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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
14/01/2005 24/11/2004 2 / 5 3 / 5
Distribuidora

Alexandre
Alexander

Dirigido por Oliver Stone. Com: Colin Farrell, Jared Leto, Val Kilmer Angelina Jolie, Anthony Hopkins, Christopher Plummer, Gary Stretch, Jonathan Rhys-Meyers, Rosario Dawson.

`Quem foi este tal de Alexandre, o Grande, e por que ele é tão importante do ponto de vista histórico?`. Esta é uma pergunta que muitos espectadores farão a si mesmos enquanto estiverem saindo do cinema, depois de assistirem à cinebiografia do conquistador macedônico dirigida por Oliver Stone. E se considerarmos que o filme dedica três horas à narração dos feitos do personagem, é no mínimo preocupante constatar que seja tão pouco esclarecedor neste sentido.

Por que Alexandre era um estrategista militar tão brilhante? O que o diferenciava dos demais generais de sua época? Quais eram seus sonhos, suas aspirações e frustrações? Por que despertava tamanho fascínio em seus seguidores? Em sua tentativa de humanizar uma figura histórica tão relevante, o roteiro escrito a seis mãos por Stone, Laeta Kalogridis e Christopher Kyle consegue apenas retratar o personagem-título como um sujeito inseguro e chorão que não tinha o menor tato ao lidar com seus subordinados diretos (fundamentais para seus planos) e cujo único propósito militar era chegar ao `fim do mundo`. Sim, há referências à sua preocupação em unificar culturalmente o Oriente e o Ocidente, mas isto fica em segundo plano, cedendo lugar à sua `curiosidade geográfica` e ao seu desejo de vingar a morte do pai, supostamente encomendada pelo Rei Dario, da Pérsia.

Começando já com um erro histórico grotesco (embora só viesse a ser finalizado anos depois, o Farol de Alexandria é visto ao fundo da cena que abre o filme, em 283 a.C), Alexandre tem, como uma de suas principais falhas, a prolixa narração feita por Ptolomeu, vivido por Anthony Hopkins. Embora sirvam para resumir para o espectador diversos fatos que certamente tomariam horas de projeção, as explicações de Ptolomeu falham graças à inexplicável seleção de acontecimentos feita pelos três roteiristas, que simplesmente ignoram a maioria dos incidentes fundamentais na formação do caráter e da percepção militar do personagem-título. Um exemplo: apesar de ter sido responsável pela maior parte da educação de Alexandre, Aristóteles (sim, o Aristóteles) é visto em uma única cena – e parece mais preocupado em justificar (para o público) o futuro envolvimento entre o protagonista e seu amigo Hefestião do que em ensinar o que quer que seja para o rapaz.

Mais tarde, depois de ilustrar o conflito de Alexandre ao se ver dividido pelas maquinações políticas da mãe e a brutalidade do pai, o filme salta oito anos no tempo, impedindo que o espectador testemunhe, por exemplo, a participação fundamental do herói na batalha de Queronéia ao lado do Rei Filipe II, quando sua habilidade em conceber estratégias capazes de surpreender os adversários foi revelada. E como aceitar que um dos momentos mais importantes da vida de Alexandre (o lendário rompimento do Nó Górdio) tenha ficado de fora do filme? E por que Stone deixa de mostrar o assassinato de Filipe II para simplesmente voltar ao incidente durante o terceiro ato – algo que não encontra a menor justificativa narrativa? Aliás, chega a ser curioso constatar que o cineasta, que já vinha utilizando sempre dois montadores em seus filmes desde 1988 (algo raro), agora tenha dobrado este número – mas, em vez de alcançar melhores resultados, conseguiu transformar Alexandre em um longa muito mais confuso e irregular do que, por exemplo, o sensacional JFK, que representava um desafio infinitamente mais complexo.

Outra grave falha no trabalho do diretor reside em sua incapacidade de ilustrar as estratégias militares de Alexandre - o General Patton de sua época. Encenadas de forma confusa (mesmo com a utilização de letreiros que identificam a posição das tropas!), as duas batalhas vistas ao longo do filme podem até impressionar graças às tomadas aéreas e à utilização de um número gigantesco de figurantes, mas empalidecem inquestionavelmente se comparadas às seqüências semelhantes vistas recentemente em O Retorno do Rei – e, infelizmente para Oliver Stone, é impossível deixar de fazer esta comparação. (Em contrapartida, a segunda batalha retratada pelo cineasta contém o plano mais bonito do longa: aquele em que Alexandre, montado no cavalo Bucéfalo, enfrenta um inimigo que se encontra sobre um elefante – pena que, logo em seguida, Stone se entregue aos seus excessos visuais habituais ao empregar um injustificável `filtro` vermelho no restante da cena.)

Acertando ao resgatar a admiração que Alexandre sentia por Aquiles (o que incluía o amor incondicional deste por Pátroclo), o filme merece créditos por não fazer pouco do envolvimento entre o personagem-título e seu amigo/amante Hefestião – evitando, por exemplo, a covardia de Tróia, que transformou Pátroclo em `primo` de Aquiles. Procurando retratar a naturalidade com que relacionamentos entre dois homens eram vistos na época (o conceito de homossexualismo simplesmente não existia), Stone inclui diversos planos nos quais vemos soldados se beijando durante festas e orgias, mas inexplicavelmente se acovarda ao lidar com Alexandre. Sim, como eu disse antes, fica claro que este e Hefestião (retratado quase como uma drag queen por Jared Leto) se amam, mas eles não trocam um beijo sequer durante a projeção (o único homem que Alexandre beija na boca é – oh! – um eunuco). Em contrapartida, a cena de sexo envolvendo o herói e a bela Roxana é encenada de forma selvagem, chegando ao ponto do ridículo graças ao exagero na performance de Rosario Dawson (que tem um corpo magnífico, diga-se de passagem, e é por isto que a perdôo).

Mas acusar Dawson de exagero torna-se quase uma injustiça se compararmos sua caracterização à de Angelina Jolie, que emprega um sotaque absurdo ao encarnar Olímpia e que atravessa o filme alternando dois olhares: o de feiticeira sedutora e de vilã maniqueísta. Além disso, o simples fato da atriz viver a mãe de Colin Farrell, apesar de ser apenas um ano mais velha do que este, é distração suficiente para nos levar a questionar sua escalação no projeto. E se Val Kilmer convence como o imprevisível Rei Filipe II, Farrell falha terrivelmente como protagonista – o que acaba de condenar o longa. Sem possuir a presença física necessária para nos convencer da imponência de Alexandre, o ator (que, de modo geral, sempre me agradou) apela para uma composição que ultrapassa a barreira do histrionismo, exagerando no tremor do queixo, nos olhos sempre arregalados e até mesmo no tom de voz.

Para finalizar, Oliver Stone revela uma decepcionante tendência para o melodrama que eu jamais havia observado em seus trabalhos anteriores – basta contar o número de vezes em que algum personagem grita um `Nããããããooooooo....` novelesco durante a projeção. E o que posso dizer da forma não intencional com que o diretor nos faz rir ao encenar a morte de determinado personagem, quando posiciona Alexandre em primeiro plano, fazendo um de seus discursos, enquanto o outro estrebucha ao fundo? Confesso que não pude deixar de lembrar de Apertem os Cintos... o Piloto Sumiu, no qual o ex-piloto vivido por Robert Hays insistia em narrar seu passado para seus vizinhos de poltrona, levando-os ao suicídio.

Porém, talvez a conclusão mais assustadora seja a de que Caetano Veloso conseguiu, em uma única música, narrar a trajetória de Alexandre de forma bem mais sensível e abrangente do que Oliver Stone foi capaz de fazer em três horas de filme. E olha que sou fã de Stone, não de Caetano.
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14 de Janeiro de 2005

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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