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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
21/02/2014 01/01/1970 5 / 5 5 / 5
Distribuidora
Disney

12 Anos de Escravidão
12 Years a Slave

Dirigido por Steve McQueen. Com: Chiwetel Ejiofor, Lupita Nyong’o, Michael Fassbender, Adepero Oduye, Paul Giamatti, Brad Pitt, Benedict Cumberbatch, Paul Dano, Sarah Paulson, Quvenzhané Wallis, Kelsey Scott, Scoot McNairy, Garret Dillahunt e Alfre Woodard.

Em um dos episódios da web série Comedians in Cars Getting Coffee”, Jerry Seinfeld conversa com um amigo humorista em seu carro até que são parados pela polícia por excesso de velocidade. Neste instante, o convidado, visivelmente alarmado, confessa: “Se eu não estivesse com você, estaria apavorado” – isto apesar de ser rico e famoso. Agora adivinhe quem era o sujeito: Louis C.K., Michael Richards ou Chris Rock? Acertou quem apontou o último, cuja única diferença para os demais reside no fato de ser negro. E se até um comediante multimilionário e célebre tem medo ao ser abordado pela polícia apenas por ser negro, imaginem o que ocorre com o negro anônimo que é parado numa esquina escura pelas autoridades?

Embora estejamos em 2014 e a escravidão tenha sido oficialmente abolida há 126 anos no Brasil, basta visitarmos o perfil @NãoSouRacista no Twitter para descobrirmos que o comércio de seres humanos pode ter sido proibido no país, mas o preconceito continua forte e presente em nossa sociedade. A diferença é que, como brancos confortavelmente nascidos num berço ausente de dedos apontados e acusadores (mesmo quando pobres), não sentimos de fato o que nossos irmãos de pele escura sentem no cotidiano – e quando vemos, em 12 Anos de Escravidão, um encontro entre negros e índios, ambos pertencentes a grupos torturados e explorados pelos brancos dominadores, percebemos que historicamente temos mil motivos para nos envergonharmos da trajetória e do caráter de nossos antepassados caucasianos. Sim, se tivéssemos sido os dominados talvez experimentássemos brutalidades similares, mas o fato é que não fomos e que, como dominadores, adotamos práticas absolutamente repugnantes que deixaram sequelas que permanecem até hoje.

Inspirado na biografia de Solomon Northup e roteirizado por John Ridley (Reviravolta), 12 Anos de Escravidão aborda justamente a vida de uma das milhões de vítimas da escravidão – um homem que, nascido livre em Nova York, acabou sequestrado e enviado para o sul dos Estados Unidos na condição de escravo. Passando de um “mestre” a outro durante os anos seguintes, Northup (Ejiofor), rebatizado como Platt por seus “donos”, experimenta a dura realidade enfrentada pelos negros no sul escravagista que seria um dos motivos por trás da Guerra Civil norte-americana – e, temendo que até mesmo o fato de ser alfabetizado possa condená-lo à morte, busca sobreviver através da subserviência e da mais pura resistência física.

Surgindo como a antítese de uma fantasia de vingança como Django Livre, o filme dirigido por Steve McQueen jamais recorre ao escapismo para suavizar a história que busca contar – e por melhor que sejam as narrativas de Tarantino (e são excepcionais), Hitler não foi assassinado num cinema e Django e a esposa teriam sido caçados e linchados em questão de horas após o confronto que encerra o filme que protagonizam. Assim, McQueen mantém os estalos de chicote ressoando pelos campos de algodão mesmo enquanto os escravos parecem trabalhar tranquilamente, cortando qualquer ilusão de atmosfera idílica que pudéssemos ter diante das belas paisagens presentes no filme.

Da mesma maneira, 12 Anos de Escravidão é cruel ao estabelecer que o conceito de compaixão é algo extremamente relativo quando partindo dos “mestres” que dominavam aqueles homens e mulheres. Em certo instante, por exemplo, a esposa do (relativamente) gentil Mestre Ford (Cumberbatch) se apieda de uma escrava que foi separada dos filhos e, num tom caridoso, consola: “Você logo se esquecerá dos seus filhos” – uma afirmativa que só se torna possível em função da percepção (consciente ou não) de que aquela mãe em dor é uma criatura de espécie diferente e inferior e que, só por isso, conseguiria se libertar do sofrimento da separação de suas crias. Algo similar ocorre com o próprio Ford, que, mesmo tentando tratar seus escravos com alguma dignidade, ainda assim é dono de vários seres humanos – e mesmo que lamente a sorte de Solomon, suas dívidas vêm primeiro que a vida do outro, podendo até mesmo salvar o escravo desde que isto não se transforme num inconveniente. Com o bônus, claro, de levá-lo a se sentir nobre e caridoso.

Quantos, aliás, não agem assim ainda hoje, escrevendo tweets e posts revoltados a partir dos confortos de suas casas, mas jamais compreendendo exatamente o que significa ser revistado por policiais militares apenas por andar com alguns amigos igualmente negros pela rua? Neste aspecto, os planos-detalhe em 12 Anos de Escravidão que trazem larvas devorando folhas secas podem ser encarados como uma metáfora dolorosa da exploração incontida dos brancos ao longo de séculos e séculos nos quais destruíram – destruímos - famílias, vidas, culturas e povos inteiros em uma sanha maníaca de dominação e busca por riquezas.

O filme de McQueen, diga-se de passagem, é repleto de imagens evocativas como esta – começando já nos minutos iniciais, quando vemos Solomon estimulando sexualmente uma escrava anônima (numa clara tentativa de fuga momentânea) em um quadro de composição horizontal e de cores frias que, logo depois, é substituído por outro vertical e com paleta quente no qual surge, feliz, ao lado da esposa em um flashback, numa sugestão sutil de sua percepção sobre a própria situação. Já em outro momento, uma carta é queimada e o longa nos traz a evocativa imagem das chamas e do papel se transformando em cinzas juntamente com as esperanças que nele haviam sido depositadas. Por outro lado, o cineasta não tem medo de contrapor, às belas locações que emprega, momentos de crueza como aqueles nos quais a nudez dos escravos é exposta enquanto estes são manipulados como objetos pelo personagem de Paul Giamatti ou aquele no qual são obrigados a dançar na madrugada a fim de divertir o “mestre” vivido por Michael Fassbender.

Porém, o filme não se interessa apenas pelo cotidiano de crueldades vivido pelos escravos, mas também pela complexa natureza psicológica do processo de escravidão em si: ao se descobrir acorrentado, por exemplo, Solomon defende sua natureza de homem livre – mas assim que um branco (inferior em estatura, vale apontar) se aproxima enquanto o confronta, o sujeito se mantém em silêncio, mostrando-se incapaz de sequer tentar se impor de alguma forma. O motivo é claro: embora nascido e criado fora da escravidão, Solomon sabe viver numa sociedade na qual é visto como inferior e na qual protestar lhe trará apenas mais problemas – e, assim, é natural que, quando livre, um de seus companheiros sequer tente ajudar os demais. Neste sentido, a performance de Chiwetel Ejiofor é admirável por sugerir a postura contraditória de um homem que se mantém digno mesmo (ou justamente?) ao ocultar sua erudição por temor e ao humilhar-se para manter-se vivo.

Enquanto isso, a estreante Lupita Nyong’o sugere um mundo de dores ao encarnar uma dose de dupla de opressão: negra e mulher, a garota é duplamente inferiorizada. No entanto, percebendo-se favorecida pela atração que exerce sobre o “dono”, ela adota a posição pragmática de submeter-se para viver, resultando numa performance sofrida que expõe os limites de uma mulher que talvez prefira morrer a apenas sobreviver graças aos “favores” de um “mestre” sádico e imprevisível – e uma das virtudes da performance de Fassbender reside em seu esforço para evitar transformar Epps em uma caricatura, já que o sujeito parece realmente crer estar apenas exercendo um papel outorgado pela Bíblia e por Deus.

Contando com uma trilha belíssima de Hans Zimmer, que substitui a tragédia pela melancolia em seus temas, 12 Anos de Escravidão é tocante, também, ao trazer vários momentos nos quais acompanhamos aqueles seres sofridos entregues à cantoria que eventualmente se transformaria no lindo blues (que, não à toa, é uma palavra usada para descrever tristeza). Além disso, McQueen não descarta os longos planos que marcam sua filmografia, criando ao menos dois inesquecíveis momentos nos quais emprega a ausência de cortes para trazer maior realidade e angústia ao filme: aquele no qual vemos Solomon preso pelo pescoço e lutando para se manter em pé durante 80 intermináveis segundos e, claro, aquele que traz um açoitamento brutal em cinco minutos de indizível horror.

Mas a maior virtude do longa é realmente levar o espectador a confrontar o mundo aterrorizante ao qual submetíamos indivíduos que continham mais melanina em sua pele do que o que julgávamos aceitável. Um terror que ainda hoje sobrevive, mesmo que mais sutil e presente nas ações e ideias até mesmo de pessoas bem intencionadas que não percebem como as cotas raciais são um passo mínimo de reparação pelo que fizemos e como, na realidade, personagens de quadrinhos originalmente desenhados por seus autores caucasianos como sendo brancos podem, sem problema algum, ser vividos por atores negros.

Afinal, o que nos torna racistas não é o preconceito que exercemos de maneira ativa, mas a intolerância contra as mais diversas minorias que simplesmente nos mostramos incapazes de perceber.

21 de Fevereiro de 2014

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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