Dirigido por Robin Campillo. Roteiro de Laurent Cantet e Robin Campillo. Com: Eloy Pohu, Pierfrancesco Favino, Élodie Bouchez, Maksym Slivinskyi, Nathan Japy, Vladislav Holyk, Malou Khebizi, Philippe Petit, Charline Paul, Mounir Margoum.
A Quinzena dos Realizadores – seção paralela do Festival de Cannes que busca incluir obras que tenham abordagens mais inovadoras - abriu sua edição deste ano com Enzo, projeto iniciado pelo cineasta francês Laurent Cantet (diretor do belo Entre os Muros da Escola) e concluído, após sua morte precoce aos 63 anos em decorrência de um câncer, por Robin Campillo - uma circunstância singular que leva o filme a ter uma espécie de crédito duplo: "um filme de Laurent Cantet realizado por Robin Campillo".
Ambiciosamente denso em suas camadas temáticas, Enzo poderia facilmente soar sobrecarregado ou difuso ao tentar abordar simultaneamente questões como preconceito de classe, adolescência, sexualidade, imigração e conflitos geracionais; no entanto, a escolha específica destes temas e a maneira como são desenvolvidos acabam se complementando de forma notavelmente orgânica, convergindo para um estudo de personagem sensível e tocante que gira em torno do adolescente de 16 anos que dá título ao longa. Apresentado ao espectador enquanto trabalha na construção de uma casa – misturando cimento, levantando paredes e, como logo se torna evidente, realizando um péssimo trabalho -, Enzo desperta a frustração de seu supervisor, que decide levá-lo para casa a fim de conversar com seus pais. E aí vem a surpresa: a família do jovem ocupa uma residência ampla, luxuosa e com vista para o mar – e o choque diante da revelação não apenas afeta o supervisor, que rapidamente muda sua postura autoritária para uma de quase submissão diante da evidente diferença de classe social, mas também o espectador, que se vê confrontado com a primeira das muitas questões apresentadas pelo filme: por que um adolescente de família abastada insistiria em trabalhar como operário na construção civil?
Recebida com visível ressalva por seus pais, esta decisão de Enzo frustra especialmente Paolo, seu pai (vivido pelo sempre excelente Pierfrancesco Favino), ao passo que Marion, sua mãe (Bouchez), faz um esforço maior para compreendê-la. No entanto, quais são as razões por trás desta preocupação? Seria um temor pelo futuro financeiro do filho? Provavelmente não, considerando a crescente valorização econômica (não mencionada diretamente no filme, mas presente como subtexto) de trabalhos manuais na Europa contemporânea, especialmente quando contrastados com profissões potencialmente ameaçadas pela inteligência artificial. O que resta, então, é a constatação de que esta é uma inquietação que parece derivar, ao menos parcialmente, de um preconceito de classe, da percepção do trabalho manual como intrinsecamente inferior às ocupações intelectuais ou liberais como as exercidas pelos próprios pais do protagonista: ele, professor de matemática; ela, engenheira.
Cantet e Campillo evitam, contudo, a armadilha da simplificação maniqueísta: o pai de Enzo não é retratado como um tirano intolerante; ao contrário, tanto ele quanto a esposa são apresentados como figuras afetuosas que genuinamente tentam compreender a escolha do filho de abandonar a escola para trabalhar na construção. Marcada por gestos de carinho e preocupação constantes - mesmo quando rechaçados pela brusquidão adolescente do protagonista -, a dinâmica familiar inclui ainda a figura do irmão mais velho do personagem-título, que se prepara para ingressar na universidade, o que é visto com orgulho óbvio por Paolo e Marion. Porém, quando o rapaz leva alguns colegas para estudar e nadar na piscina da casa de sua família, inevitavelmente nos questionamos se os colegas operários de Enzo seriam recebidos com naturalidade similar – ou se presenciaríamos talvez algo semelhante à dinâmica retratada em Corra!: uma cordialidade excessiva por parte de seus pais que apenas mascararia o preconceito subjacente (“Eu votaria em Obama para um terceiro mandato”).
Justificando sua escolha profissional como um desejo de "fazer algo concreto", de construir estruturas duradouras (chegando a demonstrar certo orgulho de suas mãos machucadas pelo trabalho), Enzo exibe, na prática, uma reveladora apatia, uma falta generalizada de entusiasmo que sugere uma crise existencial mais ampla. Ou talvez, como o próprio filme sutilmente propõe, não se trate propriamente de uma crise, mas da condição adolescente em si – um estado permanente de turbulência emocional durante o qual problemas reais se misturam a angústias que apenas o tempo redimensionará. Interpretado pelo estreante Eloy Pohu, que oferece uma composição contida que captura com eficiência esta ambivalência adolescente, Enzo tem sua vida interior evocada por duas imagens poéticas que sintetizam seu estado emocional: em uma delas, ele deita à beira de um despenhadeiro, como que suspenso entre o mar e o céu; em outra, interrompe sua natação em um lago deslumbrante para contemplar uma montanha aparentemente intransponível – metáforas visuais para a angústia e a ansiedade que o consomem.
Outro elemento inevitável da experiência adolescente, claro, é seu despertar sexual, que aqui se manifesta através de sua crescente atração por Vlad, um colega de trabalho ucraniano (vivido pelo carismático – e também estreante – Maksym Slivinskyi): aparentando ser o primeiro reconhecimento claro de Enzo com relação ao seu desejo por outros homens, esta subtrama introduz ainda outra camada temática, já que Vlad, enfrentando a possibilidade de ser convocado para lutar na guerra em seu país, se mostra naturalmente relutante em retornar para um conflito que, como tantos outros, representa o desperdício de incontáveis vidas jovens em nome das ambições políticas de homens inescrupulosos.
Capturando também com precisão e delicadeza a ansiedade constante que a paternidade e a maternidade representam, Enzo ilustra esta condição em uma de suas sequências mais tocantes, quando mostra dois casais de meia-idade (os pais de Enzo e os de alguns amigos da família) observando seus filhos adolescentes nadando enquanto comentam sobre as crises que estes enfrentam, ilustrando como mesmo em momentos de aparente relaxamento estes pais permanecem consumidos pela preocupação com o bem-estar emocional e o futuro incerto de suas crias – uma ansiedade amplificada pela consciência de que, possivelmente pela primeira vez na história recente, as novas gerações enfrentarão maior dificuldade para alcançar ou superar o padrão de vida de seus pais.
Este último tema – a crescente precariedade econômica e existencial imposta às gerações mais jovens – emerge como uma das preocupações centrais do filme: em um mundo marcado por desigualdades cada vez mais profundas, crises climáticas que se traduzem em instabilidade financeira e os efeitos devastadores de mais de quatro décadas de políticas neoliberais, o desamparo de Enzo transcende sua experiência individual e acaba por refletir o que é tragicamente uma condição geracional.
Texto originalmente publicado como parte da cobertura do Festival de Cannes 2025
15 de Maio de 2025
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