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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
24/05/2018 25/05/2018 3 / 5 / 5
Distribuidora
Disney

Han Solo: Uma História Star Wars
Solo: A Star Wars Story

Dirigido por Ron Howard. Roteiro de Lawrence e Jonathan Kasdan. Com: Alden Ehrenreich, Emilia Clarke, Woody Harrelson, Joonas Suotamo, Thandie Newton, Phoebe Waller-Bridge, Paul Bettany, Jon Favreau, Linda Hunt, Warwick Davis, Clint Howard, Anthony Daniels e Donald Glover.

“Eu tenho um bom pressentimento sobre isso”, diz o jovem Han Solo em certo momento desta prequel, expressando uma sensação contrária aos vários maus pressentimentos anunciados ao longo das duas trilogias (quase três) da saga criada por George Lucas. Este otimismo diz muito sobre a proposta de Solo: Uma História Star Wars, cuja atmosfera leve, de aventura descompromissada e bem-humorada, talvez reflita o fato de este ser o primeiro filme da série a se ver completamente livre dos dramas da família mais problemática da galáxia – dos quais nem Rogue One conseguiu escapar.

Escrito por Lawrence Kasdan (O Império Contra-Ataca, O Retorno de Jedi, O Despertar da Força) ao lado de seu filho Jonathan, o roteiro nos apresenta a Han (Ehrenreich) enquanto este, fugindo de criaturas perigosas, faz ligação direta em um veículo que, mesmo voador, traz o chassi de linhas clássicas que poderia ter pertencido a algum carro saído da década de 50 (o que não deixa de ser apropriado, já que o diretor Ron Howard atuou no Loucuras de Verão de um Luca pré-Star Wars). Obrigado a trabalhar para a impiedosa Lady Proxima (voz da veterana Linda Hunt), o sujeito sonha em fugir daquele planeta com a namorada Qi’Ra (Clarke), mas quando seus planos são frustrados, levando-o a partir sozinho, ele promete retornar com sua própria nova a fim de resgatar a garota. É então que ele conhece uma quadrilha de contrabandistas composta por Tobias Beckett (Harrelson), Val (Newton) e Rio Durant (Favreau), juntando-se a estes para conseguir o dinheiro necessário para cumprir sua promessa. Mas não antes de conhecer um certo wookie, claro.

Menos ambicioso visualmente do que todos os longas anteriores, Solo é um filme cujo design de produção se concentra mais em interiores do que em amplas paisagens alienígenas. Sim, há breves tomadas que estabelecem um planeta-mina ou uma cidade-fábrica, mas, de modo geral, estas são apenas tradicionais establishing shots que logo dão lugar a cantinas escuras, a mesas de um tipo de pôquer espacial, a espaços abafados e poeirentos e – não menos importante – às cabines e corredores de determinadas naves com sobrenome de pássaro. Não que Solo não tenha um momento ou outro de ação em escalas mais amplas, como aquela que envolve um trem girando em trilhos suspensos ao redor de montanhas, mas estas não são a regra e sim a exceção. Aliás, há instantes em que se torna possível até mesmo questionar se o projeto contou com o orçamento habitual da franquia, já que suas criaturas digitais (como o Rio dublado por Jon Favreau) jamais soam convincentes como seres similares vistos em Rogue One, O Despertar da Força e Os Últimos Jedi.

Encarregado da desafiadora tarefa de reviver um personagem icônico que passou a fazer parte do imaginário coletivo, o jovem ator Alden Ehrenreich, hilário em Ave, César!, faz um trabalho mais do que adequado: jamais se preocupando em imitar diretamente a caracterização de Harrison Ford, ele ainda assim inclui pontualmente determinados trejeitos do ator, como o sorriso de canto de boca, o dedo apontado como forma de intimidação e até a postura meio encurvada ao disparar suas armas. Dito isso, sua diferença física do “original” dificulta um pouco a aceitação de estarmos vendo o mesmo personagem, já que seu sorriso lembra mais o de Dennis Quaid e sua voz anasalada está timbres e timbres à distância do tom grave de Ford. Aos poucos, contudo, a natureza jovial desta versão de Han Solo vai se tornando mais familiar mesmo que não totalmente persuasiva (e confesso que gostaria de ter visto o que Anthony Ingruber – que chegou a interpretar um jovem Ford em Adaline – ou Jamie Costa fariam com o papel).

Seja como for, a preocupação primordial de Solo é a de revelar as origens de cada elemento da mitologia em torno do anti-herói-convertido-em-herói, desde a razão por trás de seu sobrenome (eu nem sabia que era necessário haver uma) até as circunstâncias específicas que o levaram a completar o Percurso Kessel em menos de 12 parsecs. Aliás, o diretor Ron Howard chega a exagerar em sua insistência de tratar cada “primeira vez” com reverência absoluta, praticamente parando o filme para ressaltar a primeira vez que Han vê a Millennium Falcon, entra em seu cockpit, toca em seus controles e... pois é, como é possível perceber, a abordagem chega a ter um quê de fetiche em sua solenidade. Já outros elementos (como os dados metálicos) já se encontram presentes desde o princípio, incluindo a cicatriz no queixo de Ford.

Enquanto isso, Joonas Suotamo concebe a movimentação e os trejeitos de Chewbacca de uma forma significativamente diferente daquela criada por Peter Mayhew, o que é curioso, ao passo que Donald Glover absorve os modos descolados e a arrogância de Billy Dee Williams com seu Lando Calrissian. Já Woody Harrelson, sem ter que se preocupar em resgatar as escolhas feitas por outro ator, já que seu personagem é inédito na franquia, rouba a cena na maior parte do tempo, assumindo o papel de mentor ambíguo perfeito para alguém como Han Solo. E se Paul Bettany se torna um dos vilões menos interessantes da série (culpa mais do roteiro do que do ator), Emilia Clarke transforma Qi’ra em uma mulher forte e complexa que revela como a Princesa Leia não foi a primeira experiência de Solo com uma parceira predisposta (corretamente, na maior parte das vezes) a subestimá-lo. Para finalizar, é sempre bom ver Warwick Davis em Star Wars, coberto de próteses ou não – e, como não poderia deixar de ser, Ron Howard mais uma vez encontra uma ponta para seu irmão Clint, o que é divertido por si só. (Ah, sim: não me perguntem por que os Kasdan decidam usar os nomes Beckett e Dryden para os personagens de Harrelson e Betanny; o primeiro pode até encontrar alguma justificativa em sua postura pessimistas, mas o segundo é um mistério).

Mais colorido do que o habitual nesta galáxia muito, muito distante, Solo é uma produção que não teme reproduzir os tons das várias capas de Lando nos cenários e nos demais figurinos e personagens – o que, mais uma vez, é justificável em uma narrativa com propósitos mais juvenis (ainda que uma insinuação sutil sobre o tamanho do pênis de Lando encontre espaço nos diálogos. Sim, você leu corretamente). Além disso, ao saltar entre gêneros clássicos (do western aos heist movies, incluindo uma referência ao seminal O Grande Roubo do Trem), Howard mantém o ritmo e a abordagem sempre fluidos e envolventes, jamais deixando de prender e divertir o espectador.

Usando a Marcha Imperial como música diegética pela primeira vez na franquia (em um vídeo de recrutamento, claro), Solo: A Star Wars Story não embaraça a saga nem subestima os fãs – que provavelmente terão pequenos orgasmos ao notar referências breves e orgânicas a instantes inesquecíveis como a troca de diálogos entre Leia e Solo (“I love you” -“I know.”, aqui com uma variação interessante) e, especialmente, a uma questão que se tornou controversa no que diz respeito à tendência do herói de esperar ou não que seus inimigos atirem primeiro.

E o fato de ter escrito esta última frase com um sorriso de canto de boca me leva a constatar como Solo me encantou bem mais do que o esperado.

Texto originalmente publicado como parte da cobertura do Festival de Cannes 2018.

16 de Maio de 2018

Assista também ao videocast (sem spoilers) sobre o filme:

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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