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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
01/11/2001 10/08/2001 4 / 5 5 / 5
Distribuidora

Os Outros
The Others

Dirigido por Alejandro Amenábar. Com: Nicole Kidman, Alakina Mann, James Bentley, Fionnula Flanagan, Eric Sykes, Elaine Cassidy e Christopher Eccleston.

 


Muitos filmes são capazes de provocar sustos; poucos, porém, conseguem causar arrepios. Explico: para assustar o público, um filme precisa ter, apenas, um compositor razoavelmente competente que saiba em que ponto da projeção deve colocar acordes mais altos na trilha para levar o espectador a saltar da poltrona (mesmo que esteja dormindo). Já o arrepio é mais difícil de se conseguir: para isso, a platéia tem que estar envolvida na história e, então, testemunhar um fato que seja assustador em sua essência, independentemente da trilha que o acompanhe. A Filha da Luz e O Dom da Premonição são exemplos de filmes que provocam sustos `artificiais`. O Sexto Sentido e Os Outros são filmes que causam arrepios.

Escrito e dirigido por Alejandro Amenábar, Os Outros gira em torno de Grace (Kidman), uma mulher cujo marido foi morto durante a Segunda Guerra Mundial e que agora vive com os dois filhos em uma mansão afastada de tudo e de todos. Sempre preocupada com o bem-estar das crianças, que sofrem de uma forte alergia à luz, ela mantém a casa sempre às escuras e, para evitar acidentes, faz absoluta questão de trancar qualquer porta antes de abrir outra. Enquanto ensina estas preciosas regras aos três novos criados que acabou de contratar, Grace deve lidar com um estranho fenômeno: sua filha mais velha alega estar vendo uma outra família na mansão e, aos poucos, a própria viúva começa a ouvir ruídos assustadores em vários aposentos.

É claro que, ao criar personagens sensíveis à luz do Sol, Amenábar consegue a desculpa ideal para mergulhar seu filme nas sombras – recurso sempre valioso em um filme de terror. Desta maneira, o cineasta rapidamente envolve o espectador em uma atmosfera tenebrosa e de grande tensão. O curioso é que, uma vez conquistada a platéia, o diretor começa a brincar com a inversão de nossas expectativas: já habituados à fotografia pouco iluminada, somos surpreendidos quando o filme situa duas de suas cenas mais tensas em aposentos intensamente banhados pelo sol – provando que o que nos amedronta não é necessariamente a escuridão, mas sim qualquer condição diferente daquelas às quais estamos acostumados. Além disso, as portas trancadas conferem um tom claustrofóbico eficiente ao filme – algo que, mais uma vez, culmina em uma inversão, levando o público a temer por Grace na única cena em que esta se encontra ao ar livre (mesmo que a neblina intensa também evoque o elemento de claustrofobia).

Outra boa surpresa de Os Outros reside em sua exploração `teórica` do tema: ao contrário do que ocorre na maioria dos filmes que lidam com fenômenos sobrenaturais, os personagens desta produção tentam discutir o que testemunham de acordo com suas próprias crenças religiosas – e isso acrescenta uma nova dimensão a eles. Grace, por exemplo, não consegue entender (ou aceitar) a presença de espíritos em sua casa já que, como católica, não admite a simples existência destas entidades. Assim, a ocorrência destas experiências não apenas a assusta, mas também a confunde ao questionar seu próprio sistema de valores. (Não que o roteiro critique esta ou aquela religião – ele apenas utiliza estes conflitos teológicos para aumentar a tensão da história).

Mas nada disso funcionaria caso não acreditássemos nos personagens. Felizmente, Os Outros conta com uma ótima atuação de Nicole Kidman em um papel particularmente complicado: Grace não é apenas a heroína do filme - ela é, também, uma mulher de personalidade forte e complexa. Seu rigor na criação dos filhos poderia facilmente provocar antipatia no espectador, mas a atriz evita esta armadilha ao demonstrar, mesmo que de forma comedida, um forte carinho pelas crianças (e, ao mesmo tempo, ela deixa transparecer um certo desequilíbrio emocional que se revela fundamental no decorrer da trama).

Outra que oferece uma ótima performance é a veterana Fionnula Flanagan, que cria uma governanta simpática, mas misteriosa (é interessante como ela consegue ser simultaneamente acolhedora e ameaçadora). Já as crianças, vividas pelos estreantes Alakina Mann e James Bentley, desempenham bem os seus papéis, atraindo nossa simpatia e nos levando a temer por sua segurança – e a garotinha se sai particularmente bem em algumas cenas mais complicadas no ato final do filme.

Aliás, como vem se tornando costumeiro em Hollywood, o desfecho de Os Outros ainda reserva uma surpresa para o público. Infelizmente, devo confessar que, desta vez, não fui pego desprevenido, já que a tal reviravolta não é tão difícil de se descobrir quanto aquela vista em O Sexto Sentido (e nem tão original, já que lembra, em certos aspectos, a trama do britânico Ilusões Perigosas, protagonizado por Aidan Quinn e Kate Beckinsale em 1995 e pouco visto no Brasil). De todo modo, o fato de ser previsível não tira o impacto da cena em que o tal segredo é revelado, já que a forma com que tudo é esclarecido é suficientemente forte e bem orquestrada pelo diretor.

Mesmo utilizando todos os velhos recursos do gênero `casa mal-assombrada` (como portas que se fecham sozinhas; instrumentos musicais que emitem sons sem que sejam manipulados; e sussurros distantes), Os Outros consegue estabelecer uma atmosfera assustadora e envolvente – e, apesar de contar com sua parcela de acordes altos em sua trilha (também composta por Amenábar), não depende disso para assustar seu público. E o que é ainda mais importante – é competente o bastante para provocar arrepios no espectador. E, como eu disse no início, filmes assim já são mais difíceis de se encontrar.

17 de Outubro de 2001

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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