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Críticas por Pablo Villaça

Vingadores: Ultimato
Avengers: Endgame

Dirigido por Joe e Anthony Russo. Roteiro de Christopher Markus e Stephen McFeely. Com: Robert Downey Jr., Chris Evans, Chris Hemsworth, Mark Ruffalo, Scarlett Johansson, Jeremy Renner, Don Cheadle, Paul Rudd, Brie Larson, Karen Gillan, Zoe Saldana, Chadwick Boseman, Tom Holland, Tessa Thompson, Elizabeth Olsen, Anthony Mackie, Gwyneth Paltrow, Sebastian Stan, Tom Hiddleston, Danai Gurira, Rene Russo, Evangeline Lily, Benedict Cumberbatch, John Slattery, Tilda Swinton, Hayley Atwell, Letitia Wright, Bradley Cooper e Josh Brolin.

(É preciso dizer que este texto traz spoilers do filme e que só deveria ser lido por quem já o viu? Bom, estou dizendo de todo modo.)

As hipérboles me incomodam na crítica cinematográfica. Em 25 anos de carreira, posso contar nos dedos de uma mão o número de vezes em que usei, em um texto, expressões como “um dos mais (blábláblá) da história do Cinema” ou “nunca vimos nada como (blábláblá)”. No entanto, ao avaliar o resultado alcançado nos últimos 11 anos pela Marvel – sob comando do executivo Kevin Feige, que já colocou seu nome entre os grandes da profissão -, não consigo lembrar de outro projeto que tenha envolvido 22 filmes divididos em várias franquias que, convergindo aqui e ali, finalmente se encontram em um longa final que inclui todos os personagens (e numa batalha em que todos desempenham funções específicas!). Trata-se de uma narrativa tão ambiciosa que chega a ser difícil conciliá-la com o início promissor, mas comparativamente humilde, de Homem de Ferro ainda em 2008.

A trajetória até aqui, claro, não foi sempre notável: enquanto a DC tropeçava ao tentar emular a atmosfera sombria, crua e eficiente concebida pelo Batman de Christopher Nolan (alcançando bons resultados apenas ao se afastar desta em Mulher-Maravilha e Aquaman), a Marvel abraçou sem reservas a fantasia e a leveza – mesmo que em boa parte de seus longas os heróis sofressem perdas irreparáveis. Porém, relendo meus textos sobre o Universo Estendido Marvel da última década (ou apenas ao tentar lembrar de cada um de seus “capítulos”), percebo como vão se misturando na memória em função da falta de diversidade estética entre os filmes individuais – com exceções importantes como os dois Guardiões da Galáxia, Thor: Ragnarok e Pantera Negra, por exemplo -, o que me parece uma oportunidade desperdiçada. Por outro lado, estas três horas finais da história que traz Thanos (Brolin) transformando metade do universo em cinzas abraçam sem reservas o tom sombrio que o tema exigia, abandonando as cores vivas que as precederam e substituindo-as por uma atmosfera melancólica e fatalista que se torna mais eficaz até mesmo pelo contraponto criado com a década anterior.

Aliás, se um dos problemas recorrentes dos longas anteriores (até mesmo dos melhores) residia na sugestão de que a Marvel parecia determinada em transformar cada episódio em um trailer do seguinte, em Vingadores: Ultimato o estúdio se mostra empenhado em amarrar o maior número possível de pontas deixadas nos arcos de boa parte dos personagens – e, neste sentido, os roteiristas Christopher Markus e Stephen McFeely se beneficiam do fato de terem que lidar com um número consideravelmente menor de indivíduos graças ao estalar de dedos de Thanos no capítulo anterior. O grande atrativo de Ultimato, por sinal, reside precisamente na dinâmica entre seus personagens e na maneira como estes são desenvolvidos de um ponto de vista dramático, já que creio não haver muitas dúvidas acerca do sucesso do grupo em desfazer as ações do vilão* (e foi justamente isso que, diga-se de passagem, diminuiu – ao menos, para mim – o impacto emocional que o desfecho do longa anterior poderia ter provocado, já que era óbvio que a Marvel não eliminaria heróis que atualmente ancoram algumas de suas franquias mais lucrativas).

O resultado – admirável – é que boa parte das três horas de duração de Ultimato mantém o foco nos personagens, não em suas ações, investindo em um tom triste, sombrio e carregado de silêncio que deixa claro como, para aquelas pessoas, a ação de Thanos parece tragicamente definitiva, já que, ao contrário do espectador, não sabem estar no meio de uma franquia multibilionária. Aliás, quando as sequências de ação chegam (e é claro que chegam), sua força tem origem, em parte, no investimento emocional do público, que compreende como tudo aquilo é urgente para os heróis – e os irmãos Joe e Anthony Russo, que aos poucos se tornaram os condutores oficiais da série, conhecem bem o universo no qual estão trabalhando e não desperdiçam nenhuma oportunidade de explorar os momentos que sabem icônicos e que, exatamente por isso, podem soar como mero fan service (o que são em parte) embora sejam impactantes e, por isso, inevitáveis (pensem no instante com o martelo de Thor ou naquele em que o Capitão América diz uma frase que esperou 22 filmes para ser pronunciada). Além disso, os dois cineastas resgatam bem sua experiência com a comédia (adquirida em séries como Arrested Development e Community) e criam várias passagens genuinamente engraçadas que extraem seu humor de maneira orgânica a partir da personalidade dos personagens.

(Aqui abro parênteses para comentar um instante breve, mas importante - aquele em que todas as super-heroínas se agrupam e atacam o exército liderado por Thanos (além do próprio) em uma espécie de “pelotão do empoderamento”. Considerando os protestos dos incels (involuntary celibataries ou, em bom português, “virjões”) diante do ativismo feminista de Brie Larson ao divulgar Capitã Marvel, é inevitável enxergar esta passagem como uma resposta à misoginia de parcela de seus fãs - mesmo que simultaneamente possamos apontar certo cinismo por parte do estúdio, já que estamos falando de poucos segundos em meio a horas e horas de filmes, mas ainda assim… é algo, um movimento na direção certa. Bem mais irritante é a insistência da Marvel em se vangloriar por incluir um personagem anônimo (vivido por um dos diretores) que menciona brevemente o namorado, como se isto fosse um imenso avanço na representatividade homoafetiva na franquia.)

Contando com um roteiro sólido que já toma uma decisão fundamental no primeiro ato ao incluir uma elipse de cinco anos após o estalar de dedos de Thanos, Ultimato atira, nesta simples escolha, um peso colossal sobre os ombros dos heróis, que se veem obrigados a lidar com as consequências de seu fracasso por um período de tempo considerável, o que oferece aos realizadores a oportunidade de imaginar como cada um deles lidaria com algo assim e o que estas escolhas revelam sobre seus temperamentos. Assim, o Arqueiro (Renner) se torna um assassino impiedoso que desconta em foras-da-lei sua dor pelo desaparecimento da família (e não, Brasil de 2019, isto não é aceitável); a Viúva Negra (Johansson) se concentra em tentar manter em atividade algum vestígio dos Vingadores, que assumiu como sua família; Tony Stark (Downey Jr.) tenta construir uma nova vida como marido e pai; a Capitã Marvel (Larson) se converte numa espécie de deus ex marvel, surgindo quando é conveniente para o roteiro (sim, isto é um problema); Bruce Banner/Hulk (Ruffalo) por fim alcança um equilíbrio entre suas duas personas (e esta é a versão digital mais convincente do personagem até hoje); o Homem-Formiga (Rudd) mal pode disfarçar sua empolgação por fazer parte do grupo; e Thor (Hemsworth)… bom, basicamente rouba o filme (e isto é tudo que direi). Já o Capitão América (Evans), sempre a bússola moral dos companheiros, agora tenta fazer alguma diferença em micro-escala (já que a macro se desintegrou), retornando aos grupos de apoio para tentar ajudar os civis em seu processo de luto e aceitação (e, claro, ele tampouco consegue evitar certo otimismo ao observar como a natureza parece estar reagindo bem à ausência de metade da humanidade).

O que nos traz a Thanos, o responsável por toda esta convulsão galáctica e que segue uma figura fascinante: megalomaníaco, mas sem planos de dominância universal, ele jamais se torna um vilão genérico com voz distorcida digitalmente que o faria soar como a maioria dos demais vilões do Universo Estendido (e também da DC); em vez disso, ele se recolhe a uma espécie de fazenda planetária para aproveitar a aposentadoria depois de passar toda a vida tentando - do seu ponto de vista - salvar a galáxia de si mesma. É interessante, por exemplo, como ele destrói as joias do infinito para evitar “ceder a tentações”, o que evidencia certo caráter - mesmo que os diretores não resistam a submetê-lo ao ridículo através de um ruído metálico desajeitado quando ele tenta estalar os dedos novamente no clímax da projeção (e que, ok, é uma escolha perfeita).

Inteligente ao empregar o recurso da viagem no tempo para revisitar momentos-chave de diversos filmes anteriores (o que, por si só, já evoca nostalgia nos fãs), Ultimato ainda traz uma solução elegante para o retorno de Gamora (Saldana) sem que isto soe como trapaça - e ainda com o bônus de recuperar a tensão sexual entre esta e Quill (Pratt). Além disso, reforçando o foco da narrativa sobre os personagens, estas viagens permitem reencontros relevantes dramaticamente entre Stark e o pai (Slattery), Thor e a mãe (Russo) e o Capitão e sua amada.

Mas, no fim das contas, Vingadores: Ultimato gira em torno essencialmente dos dois personagens que representam lados opostos (e complementares) da filosofia do grupo: Tony Stark e Steve Rogers - oferecendo um desfecho impecável para ambos. Por um lado, Stark percorreu um longo e intrigante arco que o levou do egocentrismo absoluto à capacidade de colocar outros à sua frente (e é brilhante como a mesma frase - “Eu sou o Homem de Ferro” - assume conotações completamente diferentes no filme original e aqui, já que lá expunha sua vaidade enquanto, agora, indica seu reconhecimento de que seu papel é servir ao mundo); por outro, o Capitão América, depois de sempre se sacrificar em prol do interesse coletivo, finalmente teve sua esperada e merecida recompensa.

E é revelador que, depois de 22 filmes recheados de ação e efeitos visuais, esta versão do Universo Espandido opte por encerrar sua longa narrativa com um momento intimista e de doçura - e que o Capitão decida mantê-lo para si, sem dividi-lo com os demais, é um testemunho não só de seu caráter, mas do respeito que os próprios realizadores têm para com um herói pelo qual eu confessadamente nutria imensa antipatia e passei a admirar nos últimos anos.

07 de Maio de 2019

* Se você considerou “spoiler” a sugestão de que a Marvel não mataria metade de seu elenco... bom, nem sei o que posso dizer a não ser que admiro sua ingenuidade.

Assista também aos videocasts sobre o filme (sem e com spoilers, respectivamente):

 

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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