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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
09/05/2008 01/01/1970 5 / 5 4 / 5
Distribuidora

Speed Racer
Speed Racer

Dirigido por Andy e Larry Wachowski. Com: Emile Hirsch, Matthew Fox, John Goodman, Susan Sarandon, Christina Ricci, Roger Allam, Kick Gurry, Scott Porter, Paulie Litt, Rain, Hiroyuki Sanada, Moritz Bleibtreu, Richard Roundtree.

 

É desapontador dizer isso, mas creio que levará um bom tempo até que Speed Racer, retorno dos irmãos Wachowski à direção depois da trilogia Matrix, finalmente tenha seus méritos narrativos reconhecidos pelo público e, sim, por boa parte da crítica. Obviamente concebido como um filme voltado principalmente para o público mais jovem, o longa não teme fazer brincadeiras visuais típicas das animações clássicas, como mostrar personagens com cifrões nos olhos ou um carro que atira colméias em seus oponentes a fim de sabotá-los. E se você, como eu, normalmente tem pavor de produções que empregam macacos como alívio cômico, provavelmente se arrepiará ao perceber que Speed Racer investe um bom tempo nas reações do chimpanzé Zequinha – mas esta reação logo será substituída pela surpresa ao constatar que o animal funciona maravilhosamente bem no contexto da história.

 

Adaptação da série japonesa criada por Tatsuo Yoshida no final da década de 60, o longa gira em torno do jovem Speed Racer (Hirsch), que, com um nome desses, só poderia mesmo dar trabalho aos seus professores por se mostrar desinteressado nas aulas e obcecado somente por velocidade. Filho de um projetista de carros de corrida (Goodman), ele tenta seguir os passos do irmão mais velho, Rex, cujos recordes ainda se mantém imbatíveis, mas que morreu tragicamente há alguns anos. Depois de receber uma oferta de patrocínio feita pelo bilionário Royalton (Allam), Speed descobre que os resultados das corridas profissionais vêm sendo manipulados por interesses corporativos e se une ao misterioso Corredor X (Fox) para tentar reverter a situação.

 

Neste sentido, Speed Racer se encaixa perfeitamente na corrente atual do Cinema norte-americano, que vem retratando consistentemente as grandes corporações como vilãs preferenciais de suas tramas (algo que já comentei ao escrever sobre Conduta de Risco, Em Boa Companhia e Sangue Negro, entre outros) – e, portanto, não é surpreendente que os cartolas sejam retratados como sujeitos inescrupulosos e cruéis que se contrapõem à pureza com que a família Racer demonstra sua sensibilidade verdadeiramente “artística” no que diz respeito às corridas. Aliás, o próprio conceito de “família” advogado pelo protagonista entra em conflito com a versão fria e burocrática de “família” apresentada por Royalton, que, embora inicialmente alegue ter carinho por seus subalternos, mantém, em sua equipe, um sujeito apenas para guardar seus óculos escuros.

 

Revelando uma propensão à psicodelia desde os primeiros segundos de projeção, Speed Racer leva o espectador a um universo de cores fortes (você nunca verá um céu tão azul) que, criado quase inteiramente por computadores, é estilizado como o visual de alguns de seus vilões, que parecem ter saído diretamente da adaptação de Dick Tracy comandada por Warren Beatty em 1990. As pistas de corrida, em particular, desafiam qualquer conceito de gravidade, surgindo como criações divertidamente impossíveis – e, em vários momentos, a absurda dinâmica estabelecida pelos carros, associada às cores básicas e intensas, remete a Tron – Uma Odisséia Eletrônica, que certamente deve ter servido como referência em determinadas seqüências de ação (aliás, outro filme obviamente homenageado pelos Wachowski é Com 007 Só Se Vive Duas Vezes, que também trazia um ninja que tentava envenenar alguém usando um fio que conduzia a droga até os lábios da vítima adormecida).

 

Porém, por mais intensas que sejam as disputas automobilísticas vistas em Speed Racer, os cineastas não demonstram interesse algum em transformá-las em seqüências excessivamente tensas para o jovem público – e, assim, apesar das inúmeras explosões e capotagens, os pilotos quase sempre são vistos escapando incólumes graças a uma bolha de espuma que os envolve automaticamente em caso de desastre. Em vez disso, os Wachowski investem em ritmo e humor, criando corridas que, confusas em meio a tantos cortes e manobras (os carros parecem lutar uns com os outros), mantêm o espectador sempre atento – e o próprio desinteresse dos diretores em revelar com clareza o que está acontecendo contribui para isso. Além disso, a magnífica direção de arte se certifica de que tenhamos sempre algo que ocupe nossas mentes, desde a impraticável (e maravilhosa) metrópole que abriga as indústrias Royalton até o design dos carros, que inclui alavancas que se assemelham a presas de cobra ou adagas, dependendo da personalidade do motorista.

 

Capturando com sensibilidade o universo altamente imaginativo das crianças, Speed Racer acerta, por exemplo, ao retratar uma corrida que se passa apenas na mente do jovem personagem-título ou ao ilustrar as brincadeiras entre Gorducho (o ótimo e expressivo Paulie Litt) e Zequinha. Aliás, a dinâmica repleta de carinho da família Racer é fundamental para que compreendamos os riscos ao qual Speed se submete a fim de protegê-la – e, neste sentido, John Goodman e Susan Sarandon se revelam impecáveis como os pais do herói, destacando-se a sensatez do primeiro e a compreensão da segunda. Enquanto isso, Matthew Fox foge de qualquer comparação ao seu desempenho em “Lost” ao transformar o Corredor X numa figura seca e enigmática, ao passo que Christina Ricci, com seus imensos olhos e sua energia constante, surge como uma versão perfeita de sua contraparte do anime original. Finalmente, Emile Hirsch empresta carisma e determinação a Speed, ao passo que Roger Allam, como o vilão Royalton, parece fazer uma espécie de homenagem aos tipos cínicos habitualmente criados pelo britânico Tim Curry.

 

Mas foi com sua linguagem narrativa que Speed Racer realmente me conquistou: já no início, quando alternam a ação entre uma corrida disputada pelo herói e flashbacks que gradualmente invadem o que está ocorrendo no presente, os irmãos Wachowski demonstram interesse em criar uma narrativa fluida que exigirá atenção integral do espectador – e, mais tarde, quando o vilão descreve o que virá a seguir para o mocinho, vemos imagens que demoram a se identificar como flashforwards ou meras ilustrações do possível futuro pintado pelo sujeito. Da mesma maneira, os cineastas preenchem seus quadros com imensa quantidade de informação: se Speed descreve um incidente passado, por exemplo, logo o plano de fundo passa a revelar elementos daquilo que está sendo narrado, num jogo visual que, em vez de confundir, serve para ilustrar como tudo aquilo é intenso e presente na mente do herói.

 

Além disso, os Wachowski freqüentemente quebram convenções cinematográficas em sua abordagem visual: na cena em que Royalton conversa com o sr. Musha (Sanada), por exemplo, os diretores praticamente ignoram o conceito clássico de eixo, redirecionando os olhares dos personagens a cada nova fala, refletindo o jogo de interesses e a disputa entre estes – e só mais tarde percebemos que os dois sequer estavam olhando um para o outro, encontrando-se, em vez disso, lado a lado diante de uma imensa parede de vidro que revela a fábrica do primeiro em plena atividade. Já a montagem de Roger Barton e Zach Staenberg praticamente ignora transições convencionais como fusões e fades, investindo pesadamente em constantes cortinas que são realizadas a partir do deslocamento das cabeças em close dos atores ao longo do quadro. Finalmente, os cineastas revelam um interesse recorrente em mostrar o elenco em perfis recortados que, de maneira econômica e brilhante, remetem à bidimensionalidade clássica da animação tradicional, resgatando e homenageando, com isso, o efeito provocado pelo anime.

 

Embalado ainda pelas composições sempre fabulosas de Michael Giacchino (que também faz uma releitura genial do tema da série original), Speed Racer representa uma experiência visual fascinante – e mesmo que sua história traga problemas pontuais, isto em nada compromete a abordagem inteligente, ambiciosa e contagiante dos dois irmãos que já haviam mudado a paisagem da ficção científica contemporânea com seu brilhante Matrix.

 

08 de Maio de 2008

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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