem para lembrar daqueles horrores é esperto pela rara opção de colocar na tela o ponto de vista que fica sempre obscuro. Poderia dizer muito mais sobre esse filme, que tem entre seus méritos não cometer os erros primários da maior parte das obras a que venho assistindo nos últimos tempos.