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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
04/07/2008 01/01/1970 5 / 5 5 / 5
Distribuidora

O Escafandro e a Borboleta
The Diving Bell and the Butterfly

Dirigido por Julian Schnabel. Com: Mathieu Amalric, Emmanuelle Seigner, Marie-Josée Croze, Anne Consigny, Olatz López Garmendia, Jean-Pierre Cassel, Niels Arestrup, Isaach De Bankolé, Marina Hands, Patrick Chesnais e Max von Sydow.

Em 1995, o editor da revista francesa de moda “ELLE”, Jean-Dominique Bauby, sofreu um derrame colossal que o mergulhou num estado de coma profundo. Porém, ao despertar três semanas depois num hospital localizado na pequena Berck-sur-Mer, situada ao norte da França e às margens do Canal da Mancha, foi que o verdadeiro horror de sua situação tornou-se claro: vitimado pela rara Síndrome do Encarceramento, Bauby descobriu-se completamente paralisado e incapaz de falar. Com as pálpebras do olho direito suturadas para impedir o ressecamento da córnea, ele contava apenas com o olho esquerdo para se comunicar com o mundo – e, simplesmente através do piscar de suas pálpebras, ditou um livro de 139 páginas no qual, através de ensaios curtos e tocantes sobre sua condição e suas memórias (e fantasias), pintou o retrato de um homem de inteligência viva e sensibilidade ímpar que se encontrava tragicamente preso a um corpo inútil.


Transformado em roteiro por Ronald Harwood (O Pianista), o magnífico livro de Bauby, intitulado O Escafandro e a Borboleta, encontra no cineasta e pintor Julian Schnabel o diretor ideal: responsável pelas cinebiografias de dois outros artistas precocemente mortos (o pintor Jean-Michel Basquiat, em Basquiat, e o poeta cubano Reinaldo Arenas, em Antes do Anoitecer), Schnabel exibe imensa sensibilidade ao não realizar concessões na maneira angustiante com que retrata a condição pavorosa de um homem que, para todos os efeitos, fora enterrado vivo em seu próprio corpo. Assim, desde os primeiros minutos de projeção o cineasta leva o espectador a assumir o ponto de vista confuso e amedrontado de Bauby ao recobrar a consciência depois do coma - e gradualmente compreendemos por que, para este, sua situação era similar a um mergulho nas profundezas preso em um pesado escafandro. A diferença é que, infelizmente, este era um mergulho que jamais chegaria ao fim.

Contando com a inteligente fotografia do talentoso Janusz Kaminski (colaborador habitual de Spielberg), Schnabel investe a maior parte da metade inicial da projeção em planos subjetivos que nos prendem ao corpo danificado de Bauby – e, assim, o quadro se torna embaçado quando o sujeito chora, é parcialmente coberto quando um amigo enfia um chapéu em sua cabeça e se torna inclinado para ilustrar a incapacidade do escritor de erguer a cabeça para endireitar o campo de visão. Além disso, inicialmente Kaminski mantém partes do campo fora de foco para salientar a precariedade da visão de Bauby, que move os olhos (e, conseqüentemente, a câmera) de maneira incerta enquanto busca encontrar pontos de interesse.

Gradualmente, porém, Schnabel passa a incluir planos objetivos à medida que Bauby se torna mais consciente de sua situação – mas, mesmo assim, o diretor nos poupa da visão deprimente do rosto contorcido do protagonista: a princípio, vemos apenas seu reflexo distorcido numa superfície brilhante e, como o próprio Bauby, nos chocamos com o pouco que discernimos de sua face. Porém, o cineasta guarda a revelação total da aparência do escritor para um momento dramaticamente perfeito, posicionando-a estrategicamente após uma seqüência de imagens do sujeito ao longo da vida, em momentos de alegria e saúde plenas – e o contraste, por si só, responde pela maior parte do impacto que sofremos e que certamente reflete aquele experimentado por Bauby ao constatar sua condição. Aliás, Schnabel aposta repetidamente no contraste como recurso dramático e, neste sentido, um dos exemplos mais eficazes reside no instante em que ouvimos um monólogo interior de Bauby, que ri de uma piada feita às suas custas, e bruscamente somos levados para fora do personagem, que, é claro, surge impassível, sem condições de demonstrar seu senso de humor.

Adotando uma lógica narrativa brilhante, Schnabel gradualmente investe numa estética mais convencional à medida que Bauby se liberta da auto-piedade, quando, então, os planos subjetivos se tornam um pouco menos freqüentes. Ainda assim, quando estes ocorrem, a confusão inicial é substituída por um passeio seguro do olhar do personagem, que desliza sensualmente pelas pernas da esposa enquanto estas escapam pelas aberturas do vestido – e mesmo os devaneios do protagonista se revelam mais claros, refletindo o estado de sua memória. Enquanto isso, o fato de podermos ver o protagonista traz, como bônus, a performance memorável de Mathieu Amalric (do ótimo Reis e Rainha), que, mesmo preso a um personagem imóvel e com expressão congelada, comunica com brilhantismo os sentimentos de Bauby: percebam, por exemplo, como ele engasga levemente, movendo o pomo-de-adão sob o tubo da traqueotomia, para externar a emoção que o protagonista sente ao ouvir a voz do pai pelo telefone (pai este, que, aliás, é vivido com sofrida delicadeza pelo veterano Max von Sydow).

Da mesma maneira, a bela Marie-Josée Croze (As Invasões Bárbaras) estabelece uma dinâmica impecável com Amalric ao retratar a maneira com que a fonoterapeuta Henriette ensina Bauby a se comunicar através de um alfabeto reorganizado de acordo com a freqüência com que as letras ocorrem na língua francesa: inicialmente trôpega, a comunicação entre os dois se torna infinitamente mais fluida com o passar do tempo sem que, com isso, deixemos de constatar todas as dificuldades envolvidas no processo. Além disso, Croze ilustra de forma sensível o envolvimento de sua personagem com o tratamento de Bauby ao reagir de maneira magoada a uma frase derrotista “piscada” pelo paciente – e notem como ela já começa a manifestar sua decepção ao antecipar a frase que está sendo ditada pelo outro. Finalmente, Emmanuelle Seigner exibe uma surpreendente evolução como atriz ao retratar a dor que Celine, ex-esposa de Bauby, sente ao perceber que este ainda se encontra apaixonado pela amante – o que não a impede de, num momento de doloroso altruísmo, transmitir a esta uma mensagem do marido, numa cena que comprova que Seigner está a anos-luz de distância daquela atriz frágil do início de carreira.

E já que mencionei a atitude monstruosamente egoísta de Bauby ao obrigar a esposa a intermediar uma conversa com sua amante, é importante mencionar que O Escafandro e a Borboleta emociona, também, ao abraçar estas complexidades tão típicas do ser humano. Por um lado, Bauby é um homem repleto de sentimentos de culpa que tem plena consciência da crueldade de sua situação, já que conta com todo o tempo do mundo para arrependimentos, mas nenhuma oportunidade de fazer algo a respeito. Por outro, é um sujeito preso aos próprios sentimentos – e mesmo a ausência egoísta da amante não é o bastante para libertá-lo de uma relação que empalidece diante da abnegação de sua esposa.

Mas, acima de tudo, O Escafandro e a Borboleta, filme e livro, é um testamento profundamente tocante da força do espírito humano. E se a borboleta representada pela consciência de Jean-Dominique Bauby é atestado desta grandeza (que desperdiçamos em nossos corridos cotidianos de problemas mesquinhos), é inegável constatar que, de uma maneira ou de outra, estamos todos presos a um trapo de carne frágil que limita o potencial que nossas mentes, libertas, poderiam atingir, sendo preciso um caso extremo como o de Bauby para que constatemos isso – ou, no mínimo, uma experiência pessoal mais intensa (há alguns meses, enquanto encontrava-me preso a uma cama de hospital com tubos enfiados no pescoço e no abdômen, agarrava-me à imagem alegre de meu filho, que não podia me visitar, para encontrar forças para resistir à dor e ao mal-estar. E descobrir-me incapaz de dar um passo sem auxílio ou mesmo de respirar profundamente funcionou justamente como um tapa no rosto do comodismo e de uma rotina que ignoravam o presente representado pela capacidade de dar vida aos planos e desejos mais prosaicos que a mente podia conceber).

E se a consciência é o dom mais valioso que temos, Bauby tornou-se um exemplo maravilhoso ao exibir a coragem (ou seria simples bom senso?) de enfrentar sua decadência física com o intuito de permitir que sua mente continuasse a trabalhar – o que, de certa maneira, o contrapõe ao poeta Ramón Sampedro vivido por Javier Bardem no belo e complexo Mar Adentro. Não que isto torne Baudy “certo” e Sampedro “errado” (mais sobre isto em meu texto sobre aquele filme), mas, ainda assim, é impossível deixar de se comover com a tenacidade de um homem que, para todos os efeitos, encontrava-se numa situação infinitamente mais desesperadora do que a do espanhol, cujo “escafandro” ao menos continha um sistema de comunicação via voz, mas que, ainda assim, preferiu prender sua borboleta interna a um quadro de cortiça que o calou para sempre.

08 de Julho de 2008

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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