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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
01/01/1970 01/01/1970 4 / 5 / 5
Distribuidora

Branco Sai Preto Fica
Branco Sai Preto Fica

Dirigido por Adirley Queirós. Com: Marquim, Shokito, Dilmar Durães, DJ Jamaika.

Basta assistirmos aos dez primeiros minutos de Branco Sai Preto Fica, novo trabalho de Adirley Queirós, para percebermos que se trata de um filme singular: depois de acompanharmos Marquim descendo em sua cadeira de rodas rumo a uma espécie de porão no qual monitores de segurança dividem espaço com um tubo metálico contendo uma estranha luz e equipamento de transmissão de rádio, somos surpreendidos com um monólogo durante o qual o sujeito divide com seus ouvintes uma dolorosa lembrança da juventude que começa a esclarecer o incidente que tirou o movimento de suas pernas e o condenou àquela desconfortável cadeira.

Afinal, estamos vendo um relato real ou fantasioso? O longa é documental ou ficcional? Marquim, que divide o nome com seu “intérprete”, é um personagem ou um depoente? Ou uma recriação de um indivíduo real que, para confundir ainda mais as coisas, é vivido precisamente pelo sujeito que está sendo recriado, numa diluição completa da fronteira entre ator e personagem? Aos poucos, percebemos que Branco Sai Preto Fica se situa confortavelmente na fronteira entre invenção e realidade, pontualmente cruzando completamente para um lado ou outro – e o fato de compreendermos que há uma forte dose de veracidade por trás daquelas figuras torna-se importante ao permitir que continuemos a considerá-las verossímeis mesmo quando a trama ficcional do longa passa ao absurdo total.

Esta brincadeira narrativa envolvendo o documentário e a ficção não é nova, claro, remetendo aos primórdios do gênero documental, quando, em 1922, Robert Flaherty concebeu o clássico Nanook do Norte como uma encenação de fatos reais protagonizada por aqueles que os tinham vivido originalmente – e, décadas depois, o conceito de romance jornalístico inaugurado por Truman Capote em A Sangue Frio influenciaria direta ou indiretamente uma nova leva de produções, culminando nos recentes Um Episódio na Vida de um Catador de Ferro-Velho (da Bósnia e Herzegovina) e O Céu Sobre os Ombros (do brasileiro Sérgio Borges), ambos formidáveis. Assim, não demora até percebermos que “Markim”, “Shokito” e “DJ Jamaika” podem funcionar com ou sem aspas na narrativa, já que mesmo os elementos ficcionais que protagonizam são moldados por suas experiências e personalidades reais.

No princípio de tudo, claro, encontra-se um incidente trágico ocorrido durante um baile black na Ceilândia, na década de 80, quando policiais militares invadiram o chamado Quarentão durante uma festa e abordaram (que eufemismo) os presentes com gritos como o que dá título ao filme (pensem na conotação social desta ordem) e outros como “Putas prum lado; veados pro outro” (numa indicação das múltiplas camadas de preconceito que constituem a mentalidade daqueles que deveriam zelar pela paz). Intercaladas com fotos do baile tiradas no Quarentão e com os depoimentos em off de Marquim e Shokito – que apenas em um único momento são vistos concedendo uma entrevista diretamente para a câmera -, as sequências que parecem contar uma história de ficção acabam comentando as cicatrizes físicas e psicológicas deixadas por aquele acontecimento real, numa costura narrativa dinâmica e sempre interessante.

Aliás, mesmo quando a “ficção” toma conta da projeção, o espectador jamais consegue ignorar o peso da realidade, já que o corpo paralisado de Marquim e a perna amputada de Shokito parecem transformar aqueles homens em veteranos de guerra – mas, aqui, uma guerra travada não por razões territoriais num país distante, mas por desigualdades sociais e ocorridas em nossa própria nação. Assim, ao enfocar a dificuldade de Marquim para sair de seu carro e entrar em casa ou ao ouvir Shokito discutir como ainda sente a perna perdida, o diretor Adirley Queirós ilustra dolorosamente como um gesto cruel executado rapidamente por policiais resultou em um cotidiano eterno de dores e sofrimentos para suas vítimas inocentes.

Trata-se, claro, de uma história triste como tantas outras que lamentavelmente mancham as instituições policiais brasileiras, mas o que a torna especialmente notável é o fato de estar contida em outra, fantasiosa, na qual Marquim e Shokito conspiram para disparar uma bomba sonora nas autoridades, provocando uma catástrofe irreparável – e, assim, quando vemos os dois homens conversando sobre suas sequelas, percebemos que a trama ficcional desenvolvida pelo projeto não é gratuita, mas uma fantasia catártica de vingança daqueles indivíduos contra um sistema corrompido, preconceituoso e desigual que mutilou seus corpos e suas psiques. Não é à toa que a “bomba” concebida por Marquim é composta por gritos e músicas, já que, preferências estéticas e estilísticas à parte, a cultura das periferias historicamente usou gêneros como o hip-hop, o rap e o funk como uma forma artística de protesto, como um berro revoltado que buscava fugir dos limites da favela para levar o inconformismo daquelas pessoas oprimidas até os ouvidos de quem desconhecia aquela realidade. Da mesma forma, quando vemos o estranho Dimas Cravalanças (Durães) recebendo ordens do futuro para colher provas acerca da opressão econômica e social à qual os negros são submetidos, percebemos a constatação certeira do filme sobre a inevitabilidade do julgamento ao qual seremos submetidos pela História, que olhará de maneira implacável para nossa incapacidade de tratarmos nossos semelhantes como iguais.

Pois não tratamos – e a recusa de muitos em aceitar o fato de que vivemos ainda num país tomado pelo preconceito é algo alarmante que adia o instante do julgamento histórico, mas também garante que será ainda mais impiedoso. Não é à toa que no universo ficcional de Branco Sai Preto Fica os cidadãos da periferia são alertados constantemente de que só podem entrar em Brasília com passaportes especiais, podendo ser abordados pela “polícia do Bem-Estar Social” a qualquer momento – uma fabulação que tristemente é apenas um leve exagero da realidade à qual as minorias são submetidas em nosso dia-a-dia.

E, com isso, o que o excelente filme de Queirós parece apontar é que, no final das contas, não devemos jamais nos esquecer de que o que o homem branco consideraria uma “distopia” é algo que os pobres e negros do mundo chamam simplesmente de “cotidiano”.

2 de Maio de 2014

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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