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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
05/11/2010 01/01/1970 5 / 5 5 / 5
Distribuidora

Scott Pilgrim Contra o Mundo
Scott Pilgrim vs. the World

Dirigido por Edgar Wright. Com: Michael Cera, Mary Elizabeth Winstead, Alison Pill, Mark Webber, Johnny Simmons, Ellen Wong, Kieran Culkin, Anna Kendrick, Satya Bhabha, Chris Evans, Don McKellar, Brie Larson, Brandon Routh, Jason Schwartzman, Thomas Jane, Clifton Collins Jr.

Scott Pilgrim Contra o Mundo é um filme que exibe uma energia contagiante desde o primeiro segundo de projeção. Inspirado em uma graphic novel (que não li) de Bryan Lee O’Malley, o longa adota uma dinâmica visual que freqüentemente remete ao vanguardismo não reconhecido do Speed Racer dos irmãos Wachowski ao mesmo tempo em que se estabelece como uma obra com atmosfera original e estimulante. Mas, mais do que isso, Scott Pilgrim talvez faça jus ao título de melhor “filme de videogame” já produzido por Hollywood, mesmo que, a rigor, sua origem esteja nos quadrinhos e não nos consoles.

Dirigido pelo britânico Edgar Wright a partir do roteiro que escreveu ao lado de Michael Bacall, o projeto traz Michael Cera vivendo seu habitual tipo nerd fracote/inseguro, mas com uma diferença importante: aparentemente, apesar da voz trêmula e do jeito frágil, Scott Pilgrim (Cera) é um conquistador nato, mesmo que recentemente encontre-se abalado pelo término de uma relação. Baixista de uma banda de garagem, ele acaba se interessando por uma garota nova na cidade, Ramona Flowers (Winstead), convencendo-a a aceitar um encontro. O que Pilgrim não sabe, no entanto, é que a moça tem sete “ex-namorados do mal” e que, para continuar o namoro, ele terá que derrotar todos eles.

Adotando uma abordagem narrativa complexa e curiosa, Wright (responsável pelos excelentes Todo Mundo Quase Morto e Chumbo Grosso) faz uma opção brilhante ao retratar a ambientação daquele universo (leia-se: Toronto, no Canadá) de forma realista e relativamente deprimente apenas para, em seguida, povoá-lo com personagens de natureza fantástica e muitas vezes caricatural. Se por um lado as ruas da cidade surgem tristes e cobertas pela neve, por outro o cineasta introduz grafismos como cartões que resumem as características dos personagens ou letreiros que salientam certos sons através de onomatopéias que tomam conta da tela, criando, assim, uma lógica inesperada e repleta de contrastes. Da mesma maneira, as telas divididas e as legendas que indicam passagem do tempo ou a mudança do cenário remetem diretamente aos quadrinhos, estabelecendo um conflito ainda maior – e mais eficaz – com os demais elementos narrativos.

Com uma montagem ágil que emprega os raccords não só para manter o dinamismo da história, mas também para criar gags constantes (os montadores Paul Machliss e Jonathan Amos só não serão indicados ao Oscar caso a Academia enlouqueça), Scott Pilgrim freqüentemente surpreende o público através de cortes inesperados – como, por exemplo, ao enfocar uma troca de olhares entre vários personagens que acaba culminando no personagem de Kieran Culkin (excelente) encarando o namorado de uma amiga ou ao trazer o personagem-título se vestindo para uma batalha, numa série de planos rápidos, apenas para interromper tudo quando ele se detém em amarrar os sapatos. (E o que dizer da piada recorrente que envolve a menção ao corte de cabelo de Pilgrim?)

Fotografado com competência pelo veterano Bill Pope, que oscila brilhantemente entre as externas sem vida (como o plano belíssimo de um balanço na neve que remete ao preto-e-branco) e as internas coloridíssimas concebidas pela direção de arte, o filme estabelece um universo fantástico habitado por pessoas que, aparentemente, não têm consciência de que são personagens de um videogame que flerta com linguagens tão díspares quanto um musical de Bollywood ou uma sitcom clássica (a referência a Seinfeld é fabulosa). Calcado também na metalinguagem, Scott Pilgrim constantemente surpreende quando percebemos que seus personagens reconhecem as mesmas intervenções narrativas que percebemos, como, por exemplo, no momento em que a tarja preta que cobre os lábios de uma personagem que insiste em dizer palavrões é vista por Pilgrim, que não manifesta qualquer espanto diante daquilo.

Oferecendo uma visão interessante sobre a obsessão que muitos manifestam com relação ao passado romântico de seus parceiros, o filme é basicamente uma fantasia adolescente de um indivíduo que quer se estabelecer como macho-alfa diante de uma garota que já teve vários parceiros – uma temática que, apesar de já abordada à exaustão pelo cinema (especialmente através de comédias românticas), aqui ganha uma interpretação moderna e fascinante.

Além disso, como não admirar um filme que traz, em seu clímax, um conflito entre o Bem e o Mal representados por figuras que surgem longe da virilidade impossível de Stallone ou Statham, ganhando, em vez disso, os rostos – e os corpos pálido e frágeis – de Michael Cera e Jason Schwartzman?

Scott Pilgrim Contra o Mundo é, em suma, uma surpreendente, divertida e adorável fantasia nerd.

Observação: esta crítica foi originalmente publicada como parte da cobertura do Festival do Rio 2010.

06 de Outubro de 2010

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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