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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
10/10/2019 11/10/2019 2 / 5 2 / 5
Distribuidora
Paramount Pictures

Projeto Gemini
Gemini Man

Dirigido por Ang Lee. Roteiro de Billy Ray, David Benioff e Darren Lemke. Com: Will Smith, Mary Elizabeth Winstead, Clive Owen, Douglas Hodge, Ralph Brown, Linda Emond, David Shae, Ilia Volok, E.J. Bonilla e Benedict Wong.

Quando o Cinema em Cena foi criado, em 1997, um dos primeiros projetos presentes em nossa seção de Notícias era Gemini Man, um thriller de ficção-científica que traria o veterano Clint Eastwood enfrentando uma versão mais jovem de si mesmo – uma escalação que seria alterada pouco depois com a substituição de Eastwood por Mel Gibson. Cancelada em função da impossibilidade tecnológica de trazer vida à história, a empreitada permaneceu mais de duas décadas na geladeira até finalmente chegar às telas sob o comando de Ang Lee e estrelada por Will Smith – e se menciono a trajetória da produção (algo que não costumo fazer em meus textos) é porque acredito, em parte, que a narrativa é enfraquecida pelo fato de Smith, se comparado aos demais, ser justamente o que menos parece ter mudado fisicamente ao longo dos anos, diminuindo um contraste visual que faria bem ao filme.


Escrito por Billy Ray, David Benioff e Darren Lemke a partir de um argumento concebido por estes dois últimos, Projeto Gemini tem início quando o assassino profissional Henry Brogan (Smith) completa sua mais recente missão ao eliminar um bioterrorista a mando de uma agência do governo norte-americano. Disposto a se aposentar, ele justifica a decisão afirmando que, depois de matar 72 pessoas, “isso começa a mexer com você, como se sua alma estivesse ferida” – uma observação involuntariamente hilária pela arbitrariedade do número (até 70 a coisa ia bem?). No entanto, depois que um velho colega o alerta sobre a verdadeira identidade do tal “bioterrorista”, sugerindo que seus superiores mentiram acerca da vítima, Brogan se torna alvo do inescrupuloso Clay Verris (Owen), que, ciente de suas habilidades, envia a única pessoa capaz de matá-lo: seu clone 28 anos mais jovem (uma versão digital de Smith). Acompanhado pela agente Danny Zakarweski (Winstead) e pelo velho amigo Baron (Wong), o protagonista decide descobrir por que passou a ser perseguido e qual é a natureza de seu novo algoz.

Pavoroso sempre que interrompe as sequências de ação para se entregar aos diálogos que oscilam entre o puramente expositivo e o clichê, o roteiro escrito a seis mãos se mostra incapaz de desenvolver a trama sem apelar para as mais tolas convenções: a personagem de Winstead, por exemplo, revela que o pai, um policial, foi morto “ao tentar impedir um assalto a banco enquanto estava de folga” (para ilustrar a dedicação da família à Lei), ao passo que o vilão, vejam só, tem como surpreendente propósito “criar uma raça de supersoldados”. Do mesmo modo, quando o protagonista revela ser alérgico a abelhas, o espectador já prevê o que virá adiante (embora não a dimensão de sua tolice), ao passo que para provar ao seu clone que dividem o mesmo DNA o herói aponta como ambos – juro – “sempre espirram quatro vezes” (o quê? Vocês não sabiam que existe um gene que determina este número?!). Para piorar, o epílogo (que não revelarei por mais previsível que seja) tenta amarrar todas as pontas através de uma rápida conversa em um pub e outra em um campus, presumindo erroneamente que nos importamos com o destino dos personagens secundários, que, mesmo vividos por figuras talentosas e carismáticas como Mary Elizabeth Winstead e Benedict Wong, jamais deixam de soar unidimensionais – e se Will Smith se sai um pouco melhor é apenas porque ao menos tem algum obstáculo emocional a enfrentar. (Já Clive Owen vive uma caricatura de vilão e só.)

Mas sejamos francos: se Projeto Gemini tem alguma relevância, isto se deve simplesmente à tecnologia empregada por Ang Lee, que rodou o longa num frame rate de 120 quadros por segundo (em oposição aos 24 tradicionais desde que o som chegou ao Cinema), que, somados ao 3D e aos 4K de resolução, prometeram expandir a fronteira do que a fotografia digital é capaz de produzir. Infelizmente, esta é uma promessa que resulta em mais problemas do que vantagens: ainda que a impressão de interpolação de movimento (ou motion smoothing) pareça ter diminuído com relação ao que ocorria em O Hobbit (algo que discuti ao escrever sobre Uma Jornada Inesperada), ela ainda se encontra presente e confere à fotografia uma sensação que corresponde mais ao vídeo do que ao Cinema e que, se traz mais impacto a certos aspectos da ação (os golpes e quedas parecem bem mais violentos), provoca um estranhamento difícil de superar. Sim, a redução no blurring (falta de definição quando há grandes movimentos no quadro) permite que vejamos as expressões dos atores mesmo durante lutas e perseguições, mas até isso tem seus pontos negativos, já que se torna mais difícil ocultar a presença dos dublês – o que fica óbvio na sequência da perseguição com motos.

Da mesma maneira, o hiper-realismo resultante do maior número de frames por segundo acaba por paradoxalmente ressaltar a artificialidade da produção, já que se torna fácil perceber a verdadeira natureza dos cenários e objetos de cena. Além disso, os planos abertos remetem mais a miniaturas do que a espaços reais, o que dificulta a suspensão da descrença por parte do público e que é fundamental para que mergulhemos na narrativa – algo que em Projeto Gemini é comprometido também pela origem totalmente digital da versão jovem de Will Smith (sim, ele foi criado em computador, não “rejuvenescido” como tem se tornado padrão) e que, mesmo representado um feito notável, ainda se mantém firme no “vale da estranheza” (uncanny valley).

A boa notícia é que ao menos Ang Lee evoluiu consideravelmente em sua abordagem da linguagem 3D: se em As Aventuras de Pi ele tropeçava ao manter a profundidade de campo reduzida (leia-se: apenas parte do quadro estava em foco) – algo que vai na direção contrária do que o 3D exige -, desta vez ele mantém a maior parte do campo em foco nos planos abertos, sendo especialmente revelador como opta por situar a casa do protagonista no meio de uma extensa planície desocupada que realça o efeito. E para não dizer que o restante do projeto é um fracasso completo, a já mencionada sequência envolvendo motocicletas é uma das melhores da carreira do cineasta tanto em sua coreografia quanto em sua intensidade. (Menos perdoável é ver os heróis se protegendo dos disparos de uma poderosa metralhadora enquanto se agacham atrás de uma fina parede de madeira.)

Desperdiçando a oportunidade de explorar conceitos filosóficos e morais interessantes por trás da premissa da história – um dos grandes atrativos da boa ficção-científica -, Projeto Gemini até tenta tocar no contraste entre natureza e criação (nature versus nurture), mas o faz de modo tão preguiçoso que se torna possível questionar se foi algo que os roteiristas acrescentaram no último momento apenas como obrigação.

Pena. Seria fascinante testemunhar uma discussão sobre como uma criação diferente poderia alterar o número de espirros de uma pessoa.

10 de Outubro de 2019

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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