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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
01/04/2005 14/04/2005 2 / 5 / 5
Distribuidora

Quase Dois Irmãos
Quase Dois Irmãos

Dirigido por Lúcia Murat. Com: Caco Ciocler, Flávio Bauraqui, Werner Shünemann, Antônio Pompêo, Marieta Severo, Tonico Pereira, Maria Flor, Luis Melodia, Fernando Alves Pinto, Babu Santana, Renato de Souza.

Precedido por uma carreira invejável em festivais e mostras de Cinema, o lançamento em circuito comercial de Quase Dois Irmãos vem sendo divulgado com ênfase particular na lista de prêmios já recebidos pelo filme. No entanto, não podemos nos esquecer que até mesmo bombas como Histórias do Olhar e Olga colecionaram estatuetas em eventos espalhados pelo mundo – e, ainda que esteja longe de ser um embaraço como os exemplos que citei, o fato é que Quase Dois Irmãos simplesmente não faz jus às expectativas criadas por seu currículo. Adotando uma estrutura narrativa obviamente deficiente, o longa conta com performances irregulares e é prejudicado por um roteiro desconexo que compromete irremediavelmente os esforços de todos os envolvidos no projeto.


E isto é uma pena, já que a proposta da diretora-roteirista Lúcia Murat (do ótimo Doces Poderes) era promissora: abordar a improvável (mas real) convivência entre militantes políticos e presos comuns durante determinado período da Ditadura Militar, quando estes grupos tão diversos dividiram o mesmo espaço no presídio da Ilha Grande, no Rio de Janeiro. Este encontro inusitado provocou um verdadeiro impacto ideológico sobre os assaltantes e traficantes que jamais haviam ouvido falar de Marx ou Trotsky – e não deixa de ser uma imensa ironia que tal aprendizado tenha desempenhado papel vital na fundação do Comando Vermelho, que, com o passar dos anos, ajudou a criar (ao lado de seus `filhotes`) o país incrivelmente violento no qual vivemos hoje em dia.

Infelizmente, em vez de se concentrar no fascinante tema que tinha em mãos, Murat dilui a força da história em uma série de subtramas que não contribuem em absolutamente nada para a narrativa: por que, por exemplo, o filme desperdiça um tempo precioso ao enfocar a disputa entre uma adolescente do asfalto e uma mulher do morro pelo afeto do traficante Deley? E o que interessa, neste contexto, o tal `projeto social` apresentado pelo deputado Miguel ao chefe do tráfico Jorginho? Ora, o roteiro falha até mesmo em estabelecer relações básicas de causa-conseqüência entre a maior parte de suas cenas, o que resulta em uma experiência frustrante para o espectador: o que, por exemplo, a introdução do longa (na qual vemos a mãe de Miguel lendo uma história para o garoto) tem a ver com o que quer que seja que vem a seguir? E a longa seqüência envolvendo o destino de um gato?

Mas as perguntas não param por aí: por que diabos é tão importante retratar a ligação entre os pais de Miguel e Jorginho se isto simplesmente não desempenha papel algum no filme? Aliás, a própria amizade de infância entre os dois protagonistas revela-se dispensável – ou devemos acreditar que a interação entre revolucionários e bandidos teria sido diferente caso Miguel e Jorginho não se conhecessem há anos? (Ao contrário: a relação prévia dos dois enfraquece o longa, já que tenta encontrar uma explicação desnecessária para o convívio de seus grupos.) Mas a grande ironia é que, mesmo com tantos esforços para retratar o elo entre os dois personagens, estes raramente parecem ser realmente próximos – e certamente não soam como `quase dois irmãos`.

Devo reconhecer, no entanto, que a coisa poderia ter sido pior: afinal, embora salte de uma época para outra sem qualquer justificativa estrutural (o que destrói sua continuidade emocional), parecendo ter sido montado de forma aleatória, o filme jamais deixa o público confuso com relação à época enfocada – uma façanha que deve ser atribuída à fotografia de Jacob Solitrenick, que emprega filtros, cores e luzes de forma inteligente para separar cada período: as cenas ambientadas em 1957 adotam um tom sépia característico, enquanto as seqüências na prisão surgem em cores frias, dessaturadas. Finalmente, os acontecimentos do `presente` são vistos em uma paleta realista, natural.

Utilizando uma narração panfletária e diálogos desnecessariamente expositivos, o roteiro de Murat e Paulo Lins também parece ignorar a demagogia de seu suposto herói, o militante Miguel, vivido por Caco Ciocler (que vem se revelando um buraco negro de carisma, já que, assim como em Olga, suga a energia de toda cena em que aparece). Durante um certo tempo, até acreditei que o filme tinha consciência das imensas falhas de caráter do personagem, mas fui finalmente obrigado a reconhecer que estava enganado.

Apesar de tudo, há ao menos um componente de Quase Dois Irmãos que deve ser elogiado sem ressalvas: a música-tema composta por Naná Vasconcelos. Taí um elemento que merece todos os prêmios que lhe caírem sobre o colo.

31 de Março de 2005

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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