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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
04/09/2020 04/09/2020 5 / 5 4 / 5
Distribuidora
Netflix

Estou Pensando em Acabar com Tudo
I´m Thinking of Ending Things

Dirigido e roteirizado por Charlie Kaufman. Com: Jessie Buckley, Jesse Plemons, Toni Collette, David Thewlis, Colby Minifie, Jason Ralph, Abby Quinn, Guy Boyd e Oliver Platt.

Não importa a idade que eu tenha e de que época esteja lembrando, a imagem de minha mãe nestas memórias é sempre a atual, de como ela é hoje, mesmo que eu tenha plena consciência de que um incidente específico ocorreu, digamos, há 25 anos ou mais, quando ela era mais jovem do que sou agora. Como resultado, em minha percepção ela sempre se mantém mais velha e, em parte por isso, mais sábia (só em parte; ela é realmente sábia). Por outro lado, como meu pai morreu aos 40 anos de idade – e hoje tenho quase 46 -, sua aparência segue congelada em minha mente, o que inevitavelmente altera minha relação com as recordações em que ele aparece à medida em que envelheço.


Isto aponta algo fundamental na forma como as memórias operam, ditando não apenas nossa resposta emocional ao passado, mas sua influência sobre o presente. Neste aspecto, as memórias são menos registros e mais símbolos, representando uma visão distorcida do que trazem ao ajustar o que vivemos à maneira como nos sentimos sobre aquilo, assumindo cores distintas que refletem o que achamos que aconteceu e como enxergamos nossa posição no mundo.

Quando Estou Pensando em Acabar com Tudo tem início, portanto, e vemos os cômodos desabitados, mas repletos das personalidades e das vidas daqueles que normalmente os ocupam, o diretor e roteirista Charlie Kaufman já sugere – mesmo que não saibamos disso – um espaço ainda a ser povoado pelas reminiscências que virão, como um cenário à espera dos atores. A partir daí, conheceremos a Jovem Mulher (Buckley), que viaja com o namorado Jake (Plemons) sob uma tempestade de neve a fim de conhecer os pais deste em sua pequena e dilapidada fazenda mesmo que o relacionamento tenha ainda poucas semanas (que ela não consiga se lembrar de quantas já é um sinal pouco promissor).

Não demora muito até que a Jovem comece a perceber elementos estranhos ao seu redor, como o fato de Jake parecer ouvir seus pensamentos em determinados momentos ou de sua própria versão infantil aparecer no lugar do namorado em uma foto deste quando criança. Do mesmo modo, os pais do rapaz (vividos por Toni Collette e David Thewlis) não só parecem mudar de personalidade de um instante para outro, adotando comportamentos distintos durante toda a noite, como também se apresentam com roupas e idades diferentes, saltando entre versões joviais aqui e outras envelhecidas e à beira da morte ali, conferindo à narrativa uma lógica onírica que eu tenderia a chamar de lynchniana caso a voz forte do diretor do filme não a tornasse inegavelmente kaufmaniana – e as obsessões habituais de Kaufman com Identidade e a ideia de que somos prisioneiros de nós mesmos e de nossas mentes se mantêm presentes e instigantes (em seu ótimo livro, o recente Antkind, estas obsessões atingem um nível absurdo).

Fluido no tempo e (em certos pontos) no espaço, demonstrando o belo controle do cineasta e do montador Robert Frazen sobre a experiência, Estou Pensando... é capaz de modificar radicalmente seus personagens entre cortes simples ou de saltar do dia para a noite no meio de uma frase, criando uma inquietação crescente no espectador que é ressaltado também pela razão de aspecto reduzida (1.33:1), que nos sufoca ao lado daquelas pessoas e serve também para nos manter próximos da Jovem, salientando sua confusão e sua angústia – e quando a vemos em quadros mais abertos, há em geral certa incongruência na mise-en-scène que desperta incômodo (como no plano em que a vemos sentada à mesa, na parte inferior do quadro, e as pessoas que deveríamos ver ao seu redor se encontram ausentes).

(Aliás, já que mencionei esta passagem, vale notar que Collette parece estar se especializando em personagens que dividem jantares profundamente desconfortáveis com a família.)

E é aqui que sou obrigado a incluir um aviso de spoilers mesmo acreditando que o filme é imune a estes, já que a natureza da Jovem e de suas experiências não podem ser discutidas sem que detalhes específicos sejam abordados.

Para começar, há a questão de seu nome: identificada ao longo da projeção como “Lúcia”, “Lucy”, “Louise”, “Amy” e “Tonya”, a moça também parece mudar de profissão constantemente, surgindo como bióloga aqui, poeta ali e barista acolá (a cor de seu casaco e a armação de seus óculos são também variáveis). Da mesma maneira, seus interesses mudam o tempo todo – e muitas vezes durante a mesma conversa, como no instante em que declara não se importar com poesia somente para, segundos depois, recitar de memória um longo poema que escreveu há pouco tempo. Ou melhor: que acredita ter escrito, embora logo descubra que ele faz parte de um livro da poeta canadense Eva H.D. O padrão se mantém quando ela se dá conta de que as pinturas que julga ter produzido são obras de Ralph Albert Blakelock e também na passagem em que discute Uma Mulher Sob Influência e usa, como suas, as palavras escritas por Pauline Kael na época do lançamento (Jessie Buckley, por sinal, faz uma imitação impecável do ritmo e das entonações características de Kael).

A Jovem, porém, não está sozinha ao absorver e recriar elementos culturais: o próprio Jake surge em uma adaptação de um número do musical Oklahoma! e repete o discurso feito pelo John Nash de Russell Crowe ao fim de Uma Mente Brilhante (a cena toda é recriada, aliás), não sendo acaso que o DVD do filme de Ron Howard seja visto no quarto em que Jake passou a adolescência (bem como um dos livros de Kael) e que seu musical favorito seja aquele concebido por Rodgers e Hammerstein.

Pois é claro que as preferências artísticas de Jake dominariam suas fantasias – o que inclui a Jovem, que podemos enxergar como um ideal do rapaz ou (o que prefiro) um amálgama das mulheres que o interessaram (ex-namoradas ou não) ao longo de suas muitas décadas de vida antes que se tornasse o zelador da escola local (Boyd) e que conhecemos pontualmente durante a narrativa. Neste sentido, a performance de Jessie Buckley se torna ainda mais fascinante, já que a atriz é capaz de compor sua personagem ao mesmo tempo como uma projeção do “namorado” e como uma pessoa independente, com vontades e decisões próprias (mesmo que estas, claro, também acabem por refletir as inseguranças de Jake).

No entanto, é importante não resumir esta “revelação” a uma simples muleta-clichê de thrillers psicológicos – algo que o próprio Kaufman já havia ironizado em Adaptação. Não se trata, aqui, do velho “eles eram a mesma pessoa o tempo todo”, mas da expressão natural da investigação de Kaufman (e de Iain Reid, autor do livro que o inspirou) sobre a formação de nossas individualidades, de nossas memórias e da coleção de dores que nos tornam quem somos. Estruturalmente, Estou Pensando em Acabar com Tudo não se limita a adotar a subjetividade da Jovem como âncora apenas para confessar que, de fato, estávamos seguindo a subjetividade de Jake; sim, isto ocorre, mas ao mesmo tempo o próprio Jake está contido na percepção subjetiva da namorada, como um grupo de bonecas russas cuja menor peça, ao ser aberta, revela conter a maior. E é por isto que, em certos momentos, a Jovem parece romper a quarta parede ao recitar uma poesia ou ao nos encarar quase com desprezo através da janela traseira do carro – é Jake, seu “criador”, o alvo de sua frustração e de seu olhar.

Dividindo com Caden Cotard, protagonista de Sinédoque, Nova York (estreia de Kaufman na direção), uma propensão a desperdiçar oportunidades de felicidade por se preocupar com o desfecho que teriam, Jake/Zelador é um homem em meio à pior das epifanias: aquela que nos leva a compreender a dimensão de nossos erros quando já é tarde demais para consertá-los. Assim, a Jovem que “cria” em nada opera como um consolo ou uma fuga, mas como um retrato de todos os seus fracassos e de sua solidão.

Em outras palavras, a tragédia do filme não é (somente) aquela presente em seu doloroso desfecho, mas a que vemos já nos primeiros segundos da obra mesmo que ainda não tenhamos consciência desta realidade: a alegria de uma jovem que olha para cima a fim de sentir a neve em seu rosto, mas cujas espontaneidade e carinho existem apenas como o lamento de um velho que se enterra na neve por jamais ter se permitido experimentar o tipo de calor que só a construção de um afeto pode oferecer.

06 de Setembro de 2020

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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