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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
09/03/2001 15/12/2000 2 / 5 / 5
Distribuidora

Do Que as Mulheres Gostam
What Women Want

Dirigido por Nancy Meyers. Com:Mel Gibson, Helen Hunt, Marisa Tomei, Alan Alda, Ashley Johnson, Lauren Holly, Judy Greer e Bette Midler.

O maior pecado deste novo filme de Mel Gibson, Do Que as Mulheres Gostam, é não conseguir definir o gênero no qual investirá suas forças: depois de começar apostando na comédia, a história volta-se para o romance e acaba em drama. Desta forma, sua interessante premissa acaba diluindo-se em um roteiro repleto de situações e reviravoltas completamente dispensáveis.


Neste filme, Gibson interpreta Nick Marshall, um bem sucedido publicitário que está prestes a ganhar uma importante promoção na agência em que trabalha. Apesar de ser extremamente machista, ele consegue cativar as mulheres em função de seu carisma e charme. Porém, sua insensibilidade em relação ao universo feminino acaba impedindo que sua promoção seja efetivada, já que seu chefe resolve contratar alguém que entenda do assunto: no caso, Darcy McGuire (Hunt), uma competente executiva. É quando Nick sofre um pequeno acidente doméstico e se torna capaz de ouvir os pensamentos de qualquer mulher - resolvendo, obviamente, utilizar este seu novo `dom` para roubar as idéias de sua nova chefe e, em seguida, provocar sua demissão.

Como não poderia deixar de ser, grande parte do charme deste filme reside na (falta de) índole de seu protagonista: cínico e mal intencionado, ele é o anti-herói típico, conseguindo cativar o espectador não em função de suas virtudes, mas de seus defeitos. Infelizmente, isso não dura muito tempo: em uma época regida pelo `politicamente correto`, os roteiristas estreantes Josh Goldsmith e Cathy Yuspa logo procuram suavizar o comportamento inadequado do personagem - eliminando, com isso, o maior atrativo da trama. Conseqüentemente, Nick torna-se um ser humano melhor, mas não muito interessante como protagonista de uma comédia como esta. Para solucionar o problema, os roteiristas acabam transformando o filme em um romance açucarado, praticamente desistindo de provocar o riso.

O que eles parecem não ter percebido é que tinham uma excepcional fórmula cômica em mãos - e a primeira meia hora de Do Que as Mulheres Gostam comprova este fato: enquanto o público feminino se diverte ao ver a falta de sintonia de Nick com seus desejos e ao testemunhar suas tentativas frustradas de compreender seu universo, os homens riem do humor chauvinista de Nick e de sua confusão ante as aparentes contradições femininas. Ao converter a história em romance, a dupla de roteiristas atira no lixo todo o clima leve e divertido construído ao longo do primeiro ato. E o que é pior: para introduzir novas reviravoltas na história, eles acabam criando uma infinidade de personagens que nada acrescentam ao filme, como a assistente de escritório suicida, a desconfiada balconista da lanchonete e, é claro, a aborrecida filha de Nick.

A principal conseqüência desta decisão é óbvia: a meia hora final de projeção resume-se a mostrar o personagem de Gibson resolvendo todos os `conflitos` gerados ao longo da trama - o que não deixa muito espaço para a comédia. Aliás, a verdade é que nem mesmo as soluções encontradas pelos roteiristas funcionam - ou você acha que um vestido caro e uma conversa de banheiro são suficientes para resolver quinze anos de conflitos entre pai e filha?

Aliás, o romance entre os personagens de Gibson e Hunt também não é muito satisfatório, já que segue todas as convenções do gênero: o herói demora a perceber que está apaixonado e, quando descobre, algo se interpõe entre ele e a mocinha, o que acaba empurrando o beijo final para o último minuto (alguém duvida que isso vai acontecer?). Em outras palavras: Do Que as Mulheres Gostam falha como comédia, como drama e como romance.

E isto é uma pena, já que o filme traz Mel Gibson em uma de suas atuações mais inspiradas: poucas vezes o ator se soltou tanto quanto nesta produção. O fato é que durante toda a trama o espectador percebe claramente que o ator está se divertindo a valer, protagonizando números musicais e até mesmo fazendo uma ótima imitação de Sean Connery. Em contrapartida, Helen Hunt limita-se a repetir o mesmo tipo que vem fazendo em filmes como Twister, Melhor é Impossível (onde funcionou de maneira melhor graças ao roteiro) e Náufrago - e, em função disso, acaba apagando-se quando comparada ao efusivo colega.

Mas a culpa do fracasso deste filme não se deve apenas ao roteiro medíocre: a direção equivocada de Nancy Meyers também carrega sua parcela de responsabilidade. Na verdade, poucas vezes um diretor confiou tanto no carisma de seu protagonista para prender a atenção do público: em várias ocasiões, somos obrigado a assistir a `clipes` de Mel Gibson rindo ou fazendo alguma brincadeira, enquanto uma canção `para cima` toca ao fundo (este tipo de recurso foi utilizado à exaustão em filmes como Um Dia, Dois Pais, que mostrava Robin Williams fazendo diversos tipos `cômicos` em frente ao espelho, e [email protected] para Você, no qual Meg Ryan aparecia fazendo caretas `engraçadinhas`. Em ambos os casos, o resultado final é embaraçoso). Afinal de contas, o que Meyers queria que pensássemos? `Ah, olha só o Mel Gibson dançando no meio de uma loja de departamentos!`? `Vejam só: ele disse algo engraçado para a filha!`?

Porém, a maior ironia de todas é perceber que, apesar da `reabilitação` de seu protagonista e do fato de ter sido dirigido por uma mulher, Do Que as Mulheres Gostam é um filme incrivelmente machista: basta constatar que todas as personagens femininas apresentadas ao longo da trama são extremamente inseguras e parecem depender de Mel Gibson para solucionar seus conflitos e receios. Esta curiosa contradição reflete a própria natureza do filme: superficialmente agradável, mas vazio em seu conteúdo.

9 de Março de 2001

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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