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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
31/08/2012 01/01/1970 3 / 5 / 5
Distribuidora
Imagem Filmes

Os Mercenários 2
The Expendables 2

Dirigido por Simon West. Com: Sylvester Stallone, Jason Statham, Terry Crews, Dolph Lundgren, Jean-Claude Van Damme, Randy Couture, Jet Li, Scott Adkins, Liam Hemsworth, Nan Yu, Chuck Norris, Bruce Willis e Arnold Schwarzenegger.

Os Mercenários 2 é um filme sobre Cinema. Mais especificamente, sobre o Cinema de ação da década de 80 que alçou à fama figuras como Stallone, Schwarzenegger, Willis, Norris, Lundgren, Van Damme e outros astros que, agora não tão requisitados, se unem aqui para tomar as telas de volta na base da porrada. Neste sentido, Os Mercenários 2 é quase tão metalinguístico quanto Pânico e O Último Grande Herói, não hesitando sequer em trazer um vilão cujo nome é... Vilain – e considerando o nível de testosterona e obviedade do roteiro, chega a ser uma demonstração de autodisciplina o fato de a única personagem feminina, uma agente chinesa, não ter sido também batizada com um nome que descreve sua função na trama segundo os roteiristas machões e frequentemente vulgares: Shota, por exemplo.


Escrito por Stallone e Richard Wenk (Assassino a Preço Fixo), o roteiro começa com uma ação dos mercenários do título na poderosíssima nação do Nepal – algo que indica que o intérprete de Rambo continua a demonstrar a mesma falta de noção sobre política internacional que exibira em Rocky 4 e Rambo 3. Durões a ponto de já trazerem frases de efeito pintadas em seus veículos (provavelmente para economizar tempo de dizê-las), os heróis não perdem tempo com conversinhas, dando início às explosões e aos headshots que, produzidos através de efeitos digitais artificiais, já expõem o caráter de videogame da narrativa. A partir daí, o grupo recebe a missão de resgatar um dispositivo em um avião despedaçado e acabam encontrando Vilain (Van Damme), que rouba o objeto e mata um integrante do grupo (e a identidade do desafortunado já fica evidente desde as primeiras cenas, quando começa a remoer histórias do passado e a manifestar o desejo de se aposentar – sinais claros de morte iminente).

Recheado de diálogos atrozes (a exceção fica por conta daquele que sucede a morte de um sujeito que é despedaçado pelas metralhadoras dos heróis), o roteiro se diverte imensamente com a oportunidade de reunir figuras icônicas das telas e levá-las a dizer os bordões umas das outras – e, assim, Bruce Willis surge dizendo “I’ll be back!”, Schwarzenegger murmura um tímido “Yipikaye!” e Stallone diz algo que soa como “Mhjumhhaodjdoaom!’. Isto, porém, é um pecadilho perto da cronologia absurda da trama, que em pelo menos dois momentos diferentes traz Stallone surgindo de repente no comando de um avião que deveria estar a uma distância considerável (na segunda ocasião, a pelo menos sete horas de viagem).

Tentando fazer piada através de caricaturas misóginas (com exceção de Shot... digo, Maggie, as mulheres atiram mal, dependem dos homens para tudo e aparentemente se interessam apenas pela herança que receberão), Os Mercenários 2 também retrata os heróis como verdadeiros psicopatas, culminando nas piadas que fazem quando o protagonista surge carregando a cabeça de um inimigo – e nem Rambo, no auge de sua loucura, seria capaz de transportar pedaços de corpos apenas para celebrar sua vitória. Por outro lado, é isto que esperamos de uma produção que traz, como símbolo, uma caveira de cristal cercada por todo tipo de arma, havendo algo de divertido nos excessos dos personagens (excessos que, convenhamos, amenizam apropriadamente o choque justamente através do absurdo).

Mas se estes elementos irregulares e ocasionalmente problemáticos já se encontravam no filme anterior, ao menos esta continuação conta com a imensa vantagem de trazer sequências de ação compreensíveis, já que o diretor Simon West evita os cortes histéricos e as movimentações de câmera epiléticas que Stallone empregara no original (e para que eu elogie o estilo “contido” de West, imaginem como a direção de seu antecessor era problemática). Assim, se antes mal visualizávamos o que estava acontecendo, desta vez as tolices protagonizadas pelo grupo ficam mais claras e, consequentemente, divertidas – e confesso que achei graça até da obviedade do plano que traz a legenda “Paris, França” enquanto vemos a torre Eiffel ao fundo.

No entanto, não restam dúvidas de que o que separa Os Mercenários 2 de, digamos, 99% das coisas lançadas diretamente em home vídeo é mesmo seu elenco – e se juntássemos toda a musculatura presente na produção, poderíamos erguer toda a Internet sem muito esforço. Além disso, os roteiristas merecem pontos por se divertirem com as personas dos intérpretes: assim, o brucutu vivido por Dolph Lundgren revela ter mestrado em Engenharia Química (exatamente como, pasmem!, o ex-Drago) e Chuck Norris surge em cena contando uma piada de... Chuck Norris (isto para não mencionar o fato de que ele aparentemente tem o poder de aparecer do nada sempre que sua presença é necessária, como uma autêntica fada-madrinha barbuda e carniceira). E se a esperadíssima reunião de Stallone, Schwarzenegger e Willis representou uma das grandes decepções do longa anterior, desta vez o trio realmente parte para a ação em conjunto – e admito que, como filhote dos anos 80, tive arrepios ao vê-los juntos atrás de um balcão enquanto tentam se proteger dos bandidos.

Não que seja possível evitar certa melancolia ao constatar o envelhecimento daqueles ícones – e ver Stallone conversando em close enquanto o diretor de fotografia emprega um soft focus óbvio para despistar os estragos do tempo é no mínimo uma visão incômoda. E eu não me espantaria caso suas plásticas tivessem sido realizadas pela velhinha responsável pela tentativa de restauração do “Ecce homo”. Que, aliás, poderia perfeitamente surgir no terceiro filme. Seu nome? Butcher, claro.

31 de Agosto de 2012

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

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