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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
15/05/2014 01/01/1970 4 / 5 / 5
Distribuidora
Califórnia Filmes

Praia do Futuro
Praia do Futuro

Dirigido por Karim Aïnouz. Roteiro de Aïnouz e Felipe Bragança. Com: Wagner Moura, Clemens Schick, Jesuita Barbosa, Savio Ygor Ramos, Sophie Charlotte Conrad, Natascha Paulick.

A filmografia do cineasta cearense Karim Aïnouz é pequena, mas notável: Madame Satã, O Céu de Suely e Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo (co-dirigido com Marcelo Gomes) são trabalhos fantásticos, ao passo que O Abismo Prateado, mesmo frágil, traz momentos brilhantes e uma performance central magistral. Assim, não é surpresa que este Praia do Futuro seja um filme de ideias ambiciosas e abordagem corajosa, mesmo que seja sabotado por sua estrutura que, dividida em capítulos, encontra dificuldades para justificar o terceiro e último destes, tropeçando justamente quando deveria estar pronto para encerrar sua bela trajetória.

Escrito por Aïnouz ao lado de Felipe Bragança, o roteiro acompanha o salva-vidas Donato (Moura), que, trabalhando na praia do título, em Fortaleza, certo dia fracassa ao tentar resgatar um turista alemão, cujo corpo desaparece sob as águas enquanto seu parceiro Konrad (Schick) é levado de volta à areia por um colega do protagonista. Sem conseguir evitar a culpa por ter falhado, Donato insiste em dar a notícia da morte do turista ao seu companheiro – e não demora muito até que o brasileiro e o alemão se envolvam sexual e romanticamente. A partir daí, seguimos o personagem de Moura até a Alemanha, onde decide morar com Konrad apesar das dificuldades para se adaptar ao frio e à ausência de praia. E quando, anos depois, seu irmão mais novo (Barbosa) vai ao seu encontro, um conflito familiar surge inevitável.

Lidando com o tema da homossexualidade sem sentir a necessidade de incluir passagens que discutam o preconceito (algo que encaro como uma bem-vinda evolução, já que aparentemente já podemos ter histórias sobre gays que podem se concentrar nos relacionamentos em vez de na intolerância de terceiros), Praia do Futuro traz indivíduos bem resolvidos quanto à própria orientação sexual – e o fato de Aïnouz e a montadora Isabela Monteiro de Castro cortarem subitamente para uma intensa cena de sexo entre Donato e Konrad sem sentirem a necessidade de inicialmente sugerirem a atração entre eles é um reflexo da atitude daqueles dois homens com relação a quem são e ao que desejam. Por outro lado, aos poucos o filme leva o espectador a perceber de maneira sutil que talvez o personagem de Wagner Moura não experimentasse exatamente a paz de espírito que buscava demonstrar, o que se torna, de certa forma, motor da narrativa.

Neste sentido, o roteiro se mostra brilhante ao introduzir esta ideia através de um diálogo que superficialmente nada tem a ver com a questão, num exemplo magnífico de subtexto: ao discutir a geografia local com Konrad, o salva-vidas explica casualmente que, em função do salitre, “não dá para construir nada na Praia do Futuro” – uma fala que eventualmente percebemos ser rica de significados, podendo traduzir a insegurança do próprio Donato diante de seu futuro ali. Não por acaso, depois de uma introdução em um quadro aberto que traz moinhos de vento e dois motoqueiros percorrendo a areia até chegarem ao mar, numa sugestão inequívoca de liberdade, testemunhamos o afogamento de um deles (o que, mais uma vez, pincela a praia com uma cor de opressão). Em contrapartida, se a Alemanha é vista em cores frias, é ali que testemunhamos os dois namorados dançando, felizes, em um longo plano que denota o conforto que sentem um com o outro.

Não que tudo subitamente se torne perfeito – e, mais uma vez, a sutileza da abordagem de Aïnouz merece aplausos. Ainda que se mostre feliz por estar com Konrad, aqui e ali notamos a inquietação do protagonista, como, por exemplo, quando o vemos se afastar de um momento familiar e observar o namorado e a amiga deste através de uma porta que o mantém isolado de todos. Mais: mesmo aparentemente acostumado à Alemanha, o apartamento de Donato exibe elementos que entregam seu deslocamento, como estrelas-do-mar, conchas e pequenas escotilhas que remetem ao litoral que ele deixou para trás. Da mesma maneira, é sintomático que constantemente o vejamos na água, seja na piscina que frequenta ou no aquário no qual trabalha, sendo também inequívoco o prazer que ele sente ao experimentar o sol no rosto, quando, num gesto familiar, ergue a cabeça em direção ao calor e fecha os olhos para acentuar a sensação agradável.

Aliás, que tal maneirismo se torne marca registrada do personagem embora seja executado apenas duas vezes na projeção é algo que demonstra o talento de Wagner Moura ao compor suas criações. Ator que me encanta cada vez mais graças à individualidade e à complexidade que confere a cada criação que vive, Moura transforma Donato em um homem repleto de dimensões: confortável em Fortaleza, muda-se para o frio alemão num impulso; aparentemente tão introspectivo e controlado diante dos colegas, subitamente se rende ao sexo com um estranho. Retratando a humanidade e o caráter de Donato através de pequenos momentos – como ao dar a notícia da morte a Konrad ou ao sugerir ao seu superior que insistam nas buscas pelo corpo -, o ator ainda exibe uma integridade artística admirável ao não hesitar em se entregar às sequências de sexo, que são fundamentais para que percebamos a magnitude da atração entre os dois amantes. A mesma integridade, claro, vale para Clemens Schick, que ilustra bem o afeto de Konrad pelo outro e sua dor diante dos obstáculos que enfrentam. E se Jesuita Barbosa volta a demonstrar o talento já visto no excelente Tatuagem, aqui evidenciando a mágoa de Ayrton já ao surgir em cena através do olhar sempre doído, elogios também devem ser feitos ao pequeno Savio Ygor Ramos, que vive o personagem na infância e cuja performance natural e divertida é responsável pelo carinho que sentimos por Ayrton quando o reencontramos anos depois e com o rosto de Barbosa.

Assim, considerando todas estas virtudes de Praia do Futuro, é realmente frustrante perceber como o terceiro ato/capítulo do longa parece não se encaixar no restante da narrativa. Em primeiro lugar, fica difícil aceitar que Donato simplesmente passasse a ignorar sua família, já que se mostrara tão apaixonado pelo irmão pequeno. Sim, como já discuti, é possível perceber que ele se sentia oprimido em Fortaleza, mas isto não explica um corte tão completo em suas relações familiares. Da mesma forma, se os dois primeiros capítulos já eram mais hábeis em sugerir a atração sexual entre o casal principal do que em nos levar a acreditar no sentimento nutrido pelos dois, o terceiro ato complica tudo ainda mais ao revelar uma dinâmica nova e estranha entre eles – e, mais uma vez, sem se preocupar em explicar o que realmente ocorreu.

Mas mesmo estes erros de julgamento por parte do filme se tornam fáceis de ignorar quando somos presenteados com cenas como aquela na qual Donato e Konrad discutem em um parque e, subitamente, uma tempestade de neve desaba sobre os dois, sugerindo não só a frieza entre eles, mas a natureza tempestuosa da situação. Da mesma forma, o simbolismo no gesto de Donato de permanecer a bordo de um trem (leia-se: daquela relação) é simples, mas eficiente – o mesmo se aplicando ao reencontro dos dois irmãos, que resulta numa paradoxal troca de agressões repletas de afeição.

E, assim, é perfeito que aquelas criaturas multifacetadas nos deixem não ao fim de suas jornadas, já que ainda se encontram muito distantes deste, mas sim em meio a uma névoa intensa que os mergulha no desconhecido e no incerto - e na direção dos quais seguem lenta, determinada e corajosamente.

02 de Maio de 2014

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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