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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
06/06/2019 07/06/2019 2 / 5 2 / 5
Distribuidora
Fox

X-Men: Fênix Negra
Dark Phoenix

Dirigido e roteirizado por Simon Kinberg. Com: James McAvoy, Sophie Turner, Michael Fassbender, Jennifer Lawrence, Nicholas Hoult, Tye Sheridan, Alexandra Shipp, Evan Peters, Kodi Smit-McPhee, Scott Shepherd, Ato Essandoh, Brian d’Arcy James, Halston Sage, Summer Fontana e Jessica Chastain.

Ainda mais antiga que a franquia estrelada pelos Vingadores concluída (temporariamente) este ano, a série X-Men teve início em 2000 e, trazendo um subtexto riquíssimo sobre intolerância e preconceito, construiu um universo próprio ao longo dos quase 20 anos seguintes, se dando ao luxo, inclusive, de apagar linhas do tempo já exploradas e de combinar os elencos das versões originais e de suas prequels nos mesmos projetos – tudo isso enquanto fazia pequenos desvios para filmes-solo estrelados por figuras como Wolverine e Deadpool. Nem sempre sutil, mas sempre ambiciosa, a série me encantou desde o princípio apesar dos tropeços ocasionais, pois havia sempre a promessa de um retorno à boa forma (o pior de todos, Origens: Wolverine, foi seguido por um dos melhores, Primeira Classe, por exemplo). Infelizmente, depois de dois capítulos medíocres seguidos, Apocalipse e agora este Fênix Negra, não posso lamentar de fato que outra era de super-heróis tenha chegado ao fim.

Óbvia desde o primeiro segundo ao abrir a projeção com uma narração em off que faz perguntas como “Quem somos nós?”, Fênix Negra parte em seguida para uma daquelas cenas em que vemos uma família viajando em seu carro e que já sabemos que culminarão em um acidente envolvendo câmera lenta, estilhaços de vidro tomando conta da tela e um trauma que determinará o caminho de um personagem (aliás, há poucos meses vimos algo idêntico em Shazam!). A partir daí, seguimos a jovem Jean Grey (Turner) que, depois de outro incidente – agora envolvendo uma “força cósmica pura e inimaginável” (sim, é tudo que saberemos a respeito) -, vê seus poderes se tornarem cada vez mais intensos e fora de controle, despertando a atenção da misteriosa Vuk (Chastain), líder de uma raça de alienígenas metamorfos cujo planeta foi destruído e acabei de me dar conta de que isso também ocorria no recente Capitã Marvel e estou tentando pensar se há algo de original neste novo longa.

Aliás, dificilmente haveria, já que, a rigor, esta prequel-continuação é também uma refilmagem de X-Men 3 – O Confronto Final, sendo adaptada a partir da mesma HQ e dirigida por Simon Kinberg, ninguém menos do que o roteirista daquela obra e que aqui não só repete o esforço como ainda estreia na direção depois de anos produzindo e roteirizando os capítulos da franquia. Isto traz seus próprios problemas, já que ele se revela um diretor menos do que adequado, mas os equívocos também se encontram na adaptação do material em si, já que esta torna os personagens esquemáticos, convertendo-os em meras peças para avançar a trama – e quando Kinberg tenta adicionar alguma personalidade às composições, os resultados são frágeis: em certo instante, por exemplo, Mística (Lawrence) comenta com Xavier (McAvoy) que “as mulheres estão sempre salvando os homens; talvez devêssemos nos chamar X-Woman” e a fala, que deveria soar empoderadora, parece apenas condescendente e cínica no propósito de provar para o público a desconstrução do realizador.

Jennifer Lawrence, diga-se de passagem, aqui denota um tédio ainda maior do que aquele visto em Apocalipse, como se mal pudesse esperar para se ver livre da personagem – e a insistência dos produtores (ou da própria atriz) em mantê-la sem maquiagem na maior parte do tempo é uma traição à trajetória da mutante e ao seu processo de autoaceitação (o mesmo se aplica ao Fera de Nicholas Hoult, que ao menos traz alguma intensidade à sua performance). Já Tye Sheridan e Alexandra Shipp, como Ciclope e Tempestade, mal têm o que fazer, ao passo que Mercúrio (Peters), sempre um dos destaques dos longas anteriores, desta vez é relegado a figurante de luxo, o que é um desperdício tremendo. Enquanto isso, Michael Fassbender faz o que pode com o pouco oferecido ao seu Magneto, sendo sua grande virtude a habilidade de nos convencer, através de seus gestos, de que de fato consegue manipular objetos de metal (isso me lembrou um pouco de como Christopher Reeve era instrumental ao vender com sua postura a ideia de que um homem podia voar em Superman). Por outro lado, toda a sua dinâmica com Xavier, com os obrigatórios “old friend” e trocas de lado, já se tornou rotina pura, ainda apresentando resquícios de vida graças apenas à química com o sempre ótimo James McAvoy.

Menos sorte tem Jessica Chastain, que, por mais talentosa que seja, nada pode fazer com o esboço mal elaborado de personagem que tem que viver (e só vi que esta se chamava Vuk ao ler os créditos finais). Inexpressiva por uma escolha de composição – que respeito mesmo julgando equivocada por tornar a vilã ainda mais genérica -, Chastain peca também por insistir em pausas de efeito em boa parte dos diálogos, conseguindo só que antecipemos o que virá a seguir: “A questão não é quem sou eu... mas quem é você”; “Nenhum de nós tem medo do seu poder... Você tem?” e por aí afora. (Isto quando não é forçada a recitar chavões como “Você é mais forte do que imagina”.) Para finalizar, Sophie Turner, uma das melhores revelações de Apocalipse, é sabotada por um arco dramático óbvio cujo desfecho fica claro desde a primeira vez em que diz ao namorado um clichê “Sempre voltarei para você”. O mais grave, contudo, é constatar como todo o problema é essencialmente solucionado (e não leia o restante deste parágrafo caso seja spoilerfóbico) através de uma interação telepática com Xavier que não só poderia ter acontecido bem antes como ainda se resume a um “ah, se você tinha boas intenções está tudo perdoado”.

Além disso, para um filme que fez tanta questão de se apresentar como aliado feminista, é no mínimo irônico que o conflito-chave da personagem-título seja a troca de uma figura paterna por outra e a necessidade de se sentir amparada por esta.

Mas Fênix Negra tem suas virtudes: como de hábito, acompanhar as interações e confrontos entre os poderes específicos de cada mutante é divertido e, de um ponto de vista de design de produção, a pequena comunidade fundada por Magneto (referência óbvia a Israel) é coerente com a lógica deste universo, já que todas as habitações parecem envolver metal, sugerindo o papel do líder em sua construção. Já as brincadeiras feitas nos capítulos passados com suas décadas específicas (60, 70 e 80) aqui dão lugar a uma visão burocrática e desinteressante dos anos 90, o que é uma pena.

Confuso e consequentemente aborrecido na maioria de suas sequências de ação, que, concebidas de maneira desordenada em cortes rápidos, movimentos de câmera caóticos e planos fechados e escuros, expõem o despreparo de Simon Kinberg como diretor, Fênix Negra ainda apela para a mais do que batida iconografia cristã ao enfocar a mutante atada a uma cama com os braços abertos, como num crucifixo, sugerindo sua natureza de mártir em nome da humanidade. E, afinal, quantos alienígenas compõem o grupo liderado por Vuk? Dez? Cinquenta? Trezentos? Ou quantos forem necessários em cada cena? (A resposta correta é esta última.)

E já que estou apontando incongruências, confesso ter dificuldades para aceitar como, ambientado em 1992, o filme sugere que James McAvoy e Michael Fassbender estão a apenas oito anos de se transformar em Patrick Stewart e Ian McKellen – uma reclamação que poderia soar tola caso já não tivéssemos visto os quatro atores dividindo a mesma linha temporal e estabelecendo esta continuidade.

Desfecho anticlimático para uma saga de 19 anos, Fênix Negra não chega a ser ruim como Origens: Wolverine – mas que este seja o maior elogio a ser feito ao seu respeito é triste por si só.

05 de Junho de 2019

Críticas dos longas anteriores da série: X-Men; X-Men 2; X-Men 3: O Confronto Final; X-Men Origens: Wolverine; X-Men: Primeira Classe; Wolverine: Imortal; X-Men: Dias de um Futuro Esquecido; Deadpool; X-Men: Apocalipse e Logan.

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

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