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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
01/12/2006 01/01/1970 2 / 5 / 5
Distribuidora

Um Bom Ano
A Good Year

Dirigido por Ridley Scott. Com: Russell Crowe, Albert Finney, Marion Cottillard, Abbie Cornish, Freddie Highmore, Tom Hollander, Archie Panjabi, Rafe Spall, Didier Bourdon, Isabelle Candelier, Kenneth Cranham.

Em quase 30 anos de carreira, o cineasta britânico Ridley Scott jamais havia dirigido uma comédia. Sentindo-se claramente mais à vontade ao lidar com a ficção-científica (Alien, o Oitavo Passageiro; Blade Runner), o suspense policial (Chuva Negra; Hannibal), ou com épicos históricos (1492: A Conquista do Paraíso; Cruzada),  Scott é dono de uma filmografia pesada, violenta – e mesmo suas obras que contém passagens relativamente mais leves, como Thelma & Louise ou Os Vigaristas, acabam se declarando essencialmente pessimistas. Assim, é preciso admitir que sua tentativa de transformar Um Bom Ano, seu 16º. longa-metragem, em uma comédia romântica exigiu coragem do veterano realizador. Infelizmente, este é um gênero que exige mais do que coragem – e é curioso que, em certo momento da projeção, um personagem pergunte a outro justamente “qual é a coisa mais importante na comédia”, já que a resposta (Timing!”) revela precisamente aquilo que falta a Scott e condena seu filme ao fracasso.

Escrito por Marc Klein (do fraco Escrito nas Estrelas) a partir do livro de Peter Mayle, Um Bom Ano gira em torno de Max Skinner (Crowe), um bem-sucedido corretor da bolsa de valores de Londres que logo é estabelecido como sendo um verdadeiro canalha (ele mesmo se encarrega de esclarecer isto para o espectador ao dizer que virou “um babaca”). Certo dia, Skinner recebe a notícia de que seu velho tio Henry (Finney) morreu sem deixar herdeiros e que, portanto, ele agora é dono de todos os bens do falecido: basicamente, um vinhedo em Provença, no sul da França. Como foi - convenientemente para o roteiro - suspenso de seu trabalho por uma semana em função de uma transação suspeita, Skinner viaja até a propriedade a fim de providenciar sua venda e, enquanto encontra-se por lá, passa a rememorar passagens de sua infância ao lado do tio.

Contando com um senso de humor obviamente anacrônico, Um Bom Ano é um daqueles filmes que, como se tivessem sido produzidos na década de 60 (ou antes), parecem achar divertidíssimo mostrar um carro contornando repetidas vezes uma pracinha em câmera acelerada e que trazem personagens que soluçam incontrolavelmente quando bêbados. Recheado de montagens musicais supostamente engraçadinhas, o longa demonstra um esforço constrangedor para provocar risadas através de gags artificiais como aquelas que retratam o protagonista (até então, um homem seguro e elegante) se atrapalhando com mapas, sendo atacado por mosquitos ao urinar atrás de uma árvore e tendo as pernas ensopadas por um cãozinho. Além disso, é claro que ele é obrigado a dirigir um carrinho minúsculo que o torna alvo de piadas generalizadas.

Mas não é só em seus elementos “humorísticos” que o filme se revela artificial; o componente “romântico” também peca por se entregar totalmente às fórmulas do gênero – a começar pelo mais do que batido clichê do “casal que parece se odiar, mas que se ama secretamente”. Da mesma forma, a primeira vez que Skinner e a mocinha se cruzam é um exemplo clássico da falta de imaginação: enquanto ela pedala sua bicicleta bem no meio de uma estrada, ele deixa o celular cair no chão do carro, abaixando-se para pegá-lo sem se preocupar em encostar o veículo. Como se não bastasse, ao buscar informações sobre a bela garota, o protagonista ouve a inacreditável resposta: “Dizem que ela não deixa homem algum se aproximar de seu coração".

Finalmente, Um Bom Ano falha também em sua fraca estrutura narrativa, que inclui o velho recurso de apresentar as memórias do herói como alucinações despertadas por todo e qualquer objeto que surge em sua frente (e escalar o jovem Freddie Highmore, o adorável garotinho de Em Busca da Terra do Nunca e A Fantástica Fábrica de Chocolates, para viver Skinner na infância é uma tentativa clara de tornar o personagem simpático junto ao público, forçando-nos a torcer por sua redenção). Porém, mais uma vez o filme peca pela artificialidade ao retratar tio Henry (Finney, desperdiçado) como uma espécie de sábio que usa o vinho como metáfora para a vida, já que os discursos do sujeito soam quase sempre vazios, substituindo o conteúdo por um rebuscamento ridículo na formulação das frases (“Este néctar sublime é incapaz de mentir!”).

Pouco experiente em comédias (sua última incursão ao gênero resultou no fraco Esquentando o Alasca, de 99), Russell Crowe se mostra visivelmente desconfortável em Um Bom Ano, exagerando nas caretas e nos trejeitos desengonçados – e o fato de sua composição surgir inconstante, oscilando quase que de cena para cena, comprova a luta interna que o talentoso ator certamente enfrentou ao se preparar para o projeto (aliás, nos momentos em que ele parece relaxar e desistir de ser comediante, Skinner torna-se muito mais charmoso e real). Enquanto isso, o restante do elenco consiste em criar estereótipos a partir da nacionalidade de seus personagens: os britânicos aparecem como criaturas frias e obcecadas com dinheiro, enquanto os franceses são calorosos e se dedicam quase com exclusividade à comida e à bebida.

Esta obviedade nas composições, aliás, reflete-se também na fotografia de Philippe Le Sourd, que mergulha as cenas na Inglaterra em cores metálicas e aquelas ambientadas em Provença em um tom constantemente dourado e cheio de vida (as locações na França são maravilhosas, vale observar). Já a excelente montadora Dody Dorn, também pouco experiente em comédias, se esforça ao máximo para imprimir ritmo cômico à narrativa (como podemos observar pela abundância de cortes secos), mas igualmente sem sucesso. Para piorar, Ridley Scott demonstra tremenda falta de imaginação em suas escolhas e composições, chegando a apresentar a mocinha em um plano em câmera lenta no qual os cabelos da garota, iluminados em contraluz, balançam ao vento, como num comercial de shampoo.

Bobo e descartável, Um Bom Ano é apenas um exemplar pouco inspirado de uma história que já vimos ser contada inúmeras vezes: o do garotão arrogante da cidade grande que descobre a felicidade na simplicidade de um pequeno vilarejo – e que, é claro, acaba tendo que fazer uma escolha difícil entre o sucesso e a paz interior. Aliás, você já viu este filme (infinitamente superior, diga-se de passagem) em 2006; porém, em vez de Max Skinner, o herói se chamava Relâmpago McQueen e era um carro de corridas criado por animação.

30 de Novembro de 2006

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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