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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
27/08/2004 06/08/2004 3 / 5 / 5
Distribuidora

Colateral
Collateral

Dirigido por Michael Mann. Com: Tom Cruise, Jamie Foxx, Jada Pinkett Smith, Mark Ruffalo, Javier Bardem, Peter Berg, Bruce McGill, Irma P. Hall, Jason Statham.

Max é um motorista de táxi que considera seu emprego como algo temporário. O problema é que, enquanto sonha em montar sua própria empresa de locação de limusines, ele tem permanecido em seu trabalho `temporário` por mais de doze anos. Certa noite, ele atende um passageiro que muda o trajeto de sua vida: Vincent é um assassino profissional que viajou para Los Angeles a fim de matar cinco pessoas e que obriga Max a transportá-lo durante sua missão. Ao longo das horas seguintes, os dois homens passam a se conhecer melhor – o que não quer dizer, é claro, que se tornam amigos.

Responsável por dois dos melhores filmes da década de 90 (Fogo Contra Fogo e O Informante), o cineasta Michael Mann sempre se destacou graças a duas características marcantes: o cuidado com o desenvolvimento de seus personagens e a força de seus quadros e movimentos de câmera. Esta última qualidade, diga-se de passagem, representa o ponto forte de Colateral: optando (como de costume) pela câmera na mão, o diretor confere energia e tensão à narrativa, além de um sentimento de urgência que esgota o espectador. Além disso, a fotografia do longa é belíssima, retratando a Los Angeles noturna de maneira impressionante, combinando o glamour das luzes com a miséria dos guetos escuros – e é interessante observar que Mann trabalhou com dois diretores de fotografia (algo raro): o australiano Dion Beebe e o canadense Paul Cameron, rodando a maior parte do filme com equipamento digital de alta definição, jogando por terra quaisquer alegações que alguns profissionais ainda possam fazer a respeito da `limitação` do formato.

Por outro lado, o desenvolvimento dos personagens acaba sofrendo em função do roteiro apenas mediano de Stuart Beattie: Michael Mann até procura investir na relação entre Max e Vincent, utilizando boa parte da narrativa para enfocar as conversas da dupla, mas seus esforços são frustrados pelos diálogos decepcionantes concebidos pelo roteirista – e, a partir de certo momento, torna-se simplesmente impossível aceitar que o taxista seja capaz de papear de maneira quase descontraída com o matador a quem tanto teme. Como se não bastasse, Beattie tenta criar um `momento Tarantino` ao incluir um monólogo de Felix (vivido por Javier Bardem) sobre Papai Noel, mas a história narrada pelo traficante é tão ruim e inverossímil que serve apenas para constranger o talentoso ator espanhol.

Infelizmente, ele não é o único intérprete a ser desperdiçado pelo projeto: além de uma ponta insignificante de Jason Statham (que ainda não conseguiu fazer jus às suas performances em Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes e Snatch – Porcos e Diamantes), Colateral traz Mark Ruffalo, uma das grandes revelações dos últimos anos, vivendo um personagem que jamais diz a que veio – e é uma pena constatar que sua última cena falha ao não provocar a impressão forte que deveria. Em contrapartida, Jamie Foxx prova ter carisma suficiente não apenas para contracenar com um astro da grandeza de Tom Cruise sem se deixar ofuscar, como também deixa claro que é capaz de segurar um filme sem precisar de ajuda – e a longa seqüência de apresentação de seu personagem, que se resume a uma conversa entre Max e Annie (Jada Pinkett Smith), representa o melhor momento da projeção (o que não deixa de ser um problema, é claro, já que acontece nos minutos iniciais).

Já a escolha de Cruise para viver o assassino Vincent tem resultados ambíguos: por um lado, a persona cinematográfica do ator, acostumado a viver mocinhos, empresta ao matador um ar de dignidade que leva o espectador a gostar do sujeito, tornando-o instantaneamente mais complexo e interessante – e Cruise, com cabelos e barba grisalhos, faz o máximo para se afastar da imagem com a qual nos acostumamos ao longo dos últimos anos, o que também é bastante positivo. Por outro lado, é impossível negar que Vincent jamais se torna tão ameaçador como deveria – de certa maneira, o público não consegue temê-lo como temeria, por exemplo, caso fosse interpretado por Javier Bardem. E isso compromete o filme.

Aliás, a própria estrutura narrativa de Colateral, excessivamente convencional, enfraquece o projeto, tornando-o previsível e maniqueísta. E é uma pena observar que o roteiro desperdiça suas próprias idéias: por que frisar o perfeccionismo quase patológico de Vincent e Max se esta semelhança entre os dois personagens jamais será explorada dramaticamente? E por que estabelecer que `seqüestrar` taxistas faz parte do modus operandi de Vincent se isto não será desenvolvido posteriormente?

Ainda assim, Colateral possui sua parcela de bons momentos, o que garante uma recomendação: a conversa entre o personagem de Tom Cruise e um trompetista, por exemplo, destaca-se pela súbita mudança de tom, tornando-se tensa justamente quando esperávamos um breve momento de descontração. Da mesma forma, as músicas que pontuam a história não são apenas belas, ajudando, também, a estabelecer o humor dos protagonistas a cada instante.

Em um ano marcado por produções medíocres, Colateral acaba merecendo destaque – não por seus méritos, mas por eliminação.
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27 de Agosto de 2004

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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