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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
13/03/2014 01/01/1970 4 / 5 4 / 5
Distribuidora
Califórnia Filmes

Ninfomaníaca - Parte 2
Nymphomaniac: Vol. II

Dirigido por Lars von Trier. Com: Charlotte Gainsbourg, Stellan Skarsgård, Willem Dafoe, Jamie Bell, Udo Kier, Shia LaBeouf, Stacy Martin, Mia Goth, Michael Pas, Jean-Marc Barr, Ananya Berg, Christian Slater.

Ao escrever sobre o primeiro volume de Ninfomaníaca, apontei que a divisão do filme em duas partes trazia problemas estruturais e temáticos: os primeiros surgiam a partir de reflexões que só seriam complementadas neste Volume II; os últimos, em função da percepção equivocada que provocava no espectador acerca das posições de Lars von Trier acerca de sua própria protagonista. Assim, se por um lado esta segunda parte soa mais irregular e contém passagens menos interessantes que aquelas vistas na anterior, por outro tem a oportunidade de deixar clara a postura essencialmente feminista do cineasta – que, como comentei no texto sobre o primeiro volume, poderia ser confundida exatamente com seu oposto: um julgamento misógino da sexualidade feminina.

Iniciando a narrativa com a perda da libido que tanto atormentava Joe (a ambiguidade da frase anterior é proposital: a libido a atormentava, mas também sua ausência), este Volume II traz a protagonista frustrada diante de sua incapacidade de experimentar o prazer, o que a leva a agredir a própria genitália e a obrigar o marido Jerôme (LaBeouf) a tamanho esforço para agradá-la que, a partir de certo ponto, ele mesmo sugere que ela vá para a cama com outros homens – o que não deixa de representar uma tortura para o sujeito. A partir daí, acompanhamos a moça (vivida na juventude por Stacy Martin e na idade adulta por Charlotte Gainsbourg) enquanto se torna mãe, descobre uma fuga através do masoquismo e se dedica a uma jovem com passado problemático (Goth).

Todas estas passagens, claros, são interligadas pela narração feita ao solitário Seligman (Skarsgård), que havia resgatado a garota no início do longa anterior e que se revela o ouvinte perfeito justamente por demonstrar uma completa falta de interesse por sexo (ele se declara assexual, embora exiba uma curiosidade intelectual pelo ato em si). Assim, sem ter a visão comprometida por preconceitos tolos, Seligman julga Joe não por seu comportamento ou interesse sexual, mas por suas ações – e, considerando a complexidade psicológica da protagonista (mérito do roteiro de von Trier e das composições de Martin e Gainsbourg), um veredito definitivo se torna quase impossível.

É curioso, por exemplo, perceber como Joe se orgulha por distanciar-se de um grupo de mulheres que, viciadas em sexo, se reúne em sessões inspiradas nos Alcoólatras Anônimos – e este orgulho surge justamente por seu diagnóstico de que elas se penitenciavam pelo interesse excessivo por sexo apenas porque o usavam como forma de autovalidação, como tratamento para uma insegurança em relação ao próprio valor, ao passo que Joe se entrega ao sexo pelo prazer que este desperta. O problema é que em apenas um momento dos dois volumes de Ninfomaníaca Joe parece realmente extrair prazer do próprio corpo (quando, aos 12 anos, tem um orgasmo espontâneo), já que, no restante do tempo, ela lembra justamente alguém disposto a fugir de si mesmo através da excitação sexual – e não é à toa que, em duas ou três cenas deste Volume II, ela repete a frase “Preencha todos os meus buracos”, numa súplica que soa mais como pedido de socorro do que como convite ao prazer.

Da mesma maneira, é impossível não considerar a extrema irresponsabilidade da protagonista como mãe, quando, agindo como uma dependente química em busca desesperada por um novo “barato”, deixa o filho pequeno sozinho em casa enquanto vai se encontrar com um traficante de sua droga de escolha: o orgasmo. (E que resulta numa sequência bastante similar a outra de Anticristo.) Ainda assim, ela claramente se penitencia por suas falhas e se pune quase na mesma proporção com que recompensa sua libido, arriscando-se também ao se entregar a completos estranhos num impulso que combina algo de autodestrutivo à sua incontida pulsão sexual (e a cena que envolve um ménage num quarto de hotel resulta hilária não só pela situação absurda, mas pela maneira divertida com que von Trier emoldura Joe com dois pênis eretos).

No entanto, assim como ocorria no Volume I, as divagações de Seligman despertadas pela história de Joe surgem como atrativos à parte, refletindo a visão de Lars von Trier (e sua notável erudição) acerca de vários tópicos, indo de citações a Thomas Mann a anedotas sobre a criação do nó prússico – e, em certo momento, ele chega a incluir um instigante debate acerca do politicamente correto, argumentando que a estigmatização de certas palavras serve apenas como fuga, removendo termos do vocabulário em vez de lidar com os problemas reais por eles representados, rebatendo a própria tese com a observação igualmente válida de que ao menos isto se mostra uma forma de respeitar a sensibilidade das minorias rotuladas pelos tais termos. (Os personagens envolvidos na discussão acabam “concordando em discordar”, provavelmente refletindo a ambiguidade do próprio realizador acerca do tema.) Além disso, a conversa entre Joe e Seligman mais uma vez funciona pontualmente como comentário metalinguístico, já que a moça chega a comentar, após certa passagem, que aquela “foi a digressão mais fraca” feita pelo outro – e, consequentemente, pelo próprio filme – e, mais uma vez, é possível enxergar ali a insegurança criativa do próprio von Trier diante da estrutura do longa.

Extraindo belas performances de todo o elenco (que inclui quase pontas de Udo Kier e Willem Dafoe), este Volume II traz Charlotte Gainsbourg em uma entrega admirável a uma personagem depressiva, autodestrutiva, mas ainda assim surpreendentemente forte. E se a jovem Mia Goth impressiona já em sua estreia no Cinema ao conferir vulnerabilidade e ameaça à complexa P., Jamie Bell se destaca ao transformar o misterioso K em um sujeito cujo sadismo se manifesta de maneira estranhamente metódica e fria.

Prejudicado por um desfecho que, em sua busca por impacto e significação, surge apenas arbitrário, este Volume II ao menos consegue apresentar com propriedade a tese principal do projeto como um todo: a de que a sexualidade feminina é estigmatizada e condenada simplesmente por ser... feminina. Uma mulher abraçando o próprio desejo, em vez de ser celebrada (ou apenas deixada em paz), é imediatamente rotulada por sua humanidade e por buscar o prazer – uma visão arcaica que, ainda dominante, acaba sendo responsável por sufocar até mesmo alguém como Joe, que, por se aceitar, julgava-se imune à estupidez machista que insiste em reger nossas relações em pleno século 21.

E que um filme sobre o desejo feminino gere tanta polêmica em 2014 é um triste sinal de nosso insistente atraso moral.

15 de Março de 2014

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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