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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
19/12/2019 04/12/2019 5 / 5 5 / 5
Distribuidora
Imovision

O Paraíso Deve Ser Aqui
It Must Be Heaven

Dirigido e roteirizado por Elia Suleiman. Com: Elia Suleiman, Tarik Kopty, Ali Suliman, Grégoire Colin, Vincent Maraval, Claire Dumas, Antoine Cholet, Stephen McHattie, Kwasi Songui, Nancy Grant e Gael García Bernal.

“A Comédia Humana”, anuncia a fachada de uma loja em Paris enquanto o diretor Elia Suleiman se posiciona à sua frente em certo ponto de O Paraíso Deve Ser Aqui, no qual interpreta a si mesmo em uma série de vinhetas que o transformam em uma mistura de Jacques Tati, Buster Keaton (duas comparações feitas com frequência) e, mais pontualmente, Woody Allen em sua contemplação do feminino com seus óculos característicos e as sobrancelhas levemente arqueadas em um misto de curiosidade, espanto e ansiedade.


Abrindo a projeção com uma sequência brilhante e hilária na qual um líder religioso comanda uma procissão até a porta da igreja apenas para ter sua entrada negada pelo vigia bêbado, sendo levado a abandonar a aura benevolente e a abraçar a raiva – o que por si só já dá origem a metáforas instigantes -, o filme é construído a partir de cenas que isoladas funcionariam como divertidos curtas-metragens, mas, juntas, compõem um belo mosaico do comportamento humano em suas melhores e piores facetas. Assim, não é difícil imaginar o público se identificando em algumas atitudes que, ridículas em sua superfície, apontam para uma mesquinhez subjacente reveladora – como, por exemplo, na cena em que as cadeiras em torno de uma fonte em Paris são disputadas por senhoras frágeis, executivos em horário de almoço e transeuntes em busca de um rápido descanso.

Já em outras passagens, Sulemain investiga o humor no desconforto através da rigidez da composição dos quadros, como ao enfocar dois irmãos judeus que, com olhar severo e movimentos quase coreografados, intimidam um comerciante – árabe - em Nazareth por servir um prato com álcool para a irmã (o que, como é fácil constatar, também já traz embutido na mise-en-scène um comentário político). De um ponto de vista formal, aliás, O Paraíso Deve Ser Aqui é um deleite, brincando com as convenções da linguagem para criar efeitos surpreendentes como aquele que surge quando, depois de retratar dois homens encarando a câmera consecutivamente (sugerindo, portanto, uma troca de olhares), o cineasta abre o quadro e vemos que na verdade estão de costas um para o outro e voltados para direções opostas enquanto discutem. Além disso, há outras ocasiões em que a graça nasce do inesperado: um ladrão atravessa o quadro perseguido por dois policiais usando patins enquanto, na direção contrária, uma velhinha em uma cadeira de rodas elétrica cruza a tela seguida por um cachorrinho, criando uma aparente cadeia de eventos espirituosa em sua aleatoriedade.

Mantendo a câmera estática na maior parte da projeção e compondo quadros cuja simetria beira o transtorno obsessivo-compulsivo, o realizador mantém a lógica de que tudo é visto através do ponto de vista do Suleiman-personagem, que, silencioso, observa o mundo com ar de encantamento, mas também de resignação. Aliás, é justamente por estipular seu olhar como guia que o diretor é bem-sucedido onde Abdellatif Kechiche afunda em Mektoub, já que assume o voyeurismo do protagonista como um elemento da narrativa na cena em que admira várias mulheres (que caminham como numa passarela) em vez de simplesmente usar a câmera para objetificar as atrizes/figurantes.

Contudo, o mais fascinante em O Paraíso Deve Ser Aqui é reparar como a natureza das gags muda dependendo do país no qual se passam: em Israel, há o vizinho invadindo e explorando seu quintal (Suleiman se identifica como palestino, vale lembrar) e agentes israelenses experimentando óculos escuros estilosos enquanto uma mulher vendada é vista no banco de trás da viatura; em Paris, uma ambulância do SAMU aborda um morador de rua para servi-lo como se fosse um delivery de comida e uma senhora surge carregando uma sacola de compras enquanto é escoltada por cinco policiais; e, em Nova York, praticamente todos os figurantes andam armados (incluindo crianças) e a polícia persegue uma ativista/artista que pintou a bandeira da Palestina no corpo seminu. Ok, os subtextos podem não ser dos mais sutis, mas isto não os torna menos interessantes.

Seria muito fácil abordar estes contrastes com um tom raivoso para escancarar como nossas liberdades e privilégios podem nos tornar cegos para o sofrimento de povos reprimidos, mas O Paraíso Deve Ser Aqui opta por apontá-los de modo afável, substituindo o confronto pela cutucada descontraída na consciência. O que não o impede de advogar o enfrentamento ao seu próprio modo, já que, ao ser barrado pela enésima vez em uma revista “aleatória” no aeroporto, Suleiman comete um pequeno ato de desobediência civil que se apresenta ainda mais catártico por assumir uma forma tão inesperada.

De volta à direção depois de dez anos de ausência, Elia Suleiman cria uma pequena obra-prima cuja força política pode não ser constatada de imediato sob sua estrutura inocente, mas que se anuncia sem disfarces assim que o filme chega ao fim e a dedicatória “para a Palestina” amarra seu lindo discurso.

Texto originalmente publicado como parte da cobertura do Festival de Cannes 2019

26 de Maio de 2019

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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