28 ANOS
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Hamnet: A Vida Antes de Hamlet

★☆☆☆☆1/5 estrelas
12 min

Dirigido por Chloé Zhao. Roteiro de Chloé Zhao e Maggie O´Farrell. Com: Jessie Buckley, Paul Mescal, Jacobi Jupe, Olivia Lynes, Bodhi Rae Breathnach, Joe Alwyn, Justine Mitchell, David Wilmot, Noah Jupe e Emily Watson.

(Este texto contém spoilers.)

Se há 28 anos Shakespeare Apaixonado tentou imaginar o que inspirou o bardo a escrever não apenas Romeu e Julieta, mas Noite de Reis, em 2025 a cineasta chinesa Chloé Zhao decidiu conjecturar sobre a jornada emocional que gerou Hamlet, juntando-se à escritora Maggie O´Farrell para adaptar o livro publicado por esta e que aqui se transforma em algo que poderia facilmente ser intitulado Shakespeare Enlutado. Infelizmente, se o trabalho que rendeu o Oscar a Harvey Weinstein e a Gwyneth Paltrow já não representava uma obra memorável, aqui o resultado se torna ainda pior graças à mão pesada da diretora, que conduz o longa com a sutileza de alguém que busca acender uma vela de aniversário com um lança-chamas, tratando drama e histrionismo como sinônimos e tentando arrancar a fórceps as lágrimas do espectador.

Focando as atenções em Anne (aqui com a grafia “Agnes”) Hathaway, esposa de William Shakespeare, Hamnet preenche todas as lacunas históricas em sua biografia com visões românticas e metafísicas sobre a origem das mulheres de sua família, cuja intensa ligação com a Natureza sugere um elemento mágico que a torna capaz de fazer profecias (“terei dois filhos em meu leito de morte”), de conhecer uma pessoa ao tocá-la e de comungar com as plantas e os animais – algo salientado pelas imagens que a trazem aconchegada às largas raízes de uma árvore colossal e por sua insistência em dar à luz no meio da floresta. Trazendo espontaneidade à vida do companheiro mais jovem, Agnes não à toa é vista de modo recorrente em roupas de tons quentes (geralmente vermelho) que se opõem aos figurinos frios de William – e quando a vemos visitando a casa do sujeito pela primeira vez, a escuridão e a falta de cores da família Shakespeare são ressaltadas pela presença da garota, sendo tampouco acaso que o dramaturgo surja emoldurado por batentes em diversas ocasiões, refletindo sua existência reprimida.

Encaixando-se nos tipos que Paul Mescal vem se especializando em encarnar desde que estourou em Aftersun (homens cujos modos contidos mal disfarçam o turbilhão interior – vide também A História do Som), o William Shakespeare visto em Hamnet é um indivíduo cujas aspirações criativas sufocadas resultam em atos egoístas e imaturos, como no instante em que, bêbado e frustrado com a qualidade de suas penas de escrever, acorda a filha bebê ao gritar e atirar seus materiais contra a parede. Para piorar, o roteiro de Zhao e O´Farrell acidentalmente o apresenta como – vejam a ironia - um péssimo contador de histórias ao trazê-lo narrando o mito de Orfeu e Eurídice de modo pavoroso (o que não impede, claro, que Agnes reaja com fascinação absoluta, em um dos muitos instantes do longa no qual o espectador é condicionado a aceitar o que lhe é apresentado não de forma natural, mas como imposição narrativa; a narração de William é fantástica porque sua companheira age como se fosse).

Já em outras passagens, é a total falta de sutileza que prejudica o filme, que, por exemplo, polvilha easter eggs das peças do bardo ao longo da narrativa – isto é, caso o termo possa ser usado para indicar citações escancaradas como aquela envolvendo as três bruxas de Macbeth ou outra, completamente ilógica, que inclui uma citação de Hamlet (“O resto é silêncio”) no meio da já discutida narração de Orfeu e Eurídice. De modo similar, quando Shakespeare solta um “Ser ou não ser…” enquanto reflete à beira de um rio, o peso da ideação suicida é diluído pela inclusão da fala mais célebre da peça; quando deveríamos estar focados na dor do personagem, o longa opta por fazer uma referência espertinha que tira o espectador da narrativa. Além disso, seria possível apontar como o drama central de Hamnet só funciona se ignorarmos a cronologia dos textos de Shakespeare, já que após a morte do filho ele escreveu ao menos oito peças antes de Hamlet, incluindo as comédias Muito Barulho por Nada, Noite de Reis e Do Jeito que Você Gosta.(Seria possível, mas este é um pecadilho, uma liberdade criativa irrelevante, diante dos demais problemas do roteiro; achei apenas que deveria mencioná-lo.)

Empregando a óbvia e desgastada estratégia de salientar o drama através do volume das performances, Zhao leva a dupla central a encarnar Agnes e William como se estivesse se apresentando em um teatro de dez mil lugares com péssima acústica e no qual a plateia se concentra no fundo do balcão – o que não quer dizer que se trate de uma abordagem coerente, adotando tons teatrais, já que não se aplica ao resto do elenco. Além disso, se esta era a intenção da diretora, a decisão de empregar closes em longos planos sem cortes se mostra ilógica, já que não só quebra a mise en scène teatral como perde o equilíbrio com a intensidade das composições do casal, elevando-a ao exagero completo. Neste sentido, Jessie Buckley, uma atriz que admiro desde Estou Pensando em Acabar com Tudo e A Filha Perdida (além de sua participação em Chernobyl), acaba se tornando a mais afetada pela orientação da cineasta ao oferecer uma performance que – para citar Isto é Spinal Tap – está sempre no indicador 11 de altura. Observem, por exemplo, a passagem na qual Agnes vê os filhos brincando no quintal e reparem nas gargalhadas altas que esta solta ao acompanhar uma encenação que nada tem de hilária (sorrisos e mesmo um ou outro riso seriam compreensíveis diante da alegria das crianças, mas as gargalhadas cumprem – mais uma vez – a função de indicar para o espectador a alegria da família em vez de ser algo orgânico na cena). Pior: ao se negar a oportunidade de criar um arco, dosando o tom da atuação ao longo da projeção, Buckley já não tem para onde ir nos momentos realmente dramáticos, que se tornam apenas mais um instante de choro e gritos maximizados pelos quadros fechados.

Não deixa de ser curioso, portanto, que uma das performances mais eficazes parta do garotinho Jacobi Lupe, que expressa a sensibilidade e a gentileza do personagem-título sem empregar os tiques de interpretação tão comuns em atores-mirins mal dirigidos, que substituem a expressividade por carinhas engraçadinhas. Não que o roteiro tente utilizá-lo como algo além de uma desculpa para o drama; Hamnet existe para morrer e provocar as crises que culminarão na peça sobre o príncipe dinamarquês. Antes disso, porém, Zhao e O´Farrell embolam ainda mais as intenções da narrativa ao introduzirem outros elementos metafísicos que imaginam o espírito do garoto preso em um limbo cenográfico enquanto os pais lidam com a dor de sua morte (e não é possível sequer enxergar este espaço liminar como um símbolo, já que a cineasta se certifica de estabelecer o ponto de vista amedrontado e confuso do menino de modo independente das reações de William e Agnes).

Mas ainda pior do que a artificialidade deste recurso (e, sim, estou consciente de que é a quarta vez que menciono como as coisas pioram; é esse tipo de filme) é a solução encontrada pelos realizadores, que associam a montagem de Hamlet ao processo de luto de Shakespeare, substituindo negação, raiva, barganha, depressão e aceitação por escrita, ensaio, atuação, apresentação e abraço do público. Porque se Hamnet já é maniqueísta em seus dois primeiros atos, o clímax se torna um festival de artificialidade – começando pelo comportamento de Agnes, que se transforma na espectadora mais inconveniente da história do teatro ao aparentemente não compreender a natureza de uma performance teatral, chegando a questionar aos gritos o motivo do nome de seu filho ter sido mencionado no palco embora este desse título ao espetáculo. Como se não bastasse, Zhao revela sua desconfiança acerca da inteligência do público ao levar a mulher a explicar o processo psicológico/emocional/criativo adotado pelo marido ao exclamar “Ele trocou de lugar com o filho!” – uma fala que compete em idiotice com o “Você é o monstro” do Frankenstein de Guillermo del Toro.

Infelizmente (adivinhem?) tudo piora com a decisão do compositor Max Richter de reutilizar durante esta sequência a lindíssima “On the Nature of Daylight”, composta em 2004, já que, além de ter se tornado um clichê a esta altura, ela praticamente se tornou sinônimo de luto no Cinema, surgindo em Ilha do Medo, no episódio “Long, Long Time” de The Last of Us e, claro, em A Chegada – um filme infinitamente mais potente ao retratar a dor da perda de um filho (neste sentido, outros longas dignos de nota são Inverno de Sangue em Veneza, O Quarto do Filho, Hereditário, O Convite e Manchester à Beira-Mar, para citar apenas alguns exemplos).

Contando com ao menos uma imagem plasticamente memorável - o plano plongée que enfoca os braços do público estendidos na direção do ator que vive Hamlet (interpretado por Noah Jupe, irmão de Jacobi) -, esta sequência não consegue superar a tolice do conceito que a inspira, sugerindo a resolução de uma profunda crise emocional/psicológica essencialmente através de uma encenação, que, por algum processo misterioso, também tem o efeito de libertar o espírito do garotinho.

E como há sempre formas de piorar, Hamnet ainda comete o perigoso erro de romantizar o sofrimento e a depressão como forças criativas, ajudando a propagar a noção perniciosa de que a dor do artista é fundamental para a concepção de obras memoráveis.

Se isso for um fato, então este longa foi realizado por um grupo de artistas extremamente felizes.

11 de Fevereiro de 2026

Pablo Villaça
Avaliação do CríticoPablo Villaça
1.0
★☆☆☆☆

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