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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
14/07/2006 21/06/2006 2 / 5 3 / 5
Distribuidora

Superman - O Retorno
Superman Returns

Dirigido por Bryan Singer. Com: Brandon Routh, Kate Bosworth, Kevin Spacey, James Marsden, Frank Langella, Parker Posey, Sam Huntington, Eva Marie Saint, Kal Penn, David Fabrizio.

 

Para alguns cineastas de talento indiscutível, o sucesso profissional pode funcionar mais como maldição do que como recompensa. Quando ainda estão lutando para se estabelecer, estes diretores são obrigados, por força das circunstâncias, a manter o próprio julgamento sempre em xeque, discutindo suas idéias e conceitos com outros profissionais que não temerão em discordar quando isto for necessário. Numa arte coletiva por natureza (e caríssima), o bom cineasta deve, também, ter um grau mínimo de humildade para saber ouvir opiniões divergentes – e, mesmo que não as aceite, ao menos conhecerá perspectivas diferentes sobre o que está fazendo.

 

Porém, a partir do momento em que um diretor se estabelece definitivamente em Hollywood, o risco de se deixar levar pelo próprio ego torna-se imenso: cercado por uma legião de “colaboradores” que, de fato, só querem agradá-lo, a tentação de se entregar sem reservas a qualquer impulso “criativo” torna-se quase irresistível – e, caso não estabeleça uma disciplina rigorosa para si mesmo, o artista corre um risco imenso de se levar excessivamente a sério, abandonando a auto-crítica para se considerar como um gênio incapaz de cometer erros. Muitos cineastas já passaram (ou ainda passam) por isto – M. Night Shyamalan, Kevin Costner, Oliver Stone, Glauber Rocha, entre outros – e apenas um fracasso inesperado pode, como um balde de água fria, trazê-los de volta à realidade e permitir que recuperem a perspectiva adequada para que continuem a brilhar.

 

O que nos traz a Bryan Singer. Depois de anos realizando produções menores mas artisticamente admiráveis como O Aprendiz e Os Suspeitos, o jovem diretor subitamente ascendeu à lista dos mais “ poderosos” de Hollywood graças ao duplo sucesso de X-Men e X-Men 2, o que lhe trouxe liberdade absoluta para assumir projetos multimilionários sem quaisquer interferências externas. Infelizmente, uma de suas primeiras atitudes foi a de se livrar de seu antigo colaborador Tom DeSanto, considerado por muitos como a “voz da razão” de Singer, entregando-se, a seguir, a um projeto que, justamente por sua essência grandiosa, exigia uma disciplina ainda maior por parte de seu realizador: o tão esperado retorno de Superman às telas de Cinema. Pois se as ambições artísticas do cineasta contribuíram para conferir peso dramático ao universo dos mutantes, desta vez o resultado é bem menos satisfatório – na realidade, é decepcionante: apresentando-se como romancezinho repleto de melodrama, Superman – O Retorno é um filme auto-indulgente e sem ritmo que transforma o Homem de Aço em um galã sem personalidade que estaria mais à vontade em uma produção romântica de Meg Ryan do que em uma superprodução sobre o último sobrevivente de Krypton.

 

Supostamente retomando a história de Kal-El (nome real do herói) a partir do final de Superman II – A Aventura Continua, este novo longa revela que, depois que cientistas descobriram vestígios de seu planeta natal, Superman partiu em uma longa viagem a fim de visitar os restos de Krypton, com a esperança de encontrar algum elo com seu passado. Cinco anos depois, ele volta à Terra e descobre que, durante sua ausência, Lois Lane teve um filho e tornou-se noiva do sobrinho de Perry White, editor do Planeta Diário. E mais: aproveitando a oportunidade, o vilão Lex Luthor visitou a abandonada Fortaleza da Solidão e roubou os cristais que continham os ensinamentos de Jor-El, pai do protagonista, e planeja utilizá-los para criar uma verdadeira cópia de Krypton em nosso planeta, destruindo, no processo, todo o continente americano.

 

É, no mínimo, estranho que Singer e os roteiristas Michael Dougherty e Dan Harris assumam crédito pelo argumento de Superman – o Retorno, já que sua base é praticamente uma releitura da história criada por Mario Puzo para o filme original: o herói, recém-chegado a Metropolis, passa a usar seus poderes para ajudar os terráqueos enquanto Luthor, auxiliado por um bando de trapalhões, decide afundar parte do continente a fim de ganhar uma fortuna com a valorização de suas próprias terras (e, em ambos os longas, ele tem uma amante burrinha que, além de ter uma queda pelo Superman, arrepende-se de fazer parte do plano ao perceber que este custará milhões de vidas). Aliás, sob a alegação de “homenagem”, Superman – O Retorno chega a repetir vários dos diálogos do original, como no momento em que o personagem-título, depois de evitar um desastre aéreo, afirma que aquele ainda é o jeito mais seguro de viajar. De todo modo, se os fãs já ficarão satisfeitos ao perceber detalhes como a origem do meteorito roubado por Luthor de um museu (a placa sob o objeto revela que este foi encontrado na Etiópia – exatamente na mesma cidade em que o vilão encontrou a kryptonita utilizada no primeiro filme), a satisfação se transformará em verdadeiro êxtase quando reconhecerem o plano “assinatura” da série, que traz Superman voando no espaço, com a Terra ao fundo, e olhando com cumplicidade para a câmera.

 

No entanto, não foi à toa que usei a palavra “supostamente” ao me referir ao fato de que Superman – O Retorno tenta dar continuidade à série – afinal, o roteiro claramente ignora eventos importantes do segundo capítulo, como o fato de Lois Lane ter perdido a memória (e, portanto, ela não deveria se lembrar da noite que passou com o herói na Fortaleza da Solidão). Além disso, qualquer roteirista que assuma a tarefa de criar uma história para o Homem de Aço deve enfrentar uma dificuldade básica: ele é poderoso demais; criar situações que realmente pareçam ameaçá-lo é algo complicado e, infelizmente, quase sempre terão que envolver a kryptonita, o que torna tudo óbvio e repetitivo. E trazer Luthor pela enésima vez (sempre com sua obsessão por especulação imobiliária) é um recurso claramente esgotado, o que não contribui para imprimir interesse em um novo começo para a série.

 

Ainda assim, o filme de Bryan Singer tem seus pontos fortes – entre eles, o de ressaltar o isolamento experimentado por Superman em função de seus poderes (algo também explorado no original): quando voa pela cidade com lágrimas nos olhos, Kal-El expõe uma vulnerabilidade muito maior do que havíamos visto até então, e isto serve para aproximá-lo do espectador. Da mesma maneira, o diretor demonstra um forte interesse em mergulhar no simbolismo bíblico das origens do personagem, incluindo um belíssimo plano no qual vemos o protagonista flutuando no espaço, com os olhos fechados, enquanto escuta os pedidos de ajuda dos humanos – quase como um deus atento às preces de seus devotos. Infelizmente, Singer vai além e abandona qualquer sutileza ao apelar para um plano dolorosamente óbvio que traz Superman com os braços abertos em cruz, como um Cristo que se sacrifica pela Humanidade.

 

Enquanto isso, o relacionamento entre Lois Lane e Clark Kent, que sempre foi um dos grandes atrativos da série, é abordado com um distanciamento que compromete sua eficácia. A princípio, é interessante perceber que Lois namora um sujeito bacana (seria terrivelmente maniqueísta retratá-lo negativamente) e, psicologicamente, é curioso que ela tenha se envolvido com um piloto de avião, como se buscasse um substituto que se aproximasse ao máximo de Superman. Além disso, a cena que revela Clark usando sua visão de raios X para observar a amada à distância evoca um romantismo que se encaixa na lógica da narrativa. Lamentavelmente, os acertos param por aí: de modo geral, a dinâmica entre Lois e Clark é inexistente, já que a repórter trata o rapaz de maneira fria e distante, como se fossem meros conhecidos, e não amigos. E quando o roteiro finalmente faz uma revelação que poderia render bons momentos, acabamos frustrados por perceber que esta será utilizada como desculpa para mais melodrama, em vez de ser desenvolvida de forma mais instigante.

 

Mas Superman – O Retorno também é prejudicado pela má escolha do elenco: para início de conversa, Brandon Routh e Kate Bosworth são jovens demais para os papéis – particularmente esta última. Aos 23 anos, é difícil aceitar a atriz como mãe de um garoto de 5 anos e vencedora do Pulitzer – principalmente se considerarmos que ela supostamente já era uma repórter consagrada antes dos 18 anos, quando ocorreram os eventos dos capítulos anteriores. Como se não bastasse, faltam a Bosworth a energia e a personalidade forte tão características de Lois Lane – e a frieza com que trata todos à sua volta a mantém como alguém distante, pouco interessante. Também decepcionante é a performance apagada de Frank Langella, que transforma o editor Perry White em um indivíduo mais interessado em burocracia do que nas investigações de seus repórteres (e prefiro nem mencionar o desperdício representado pela escalação da veterana Eva Marie Saint, que, como Martha Kent, é uma figurante de luxo). Já James Marsden e Sam Huntington alcançam mais sucesso como Richard, o simpático namorado de Lois, e Jimmy Olsen (Huntington, aliás, compõe um Jimmy bem mais jovial e divertido do que aquele concebido por Marc McClure nos primeiros filmes). Kevin Spacey, por sua vez, encarna Luthor de forma excessivamente contida, soltando-se apenas naquela que é sua melhor cena, quando incentiva Lois Lane a desafiá-lo com uma frase clichê.

 

Finalmente, Brandon Routh, por mais que apresente o tipo físico perfeito para o papel, parece sentir o peso do personagem e falha miseravelmente no aspecto mais importante de sua composição, jamais conseguindo diferenciar Clark Kent do Homem de Aço. Como comentei em meu texto sobre Superman – O Filme, o brilhantismo do trabalho de Christopher Reeve residia justamente em sua capacidade de levar o espectador a acreditar que Clark e Kal-El eram indivíduos diferentes; já em O Retorno, o artifício se revela como tal e torna-se difícil aceitar que pessoas tão inteligentes não percebam imediatamente o segredo do protagonista. Aliás, a maior prova de que a fraca presença de Routh exige auxílio da produção encontra-se no fato de que, ao surgir como Superman, torna-se evidente que suas feições receberam algum tipo de tratamento digital para diferenciá-lo ainda mais de Clark Kent – uma ajuda que Reeve dispensava graças ao seu carisma, talento e timing cômico.

 

Enquanto isso, Bryan Singer revela a ausência de qualquer tipo de auto-disciplina ao criar uma narrativa frouxa, sem ritmo, que abusa de longas pausas (especialmente nas cenas protagonizadas por Spacey) e que, sob a desculpa de aumentar a tensão, estende a duração de vários planos que deveriam ter sido cortados vários segundos antes. Há um limite sutil entre prolongar certas cenas para potencializar a tensão ou rareá-la – e Singer constantemente atravessa este limite, criando momentos que se arrastam indefinidamente, sem qualquer propósito aparente a não ser o de permitir que o cineasta exiba seu talento para a composição de seus quadros. Para piorar, há um erro de tom que atravessa toda a projeção, convertendo Superman – O Retorno em um exercício melodramático, um drama aguado, em vez de uma aventura com subtexto dramático (algo que Singer fizera com talento na série X-Men).

 

É claro que, tecnicamente, o filme é irrepreensível: resgatar a trilha inesquecível de John Williams e utilizá-la em conjunção com os créditos tridimensionais do original foi uma decisão mais do que acertada; e a direção de arte merece aplausos por respeitar o design clássico da Fortaleza da Solidão, limitando-se apenas a expandi-lo a fim de torná-lo ainda mais grandioso (e o conceito empregado para criar o quartel-general de Lex Luthor também é admirável). E nem seria necessário dizer que, na era dos efeitos digitais, Superman finalmente parece voar de verdade. Aliás, Superman – O Retorno é recheado de momentos visualmente espetaculares, destacando-se, é claro, o plano em que vemos, em câmera lenta, uma bala esmagando-se ao atingir o globo ocular do herói.

 

Ainda assim, considerando-se a fortuna que o filme custou, era mais do que uma obrigação que seus aspectos técnicos fossem tão fabulosos. É uma pena que, artisticamente, o projeto tenha se revelado tão pretensioso e frágil, permitindo que a auto-indulgência de seu diretor o convertesse em um romance tedioso que, com 154 minutos de duração, funciona como kryptonita para o interesse do público e o respeito dos admiradores do Homem de Aço.
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13 de Julho de 2006

 

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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