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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
01/01/1970 01/01/1970 4 / 5 / 5
Distribuidora
Copacabana

O Senhor do Labirinto
O Senhor do Labirinto

Dirigido por Geraldo Motta. Com: Flávio Bauraqui, Irandhir Santos, Maria Flor.

Mesmo que O Senhor do Labirinto fosse um fracasso quase completo – e não é -, apenas um único fator já representaria motivo suficiente para que este filme fosse conferido pelos fãs do bom Cinema: a atuação absolutamente magnética de Flávio Bauraqui como o artista plástico Arthur Bispo do Rosário.

Diagnosticado como esquizofrênico e acreditando ser a nova representação de Jesus na Terra, Bispo passou mais de cinco décadas internado na Colônia Juliano Moreira, no Rio de Janeiro, onde criou uma obra grandiosa que refletia suas obsessões religiosas e também seu passado como marinheiro (os navios são figuras recorrentes entre suas criações). Ex-boxeador, ele inicialmente é utilizado pelos enfermeiros-carcereiros para controlar os demais detentos, passando a assumir o papel de hóspede especial ao transformar toda uma galeria da instituição em seu museu particular.

Dirigido por Geraldo Motta a partir do roteiro que escreveu ao lado de Luciana Hidalgo, O Senhor do Labirinto já demonstra a segurança do diretor na seqüência que retrata a queda do protagonista na insanidade, quando uma série de cortes secos é empregada de forma econômica para evocar a fragmentação psíquica do sujeito. Motta, aliás, demonstra inteligência e bom senso até mesmo ao perceber os pontos fracos da produção, tentando disfarçá-las – e um bom exemplo reside nos terríveis efeitos de maquiagem de envelhecimento, que o cineasta busca contornar ao mergulhar os personagens em sombras e ao evitar primeiros planos que exponham ainda mais a artificialidade das próteses (ainda assim, é impossível não constatar a baixa qualidade das mesmas).

Com um design de produção impecável que conta até mesmo com reproduções perfeitas das peças criadas pelo Bispo (porque é difícil imaginar que os originais tenham sido emprestados ao projeto), o filme também acerta na autenticidade dos figurinos e nas recriações de época. Por outro lado, o elenco secundário se mostra bastante irregular, o que denota a falta de um cuidado maior na escalação destes papéis menores ou, no mínimo, uma melhor preparação destes intérpretes.

O que, claro, não se aplica à dupla vivida por Irandhir Santos (que este ano já provou sua força em Tropa de Elite 2) e Flávio Bauraqui. Encarnando o funcionário da Colônia que se torna mais próximo do Bispo, Santos concebe um personagem gentil e bondoso que, tratando o sujeito sempre com carinho, desenvolve um respeito genuíno para com o paciente – e a tocante amizade entre Wanderley e o Bispo se transforma num dos centros da narrativa. Mas é mesmo Bauraqui que se converte no grande chamariz da produção, carregando o filme com uma força incrível: exibindo uma cadência fabulosa em sua fala, o ator encarna a insanidade genial do personagem com uma autenticidade impressionante – e sua caracterização do envelhecimento do protagonista é tão perfeita que chega a levar o espectador a quase ignorar a pavorosa maquiagem. O trabalho de Bauraqui é tão bom que, em certo momento, o diretor Geraldo Motta se arrisca até mesmo a exibir imagens do curta O Prisioneiro da Passagem, de Hugo Denizart, que traz o verdadeiro Bispo no hospício.

Com um clímax comovente que certamente mandará vários espectadores para fora da sala de exibição com lágrimas nos olhos, O Senhor do Labirinto é um filme que honra o personagem magnífico que retrata – e isto é o que basta.

27 de Outubro de 2010

Observação: esta crítica foi originalmente publicada como parte da cobertura da Mostra Internacional de Cinema de SP 2010.

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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