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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
20/02/2020 22/05/2019 3 / 5 3 / 5
Distribuidora
Imovision

O Jovem Ahmed
Le jeune Ahmed

Dirigido e roteirizado por Jean-Pierre Dardenne e Luc Dardenne. Com: Idir Ben Addi, Myriem Akheddiou, Othmane Moumen, Victoria Bluck, Claire Bodson, Marc Zinga, Olivier Bonnaud.

Ao longo dos anos, manifestei diversas vezes minha admiração pelo cinema dos irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne, que, com sua abordagem direta, sem o uso de trilhas não-diegéticas ou de efeitos de montagem mais elaborados (fusões, fades, cortinas, etc), costumam criar retratos humanistas sobre todos os personagens que seguem com sua câmera quase voyeurística, mesmo quando o filme em si não alça voo. Em O Jovem Ahmed, contudo, senti falta pela primeira vez de algo fundamental nos longas da dupla: um senso de propósito. É como se os Dardenne houvessem decidido um tema a abordar, mas não como ou o que falariam – e este vácuo acaba por abrir o longa a interpretações que, considerando a obra dos belgas, certamente não eram o objetivo.


Quando a projeção tem início, encontramos o personagem-título (Addi), que espera ansiosamente a hora de sair da escola para poder ir à mesquita ouvir seu imam (Moumen), que insiste em envenená-lo contra a professora Inès (Akhedddiou) por condenar os planos desta de usar música para ensinar árabe aos alunos. Cada vez mais revoltado com o que passa a considerar um ataque ao Islã, Ahmed decide matar a mulher, mas seu nervosismo, sua inexperiência e sua hesitação levam o plano a fracassar. Enviado a um centro de detenção juvenil, o rapaz frequenta sessões de terapia, presta serviços em uma fazenda - atraindo a atenção da adolescente Louise (Bluck) – e aceita se encontrar com a vítima de seu ataque, que insiste em vê-lo para tentar processar melhor o que aconteceu. A questão é: Ahmed está realmente mudado ou tem outros planos?

É sempre uma aposta arriscada quando, com menos de cinco minutos de projeção, um filme já desperta no espectador um forte desejo de socar a cara do protagonista, mas os Dardenne justificam essa escolha à medida que permitem que percebamos como fomos apresentados a Ahmed em sua pior versão, depois de meses de lavagem cerebral feita por seu irresponsável e odioso imam – e a ideia, claro, é a de nos levar a enxergar o menino doce que existia antes deste processo e refletir sobre o modo como a radicalização pode afetar qualquer indivíduo vulnerável. Neste sentido, o rosto infantil do protagonista, com seu estrabismo acentuado que lhe confere um ar ainda mais vulnerável, é uma ponte para que acreditemos na possibilidade de recuperação e lamentemos o uso da fé por parte de criaturas inescrupulosas para manipular jovens em busca de um sentimento de pertencimento ou propósito.

Assim, quando vemos Ahmed abrir um raro sorriso de timidez ao ouvir o interesse da nova amiga em beijá-lo, enxergamos sua inocência e juventude, saltando da antipatia à compreensão. Enquanto isso, sua obsessão com as abluções ganham um tom quase compulsivo, como se o ritual servisse de válvula de escape para uma questão psicológica subjacente. O problema é que, ao mesmo tempo, a aparente diminuição do fervor religioso do rapaz é usada para indicar sua “regeneração”, como se a prática dos rituais islâmicos o impedisse de melhorar como indivíduo (o que, nem preciso apontar, abre margem para uma interpretação preconceituosa).

Com uma resolução que soa abrupta e tenta resumir a complexidade das motivações do protagonista a um simplório “no fundo, ele é uma criança perdida e vulnerável”, O Jovem Ahmed é um bom estudo de personagem – até revelar que, no fim das contas, não fazia muita ideia do que estava estudando.

Texto originalmente publicado como parte da cobertura do Festival de Cannes 2019

20 de Maio de 2019

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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