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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
13/11/2014 01/01/1970 4 / 5 3 / 5
Distribuidora
Imagem Filmes

Debi e Lóide 2
Dumb and Dumber To

Dirigido por Peter e Bobby Farrelly. Roteiro de Sean Anders, Mike Cerrone, John Morris, Bennett Yellin, Peter e Bobby Farrelly. Com: Jim Carrey, Jeff Daniels, Rob Riggle, Laurie Holden, Rachel Melvin, Steve Tom, Kathleen Turner, Brady Bluhm e Bill Murray.

Lançado no Brasil em fevereiro de 1995, Débi & Lóide representou um momento importante em minha carreira, que tinha, então, menos de um ano de vida: depois de receber diversas mensagens de leitores do BBS para o qual escrevia (pesquisem o que eram as BBS, crianças!), fui assistir ao filme dos irmãos Farrelly determinado a detestá-lo – e ao me surpreender rindo enlouquecidamente durante toda a sessão, aprendi que 1) jamais deveria entrar numa sessão com ideias preconcebidas acerca da obra que veria; e 2) era fundamental ser sempre honesto com os leitores ao reconhecer minhas reações a um longa (algo que meu mestre Roger Ebert resumia com a frase “Um homem vai ao cinema; o crítico deve reconhecer que é aquele homem”). Assim, ao voltar para casa escrevi um breve texto altamente elogioso àquela comédia e, cinco anos depois, publiquei um texto no qual a classificava como “uma das melhores da década de 90”. O que me traz a este Débi & Lóide 2 – ou, considerando a péssima prequel lançada há alguns anos, talvez fosse melhor dizer Débi & Lóide 2 2.

Escrito por nada menos do que seis roteiristas (geralmente um péssimo sinal) e surgindo com um atraso de duas décadas em relação ao original (geralmente outro péssimo sinal), este projeto volta a acompanhar os amigos Harry (Daniels) e Lloyd (Carrey) quando estes já se encontram na faixa dos 50 anos de idade cronológica e nos mesmos 10 anos de idade mental que exibiam em 94. Ainda desempregados, solteiros e vivendo no mesmo apartamento cuja única decoração consiste num pôster de Bo Derek saindo do mar, os dois homens partem em mais uma jornada pelo país – desta vez, com o objetivo de encontrar a filha biológica cuja existência Harry acaba de descobrir e que poderá doar a ele um rim.

Estruturalmente, portanto, esta continuação adota o mesmo recurso de usar o subgênero road movie para ancorar a narrativa e criar uma justificativa – mesmo que frágil – para as situações nas quais os personagens se envolvem. Da mesma forma, os roteiristas voltam a empregar uma subtrama que traz bandidos perseguindo os heróis, chegando a repetir até mesmo situações e falas do original em momentos que oscilam entre homenagem ao filme de 94 e pura preguiça. Por outro lado, se no original Harry e Lloyd eram figuras absurdas em um mundo povoado por pessoas relativamente normais, desta vez os Farrelly cercam a dupla com indivíduos que parecem no mínimo orbitar o universo insano dos dois, o que aumenta as possibilidades cômicas.

Vividos por Jeff Daniels e Jim Carrey com a mesma energia quase maníaca de antes, os personagens-título são construções que se mantêm num balanço delicado: por um lado, ofendem com sua postura incapaz de reconhecer o conceito do “politicamente correto”; por outro, atenuam estas ofensas em função de suas personalidades infantilizadas e – fundamental – pelo fato de acabarem sendo as maiores vítimas das próprias ações, mesmo que não percebam isso. Assim, quando riem por não acreditarem que uma mulher poderia ser doutora, Harry e Lloyd exibem uma postura machista facilmente condenável que, ainda assim, provoca um riso sem culpa no espectador ao deixar claro que os dois são, sim, estúpidos por pensarem daquela maneira. Com isso, em vez de transformarem mulheres, idosos ou asiáticos em alvos de seu humor (como fazem tantos “humoristas”), os irmãos Farrelly e seus atores colocam seus (anti?)heróis na berlinda: Harry e Lloyd podem até estar rindo daquelas pessoas, mas o filme e - mais importante - os espectadores estão rindo de Harry e Lloyd.

Voltando a exibir a mesma dinâmica brilhante que tornou o original tão memorável, Daniels e Carrey conseguem a proeza de viver seus caricaturais personagens de maneiras claramente distintas: enquanto o primeiro surge com olhos levemente vesgos, a boca sempre aberta num riso tolo e com metade da bunda sempre à vista, o segundo investe numa postura pateticamente arrogante, como se se julgasse infinitamente mais esperto que o companheiro – e a inteligência desta composição reside no fato de que Lloyd é certamente o mais tolo dos dois, o que suaviza seu egoísmo e suas tentativas patéticas de manipular o outro, já que constantemente age como uma criança que sabota outra apenas para ganhar uma bola extra de sorvete. E se Jim Carrey não exibe aqui a mesma agilidade física do passado, seu rosto indubitavelmente permanece capaz de uma elasticidade assombrosa, assumindo formas que humanos normais não deveriam conseguir assumir.

Enquanto isso, os irmãos Farrelly, como de hábito, empregam uma abordagem visual das mais básicas: no Cinema da dupla, não há o refinamento visual e a inventividade narrativa que vemos, por exemplo, nos filmes de um Edgar Wright, já que os cineastas constantemente optam por uma luz branca inexpressiva e constante e por quadros que se limitam a acompanhar os atores em suas movimentações em cena – e o máximo de complexidade que os Farrelly conseguem exibir é uma pontual contraposição entre um quadro fechado e um plano conjunto que subitamente recontextualiza as informações para construir uma gag (como no momento em que os heróis param para consultar um mapa e descobrimos que não escolheram exatamente um acostamento para a pausa). Isto, contudo, não deve ser interpretado como uma crítica negativa, já que o propósito dos irmãos é justamente permitir que suas piadas resultem das interpretações e dos diálogos, não da montagem, da fotografia ou do design de som, o que é uma escolha coerente com o estilo que já exibem desde o início da carreira e que se mostrou bem-sucedido.

Em contrapartida, os Farrelly exibem aqui uma certa autoindulgência ao deixarem gorduras que o longa de 94 raramente exibia, mantendo algumas cenas que se estendem por longos minutos enquanto tentam desenvolver gags que simplesmente não funcionam – e todas as piadas envolvendo Harry como jurado de um concurso científico, por exemplo, poderiam facilmente ter ficado na lixeira do computador sem prejudicar o filme (ao contrário: este ganharia ritmo e ficaria mais coeso).

Ao final, porém, Débi & Lóide 2 faz jus ao antecessor. E se desta vez não posso afirmar que se trata de “uma das melhores comédias da década de 2010”, ao menos posso dizer que é certamente uma das melhores do ano.

Observação: há uma cena após os créditos finais.

13 de Novembro de 2014

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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