Dirigido por Gary Winick. Com: Jennifer Garner, Mark Ruffalo, Judy Greer, Andy Serkis, Kathy Baker, Christa B. Allen, Alexandra Kyle, Sean Marquette.
É incrível que a Fox não tenha processado a Revolution e a Columbia, responsáveis por este De Repente 30, pelo plágio descarado envolvendo o divertido Quero Ser Grande, estrelado por Tom Hanks em 1988. Não apenas a trama principal daquele filme foi obviamente utilizada como `inspiração`, como também boa parte das piadinhas vistas ao longo da projeção. Na realidade, a grande diferença entre os dois projetos é o fato de que, no mais recente, todos os personagens envelhecem – porém, como a protagonista é a única pessoa que cresce `da noite para o dia`, isto não altera muito o desenvolvimento da narrativa. Ah, sim: e é claro que, desta vez, é uma garota que se torna subitamente adulta, e não um rapaz.
Frustrada por não ser tão popular como suas colegas de escola, a jovem Jenna Rink sonha em ter 30 anos de idade e ser bem-sucedida profissionalmente – algo que se torna realidade graças a um pó mágico que seu melhor amigo Matt comprou em algum lugar (tudo bem: a `máquina de desejos` de Quero Ser Grande também não fazia muito sentido). Inicialmente chocada por descobrir que 17 anos se passaram instantaneamente (apenas para ela; como eu disse antes, os demais personagens vivenciaram este período), Jenna constata com alegria que é uma das editoras de sua revista favorita (trabalhando sob a tutela de Richard, vivido por Andy `Gollum` Serkis). O único problema é que, aos poucos, a moça percebe que se transformou em uma pessoa fútil e desagradável, e que seu antigo melhor amigo tornou-se um estranho.
A partir daí, as principais situações e gags de Quero Ser Grande (cujo roteiro foi escrito por Gary Ross e Anne Spielberg, irmã de Steven) são incorporadas sem embaraço pelo filme: durante uma reunião, Jenna levanta o braço para pedir autorização para falar; em uma festa, ela cospe algo que havia experimentado; seu único confidente é o melhor amigo de infância; e, em certo momento, ela sente falta da juventude perdida ao ver um grupo de crianças brincando. Além disso, da mesma forma que o personagem de Tom Hanks conseguia se destacar no emprego graças à visão inocente que tinha do mundo e à sinceridade com que se expressava, Jenna é aplaudida pelos colegas da revista ao propor uma nova (e ingênua) linha editorial. A diferença é que, enquanto as idéias de Hanks faziam sentido naquele contexto, os projetos de Jenna são simplesmente horrorosos – e é ridículo que o filme tente nos convencer de que estes seriam aceitos por qualquer adulto com o mínimo de bom senso.
Adotando um tom nostálgico, com inúmeras referências aos anos 80, De Repente 30 se sai bem melhor ao fazer graça com o estilo cafona daquela década, com seus penteados repletos de laquê e as roupas excessivamente coloridas. E, como sou fã incondicional daquele período (sim, eu sei. Também me envergonho disso.), confesso que gostei imensamente da cena em que dezenas de pessoas recriam a coreografia do clipe Thriller, de Michael Jackson (por outro lado, a falta de inspiração dos roteiristas Josh Goldsmith e Cathy Yuspa fica patente pela falta de uma única piada sequer envolvendo o choque que Jenna sentiria caso soubesse das acusações de pedofilia contra o ex-rei do pop).
O roteiro também se enfraquece ao incluir as lições de moral rasteiras que os projetos de Hollywood tentam pregar sempre que percebem a fragilidade da história com a qual estão lidando. Assim, mais uma vez somos presenteados com a velha máxima de que `ser popular não é tão importante quanto ser uma pessoa legal`, e por aí afora. Aliás, com o objetivo de ilustrar para o público a crueldade da Jenna adulta, a dupla de roteiristas introduz uma menina que, ao ser cumprimentada pela protagonista em um elevador, diz: `Por que está falando comigo? Você sempre me ignora!` – uma fala artificial que jamais seria dita por alguém em situação semelhante (é óbvio que a garota está falando para o espectador, e não para Jenna). Mas o pior erro de De Repente 30 é ignorar o objetivo do projeto: por que contar a história de uma menina que se torna adulta se isto não será explorado pelo filme? Na maior parte do tempo, Jenna age como mulher, não como pré-adolescente (ao contrário do que ocorria em Quero Ser Grande, no qual Tom Hanks comportava-se como um garoto mesmo quando fazia tarefas de adulto).
Parte da responsabilidade por este problema também deve ser atribuída a Jennifer Garner, cujo trabalho nesta produção é tristemente irregular: já em sua primeira cena, aliás, ela mostra-se excessivamente exagerada ao tentar retratar o choque de sua personagem ao ver-se como uma mulher de 30 anos – e, mais tarde, ela parece se esquecer de que supostamente deveria agir como uma menina de 13 anos (ou, se age, não convence). Enquanto isso, Mark Ruffalo mais uma vez faz o que pode com um papel ingrato (como no fraco Em Carne Viva) e não causa forte impressão. Em contrapartida, o ator-mirim Sean Marquette merece destaque por viver de forma marcante a versão jovem de Ruffalo.
Para finalizar, creio ser interessante observar que, ao longo de De Repente 30, todas as mulheres bem-sucedidas profissionalmente são retratadas como pessoas frias, maldosas e traiçoeiras, enquanto aquelas que se mostram mais `caseiras` ganham imediatamente a simpatia da história. Por si só, esta visão machista e preconceituosa do papel feminino na sociedade moderna já deveria chamar a atenção – porém, a coisa fica ainda pior quando constatamos que o casal de roteiristas Josh Goldsmith e Cathy Yuspa também escreveu o igualmente chauvinista Do Que as Mulheres Gostam. Se a coisa continuar neste ritmo, não duvido nada de que, em algum tempo, os dois venham a escrever um filme de terror adolescente no qual o assassino mascarado seja uma executiva de sucesso chamada Frida Krueger ou Jasmine Voorhees.
17 de Maio de 2004

Durante uma brincadeira em sua festa de aniversário, uma garota de 13 anos fica presa em um armário. Quando sai, ela está prestes a completar 30 anos, com uma vida completamente diferente.
Críticas Relacionadas

