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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
27/12/2002 05/12/2002 5 / 5 4 / 5
Distribuidora

O Senhor dos Anéis: As Duas Torres
The Lord of the Rings: The Two Towers

Dirigido por Peter Jackson. Com: Elijah Wood, Ian McKellen, Viggo Mortensen, Sean Astin, Orlando Bloom, John Rhys-Davies, Billy Boyd, Dominic Monaghan, Miranda Otto, Brad Douriff, Karl Urban, Bernard Hill, David Wenham, Craig Parker, Cate Blanchett, Liv Tyler, Hugo Weaving, Christopher Lee e Andy Serkis (como Góllum/Sméagol).

`Nós gosta muito de As Duas Torres`, pensou o Sméagol existente dentro de mim, quando o segundo capítulo de O Senhor dos Anéis chegou ao fim. `Sim, meu precioso, mas o filme tem grandes falhas e faz várias alterações na obra de Tolkien`, respondeu o Gollum que com ele divide o espaço. `Isso não importar! No final, a história original é retomada!`. `Então, por que fazer as mudanças, se elas não farão diferença? Gollum, gollum!`. Neste instante, pedi que os dois parassem e me deixassem pensar. Afinal, eu estava mergulhado em sentimentos conflitantes e precisava de tempo para compreender o que me incomodava tanto em As Duas Torres. E também porque gostava tanto do filme.

Antes de mais nada, é preciso compreender que esta segunda parte da trilogia inspirada na obra de J.R.R. Tolkien tem um enfoque bastante diferente do primeiro capítulo: em A Sociedade do Anel, a ação se concentrava em uma jornada intimista, preocupando-se em apresentar para o espectador os nove companheiros que decidiam aceitar a missão de levar o Um Anel para Mordor e destruí-lo. Desta vez, no entanto, a trama assume um caráter claramente épico, revelando o sofrimento dos habitantes da Terra-média e ilustrando o que os espera caso Sauron vença a batalha. Assim, conhecemos novos personagens e lugares importantes para a história e testemunhamos acontecimentos grandiosos e assustadores, o que tira um pouco do espaço reservado ao desenvolvimento dos protagonistas.

Quando As Duas Torres tem início, Gandalf está enfrentando o Balrog na ponte de Khazad-dûm, o que culmina em sua queda nas sombras. A partir daí, descobrimos o que realmente aconteceu com o mago e também passamos a acompanhar três narrativas diferentes: enquanto Frodo e Sam continuam a caminhar rumo à Montanha da Perdição (agora acompanhados por Gollum, a quem aprisionam), Merry e Pippin encontram Barbárvore, o mais antigo dos ents, e procuram convencê-lo a ajudá-los na luta contra Saruman. Finalmente, Aragorn, Legolas e Gimli encontram Théoden, rei de Rohan, e decidem acompanhá-lo ao Abismo de Helm, onde o monarca decidiu se proteger ao lado de seus súditos.

Apesar da tarefa obviamente difícil de narrar três tramas distintas (e complexas) em um só filme, o diretor Peter Jackson e seus dois editores conseguem fazer com que a história flua de forma eficaz, sem permitir que o espectador fique confuso durante as transições (embora a montagem apresente outros problemas, como discutirei mais adiante). Além disso, o cineasta é bem-sucedido ao novamente mergulhar a platéia na Terra-média, abusando de grandes planos que descortinam sem reservas a geografia do lugar – sendo amplamente auxiliado pela equipe de Direção de Arte, que mais uma vez brilha ao criar, com competência, visuais distintos (mas belíssimos) para lugares como os Pântanos Mortos, o Castelo de Rohan e, é claro, a imensa fortaleza localizada no Abismo de Helm.

E já que citei este último, é preciso dizer que a batalha ocorrida ali, durante o terceiro ato da trama, é uma das mais impressionantes da história do Cinema – e não estou exagerando: contando com a participação de centenas de milhares de figurantes criados por computador, Jackson cria uma seqüência tensa e muito bem coreografada, não se deixando vencer pelos inúmeros desafios técnicos que ela certamente apresentou (entre outras coisas, a batalha se passa à noite e durante uma forte chuva). Por outro lado, o cineasta procura equilibrar estes momentos de ação intensa com outros mais intimistas, como na cena em que Théoden chora pela morte do filho.

No entanto, a grande surpresa é que a cena mais dramática de As Duas Torres não é protagonizada por Ian McKellen ou Elijah Wood, mas sim por uma estranha criatura chamada Gollum, que fez uma breve aparição em A Sociedade do Anel e que agora se transforma em um dos principais elementos da `continuação`: sofrendo por ter perdido o Um Anel, Gollum (ou Sméagol, como era chamado antigamente) possui duas personalidades que entram em conflito a todo momento, o que lhe provoca grande sofrimento – e, ao contrário do que se poderia imaginar, Peter Jackson faz a mais absoluta questão de permitir que o espectador enxergue bem o personagem, exibindo closes fechadíssimos da criatura, sem medo de que critiquemos sua origem digital (o que jamais acontece, já que Gollum é, realmente, o personagem `virtual` mais realista já visto nas telonas, sendo bastante beneficiado pelo ótimo desempenho do ator Andy Serkis, que lhe emprestou os movimentos e a voz).

Infelizmente, excetuando-se Gollum, não são muitos os personagens que merecem destaque individual em As Duas Torres: além dele, apenas Brad Douriff, como Grima Língua-de-Cobra, e Sean Astin, como Sam, se sobressaem. Ian McKellen, como Gandalf, aparece bem menos do que o esperado, e Elijah Wood, como Frodo, limita-se apenas a sofrer em função da influência do Anel. E se John-Rhys Davies faz rir como o estourado anão Gimli, os intérpretes dos hobbits Merry e Pippin não provocam o menor impacto, o que é uma pena.

E é neste ponto que sou obrigado a analisar os elementos da produção que não funcionam: aparentemente, Peter Jackson, bem mais confiante graças ao sucesso de A Sociedade do Anel, tornou-se excessivamente auto-indulgente durante a montagem do segundo filme, não fazendo economia e permitindo que As Duas Torres se tornasse bem mais prolixo do que deveria. E o que é pior: ao contrário do primeiro capítulo da trilogia, quando fez poucas – e eficazes – alterações com relação à obra de Tolkien, o cineasta realiza uma série de mudanças injustificadas que nada acrescentam à versão cinematográfica desta história, como separar (momentaneamente) Aragorn de seus companheiros e levar Frodo a uma parada inexplicável em Gondor.

Mas não é só isso: a fim de permitir que a bela Liv Tyler apareça no filme, Jackson inclui diversas `intervenções` de Arwen, que, além de descartáveis, quebram o ritmo da narrativa. Além disso, Faramir e o rei Théoden sofrem uma brusca mudança de caráter nesta adaptação, deixando de agir com a nobreza dos livros – o que também é imperdoável. E o que dizer de Barbárvore, que deixa de ser o sábio líder dos ents e se torna apenas uma criatura simplória que acaba sendo manipulada até mesmo pelo tolo Pippin? Aliás, a participação dos ents em As Duas Torres é simplesmente decepcionante, já que estes acabam sendo prejudicados pela montagem (a impressão é a de que Barbárvore passa o filme todo caminhando com Merry e Pippin nos ombros): em vez de alternar a batalha do Abismo de Helm com o entebate, Jackson teria conseguido um resultado muito melhor se tivesse condensado as participações de Barbárvore em apenas uma ou duas grandes cenas e, então, tivesse transformado o ataque ao Abismo de Helm e à Isengard em ações paralelas.

Porém, a alteração mais grave é, para mim, a chegada dos elfos à fortaleza de Helm: O Senhor dos Anéis é, justamente, uma narrativa sobre a ascensão dos homens e sobre o fim da era dos elfos. Assim, seria essencial que os humanos enfrentassem, sozinhos, aquela terrível situação – por mais emocionante que a `nova Aliança` entre as duas espécies seja, no filme. Mas, para não dizer que todas as alterações são equivocadas, devo reconhecer que o `exorcismo` de Théoden funciona muito bem como recurso dramático, já que, apesar de diferente do que é visto no livro, se mantém fiel à intenção de Tolkien. Aliás, é curioso como Peter Jackson pode, em um momento, realizar mudanças tão graves e, em outro, exibir tamanha adoração à obra original, como no instante em que vemos Scadufax cavalgar em câmera lenta (recurso que, diga-se de passagem, o diretor usa exageradamente em As Duas Torres, superando até mesmo John Woo neste quesito).

Como podem ver, minha adoração por As Duas Torres não é tão exagerada quanto a que tenho por A Sociedade do Anel. Admiro muito este segundo capítulo, mas não posso deixar de enxergar suas falhas. Quando escrevi sobre o primeiro filme, lembro-me de ter dito que 5 estrelas, às vezes, não bastavam. Pois bem: desta vez, acho que 5 estrelas são mais do que o suficiente.
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24 de Dezembro de 2002

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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