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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
08/12/2020 08/12/2020 5 / 5 4 / 5
Distribuidora
Netflix
Duração do filme
90 minuto(s)

AmarElo - É Tudo pra Ontem
AmarElo - É Tudo pra Ontem

Dirigido por Fred Ouro Preto. Roteirizado, narrado e protagonizado por Leandro Roque de Oliveira (Emicida).

Quando os créditos finais de AmarElo – É Tudo pra Ontem se encerraram (e este é um filme que merece ser visto até que o último nome deixe a tela), pela primeira vez me perguntei quantos anos teria seu idealizador e protagonista, o músico Emicida, já que os 90 minutos anteriores haviam exibido uma obra cujas solidez e maturidade pareciam resultar de décadas e décadas de observações e experiências acumuladas. Mas não, a aparência jovial do artista correspondia de fato aos seus 35 anos (e apenas 15 de carreira!).


Talvez a rapidez com que o Brasil vem se desfazendo esteja acelerando o ritmo de nosso envelhecimento e da maturação de nossos poetas.

Há mais do que isso, porém – e creio que o verdadeiro diferencial (além do talento) seja a determinação de Emicida de compreender o contexto que o produziu e que passa pelo horror da escravidão, da lentidão em aboli-la no país, da nossa incapacidade de lidar com suas consequências e da perversidade com que não só condenamos grande parte da população negra à miséria como ainda a punimos por isso, barrando oportunidades e assassinando seus jovens. Ao reconhecer como sua história se iniciou não em 1985, quando nasceu, mas quando os europeus arrancaram mais de cinco milhões de africanos de seu continente e os trouxeram à força para o Brasil para que servissem de mão-de-obra nas plantações, o músico eleva sua produção ao apontar com humildade e sensibilidade como está de pé sobre os ombros daqueles que, com sua luta ou com sua morte, abriram os caminhos que hoje ele percorre e – o mais triste – segue sendo forçado a desbravar.

Construído em torno da apresentação do show-título no opulento Theatro Municipal de São Paulo, AmarElo salta entre as performances no palco, gravações de estúdio, registros caseiros do rapper (incluindo de suas duas filhas pequenas) e – naquele que se torna o principal fio condutor da narrativa – as histórias da comunidade negra no Brasil e as de alguns de seus principais representantes. Com isso, o filme expõe como bem antes de surgirem movimentos ativistas organizados no país, a luta era realizada pelas conquistas de ex-escravos como Tebas, que se tornou arquiteto em São Paulo, e Luis Gama, que conseguiu alforriar centenas de pessoas através de meios judiciais. Em outras palavras, indivíduos que demonstraram, através de seus feitos, o que deveria ser óbvio para qualquer um: a própria humanidade e, consequentemente, o horror inato ao conceito de serem tratados como propriedade alheia.

Com uma montagem dinâmica que envolve o espectador enquanto ressalta a importância cultural e social do hip-hop (e, em específico, do rap) através de uma brilhante pesquisa de imagens e do uso de ilustrações e animações, o documentário resgata registros de grupos como Os Oito Batutas (que trazia Pixinguinha em sua formação) e Os Originais do Samba (que tornou Mussum conhecido), além de intelectuais como o teatrólogo Abdias do Nascimento (criador do Teatro Experimental do Negro) e da filósofa Lélia Gonzalez, que inspirava a admiração de ícones como Angela Davis (que aparece brevemente ressaltando a relevância da brasileira). Estes, no entanto, são apenas algumas das dezenas de nomes listados pelo longa – vários dos quais, admito com imenso embaraço, eu desconhecia. O que comprova não só minha ignorância, pela qual me responsabilizo e me vejo compelido a corrigir, como o fracasso do Brasil em preservar sua memória – isto quando não busca ativamente apagar elementos que escancaram seus pecados.

Mas se faço AmarElo soar como um filme amargo ou raivoso, permitam-me corrigir a impressão, pois se há algo que define a narrativa é, acima de tudo, o afeto. Figura generosa e cuja postura de modo geral parece valorizar a comunhão e a troca de vivências e aprendizados, Emicida impregna a experiência de amor por aqueles que o influenciaram e/ou inspiraram, como o músico Wilson das Neves, a cantora Leci Brandão e a genial atriz Ruth de Souza, que, sejamos francos, só não atingiu o mesmo reconhecimento alcançado por sua fabulosa colega Fernanda Montenegro em função da cor de sua pele. (Montenegro, por sinal, tem uma participação linda no longa e no show.) Feliz por poder ter conseguido trabalhar com Wilson das Neves, por exemplo, e homenageá-lo ainda em vida, Emicida e o diretor Fred Ouro Preto incluem uma passagem na qual o veterano é levado ao desfile de uma coleção de roupas criada pelo rapper (que também é estilista!) e reverenciado em público. “Que maravilha poder entregar flores a quem você admira enquanto eles ainda podem sentir o cheiro delas”, comemora o cantor em sua narração em uma das falas mais lindas e verdadeiras da obra.

Aliás, outra pessoa homenageada nesta mesma ocasião é dona Jacira, mãe de Emicida, e que ele reconhece como uma inspiração tão essencial em sua vida quanto Nelson Mandela, comprovando como todos somos resultados do que aprendemos não só no mundo exterior e na História, como no lar, a partir dos exemplos daqueles que amamos e trazem para nosso cotidiano as lições que eles próprios acumularam também fora e dentro de casa.

Ciente da importância de compreendermos como a luta por uma sociedade justa passa obrigatoriamente pela defesa dos direitos daqueles que fazem parte de grupos distintos do nosso, o cantor emprega este seu filme-manifesto como vitrine para outras minorias históricas como mulheres, indígenas e a comunidade LGBTQ+, culminando numa performance emocionante da música que dá título ao show ao lado de Majur e Pabllo Vittar.

Encontrando tempo ainda para apontar o simbolismo no fato de uma das primeiras vítimas fatais da Covid-19 no Brasil ter sido uma empregada doméstica que contraiu o vírus da patroa que havia voltado recentemente da Europa, AmarElo é um filme cuja força não sacrifica sua ternura e que confirma o próprio Emicida como dono de ombros gigantes sobre os quais gerações futuras poderão se erguer e alçar voo.

11 de Dezembro de 2020

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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