27 ANOS

Nós

★★★★☆4/5 estrelas
12 min

Dirigido e roteirizado por Jordan Peele. Com: Lupita Nyong’o, Winston Duke, Elisabeth Moss, Tim Heidecker, Shahadi Wright Joseph, Evan Alex, Yahya Abdul-Mateen II, Anna Diop, Cali Sheldon, Noelle Sheldon, Madison Curry.

Depois de toda uma carreira dedicada à comédia, o ator, roteirista, produtor e diretor Jordan Peele estreou no Cinema não com um veículo dedicado ao riso, mas com um projeto que do início ao fim mantinha o espectador angustiado diante de uma narrativa tensa, complexa e repleta de significados: o excelente Corra!. Atento ao potencial do Terror para criar alegorias instigantes dentro de uma estrutura de gênero, Peele usava aquele filme como um comentário sobre o racismo que permeia toda a sociedade norte-americana (poderia ser sobre a nossa também, infelizmente) e que pode ser encontrado sob palavras e ações aparentemente inocentes. Assim, desta vez não é surpresa constatar como o cineasta constrói mais uma obra que, eficiente em sua proposta de aterrorizar, não desperdiça a chance de voltar a apontar as mazelas sociais de um país cuja vitrine de oportunidades busca disfarçar um estoque infinito de desigualdades e opressão.

Iniciando a projeção com uma sequência ambientada em um parque de diversões em 1986, Nós apresenta (eu sei, o título vai soar feio ao lado de qualquer verbo no singular, mas...) o espectador a uma garotinha (Curry) que se afasta dos pais e, curiosa, entra em uma atração que anuncia em sua fachada a promessa “Encontre a si mesmo!” – e é justamente o que ocorre, deixando a menina traumatizada e diferente. Trinta anos depois, agora com o rosto de Lupita Nyong’o, a personagem retorna à praia na qual passou por aquela estranha experiência, demonstrando um incômodo natural diante de qualquer perigo, real ou imaginário, que possa ameaçar seus filhos Zora (Joseph) e Jason (Alex) ou seu marido Gabe (Duke).

Eficiente ao estabelecer uma atmosfera incômoda que mantém o espectador desconfortável e receoso mesmo que nada esteja de fato ocorrendo na tela, Peele é hábil, por exemplo, ao manter sua câmera baixa durante toda a sequência inicial, colocando-nos ao lado da pequena Adelaide enquanto explora os arredores e observa um estranho parado aqui ou um casal fazendo uma brincadeira infantil acolá. Aliás, simplesmente ao mostrar os pais da garota andando à (nossa) frente, desatentos enquanto discutem, o diretor já planta a sensação de um perigo iminente, de uma vulnerabilidade a ser explorada pelo desconhecido.

Ou, ao contrário, por figuras bastante conhecidas – e é aqui que Nós investe no terror do duplo, na ameaça da substituição por um doppelgänger, o que já alimentou narrativas que vão de Os Invasores de Corpos (ou de uma de suas terríveis refilmagens) a Cisne Negro, passando por O Homem Duplo, O Grande Truque, Coraline ou mesmo Logan (aliás, em meu texto sobre Cisne Negro discuti a obsessão de artistas por espelhos e reflexos). Esta ameaça, sugerida desde o princípio, finalmente ganha corpo(s) quando, em um daqueles momentos destinados a se tornarem icônicos, o caçula da família vai até os pais no meio da noite e diz: “Tem uma família na nossa garagem” – e também me atrevo a prever a popularidade dos macacões vermelhos usados pela “outra família” em festas a fantasia daqui em diante.

É a partir deste momento que Jordan Peele comprova suas credenciais como um talento inquestionável (por favor, não me faça morder a língua ao se tornar um novo M. Night Shyamalan) e concebe uma longa sequência de invasão, perseguição e violência que tem início com uma longa panorâmica que revela o horror da protagonista e de sua família enquanto sua casa é atacada por todos os lados e que se divide em várias ações paralelas que imprimem um ritmo enlouquecedor à narrativa enquanto saltamos de um personagem a outro e suas atribulações particulares (créditos ao montador Nicholas Monsour). Do mesmo modo, a trilha de Michael Abels ressalta a inquietude provocada pela situação sem tentar chamar a atenção para si mesma, sendo também interessante como o compositor rearranja a música “I Got 5 On It”, presente no primeiro ato da projeção, trazendo-a bem mais sombria na segunda metade do filme (algo para o qual meu filho Luca me chamou a atenção, devo apontar com orgulho).

Protagonizando um trabalho pela primeira vez em sua carreira (olha o racismo estrutural aí), Lupita Nyong’o parece feita sob medida para o gênero horror, já que seus olhos grandes e expressivos parecem sempre prontos a se arregalar diante das ameaças que surgem em seu caminho – e seu trabalho vocal é primoroso, ajudando-a a diferenciar suas duas versões de forma completa e impressionante. Enquanto isso, Winston Duke traz humor à experiência como Gabe, contrapondo-o também de forma inteligente ao seu duplo, algo que encontra reflexo nas performances da jovem Shahadi Wright Joseph (que cria um sorriso apavorante) e do pequeno Evan Alex. Já Elisabeth Moss, atriz sempre eficiente, explora ao máximo seu tempo em tela para estabelecer Kitty Tyler, amiga do casal principal, como uma mulher cuja superficialidade é rivalizada apenas por seu desprezo pelo marido, exibindo uma vaidade que culminará numa cena brilhantemente executada pela atriz (e pelo diretor) diante de um espelho em seu quarto.

Mas o que esta cena significa exatamente? Um lapso de consciência que leva a personagem a constatar o horror de si mesma? Um comentário sobre a obsessão de Kitty com sua aparência e o impulso que a outra enfrenta de expor o que há por baixo do rosto mantido belo e jovial através de plásticas? Ou devemos supor que trata-se apenas do descontrole de uma aberração? Ao contrário do que ocorria em Corra!, cujas metáforas e alegorias se apresentavam consistentes do início ao fim, aqui Peele parece satisfeito em criar uma base temática e permitir que, a partir daí, os simbolismos surjam flexíveis a ponto de abraçarem múltiplas interpretações – o que torna o filme ao mesmo tempo instigante e frustrante (algo que se aplica de maneira similar a certa revelação que, embora funcione tematicamente, é problemática se analisada simplesmente como elemento da trama).

Dito isso, se em seu trabalho anterior o cineasta usava as convenções do gênero para construir uma rica crítica à hipocrisia da sociedade com relação às parcas tentativas de reparar séculos de exploração racial, desta vez o ponto central temático é mais amplo, abordando não só o racismo, mas a crescente disparidade econômica entre classes resultante do capitalismo selvagem e desregulado que oferece mais e mais privilégios a quem já tem muitos e limitações crescentes a quem já enfrenta todas. Partindo do Us do título original que pode ser lido como uma referência ao país em si (ou seja: United States), Nós é, em essência, uma alegoria sobre luta de classes – e em vários pontos da narrativa não pude deixar de lembrar da sequência do “pesadelo” em O Som ao Redor que descrevi, na época, como “uma representação intrigante da paranoia/culpa capitalista em seu temor constante de que os miseráveis finalmente se rebelem contra a opressão econômica e arrebentem a represa que os mantêm aprisionados” (uma sentença que eu poderia ter escrito sobre este filme).

Usando o humor como alívio cômico eficiente – mesmo que o exagero às vezes acabe prejudicando a atmosfera de tensão -, Jordan Peele ainda exibe suas credenciais cinéfilas ao fazer boas referências a obras como Os Pássaros, Tubarão, Violência Gratuita e, especialmente, O Iluminado (com direito até mesmo a gêmeas assustadoras), dialogando, mesmo que apenas esteticamente, com clássicos estabelecidos do gênero que abraçou.

No processo, o cineasta cria uma experiência que assusta, diverte, estimula a análise e convida o espectador às mais diversas interpretações – embora a principal e mais veemente destas seja o modo como aponta como o tal american dream é, na verdade, um grande pesadelo quando você não está do lado certo do espelho.

25 de Março de 2019

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Assista também ao videocast sobre o filme:

Pablo Villaça
Avaliação do CríticoPablo Villaça
4.0
★★★★☆

Depois de toda uma carreira dedicada à comédia, o ator, roteirista, produtor e diretor Jordan Peele estreou no Cinema não com um veículo dedicado ao riso, mas com um projeto que do início ao fim mantinha o espectador angustiado diante de uma narrativa tensa, complexa e repleta de significados: o excelente Corra!. Atento ao potencial do Terror para criar alegorias instigantes dentro de uma estrutura de gênero, Peele usava aquele filme como um comentário sobre o racismo que permeia toda a sociedade norte-americana (poderia ser sobre a nossa também, infelizmente) e que pode ser encontrado sob palavras e ações aparentemente inocentes. Assim, desta vez não é surpresa constatar como o cineasta constrói mais uma obra que, eficiente em sua proposta de aterrorizar, não desperdiça a chance de voltar a apontar as mazelas sociais de um país cuja vitrine de oportunidades busca disfarçar um estoque infinito de desigualdades e opressão.

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Avaliações dos Usuários

User
Usuário9 de jun. de 2019

Uma crítica e várias frases para se anotar no caderno.

dragonball
dragonball17 de abr. de 2019

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Bernardo Mendes Ribeiro
Bernardo Mendes Ribeiro29 de mar. de 2019

Acompanho suas críticas há cerca de dois anos e costumo me surpreender com a sua perspicácia, Pablo - e fico mto feliz qdo descubro que percebi, num filme, uma coisa que vc tb percebeu. Na minha cabeça, e antes de ler a sua, eu já tinha feito uma crítica de Hereditário bastante semelhante a sua, por ex - o que me deixou mto feliz! Enfim, qto ao Nós, que acabei de assistir, concordo com vc em que aquela certa revelação é problemática. Embora tenha funciona pra mim como elemento surpresa, logo percebi que ela não funciona retroativamente. E só após ter lido sua crítica foi que percebi a alegoria da Luta de Classes - que coisa!

Patrícia Paiva
Patrícia Paiva 26 de mar. de 2019

* a gente :)

Patrícia Paiva
Patrícia Paiva 26 de mar. de 2019

Obrigada por esta ótima crítica, Pablo. Sempre nos fazendo ver detalhes desapercebidos, principalmente nesse tipo de filme em que as metáforas e simbologias são marcantes. Adorei Us, mas de fato, Peele nos entregou dessa vez um filme menos sólido que Get Out, parece que mais sujeito a interpretações diversas e embora isso possa soar como algo bom, porque nada é fechado demais e permite voar, as vezes deixa furos que não são respondidos e parece ser uma saída confusa e fácil. Mas, no geral é mesmo as amarras(correntes) dessa sociedade capitalista em que vivemos, que faz o filme mover sua crítica social, principalmente a sociedade americana, exemplo máximo de responsabilidades sobre a futilidade, o consumismo exacerbado e até através de sua dominação orgulhosa que causa tantas desigualdades no mundo. Os miseráveis que vivem nas sombras, uma hora confronta a sua própria sombra, ou vice versa e nos assombram. E o terror do filme é de fato o estranhamento, mas como em corra eu disse que o terror bizarro e sobrenatural tinha um plus a mais, que era a realidade do racismo medonho por si só, aqui o terror bizarro tem um plus a mais, o medo descomunal dessa gente marginal se rebelar e tomar seu lugar de fala, aliás, tomar seu lugar de corpos mesmo. E eu sempre achei que essa imersão no mundo dos espelhos e do confronto a si próprio, a própria imagem e a conhecer algo profundo sobre si mesmo, no fundo do espírito humano deve render várias sacadas assustadoras, por isso a agente prefere o superficial, a plástica, a maquiagem, as máscaras, enfim, encarar uma versão grotesca de si mesmo é muiiito assustador. O humor me incomodou pouco quando percebi que ele estava orgânico com o momento da trama. Ainda não sei responder se prefiro com alívio ou sem ele, já que costumo gostar da tensão constante e do peso, mas acho que Jordan Peele promove sensações inesquecíveis com suas várias dosagens, então, ele é ótimo.