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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
24/12/2021 24/12/2021 3 / 5 3 / 5
Distribuidora
Netflix
Duração do filme
138 minuto(s)

Não Olhe para Cima
Don´t Look Up

Dirigido e roteirizado por Adam McKay. Com: Leonardo DiCaprio, Jennifer Lawrence, Meryl Streep, Cate Blanchett, Jonah Hill, Mark Rylance, Rob Morgan, Tyler Perry, Timothée Chalamet, Ron Perlman, Ariana Grande, Scott Mescudi, Himesh Patel, Tomer Sisley, Robert Joy, Melanie Lynskey, Michael Chiklis, Hettienne Park, Paul Guilfoyle, Sarah Silverman, Chris Evans e a voz de Liev Schreiber.

Seja na literatura, no teatro, no cinema ou em qualquer outra forma de expressão artística, a sátira sempre representou, em mãos talentosas, uma forma de expor as falhas e absurdos da sociedade, erguendo um espelho capaz de acentuar traços específicos que, normalmente pelo exagero, se tornam óbvios o bastante para despertar a atenção daqueles que talvez os ignorassem. Pense em Tempos Modernos, Dr. Fantástico, Idiocracia, Madrugada dos Mortos (especialmente o original), The Square – A Arte da Discórdia ou qualquer trabalho de Armando Iannucci e terá exemplos eficientes que dissecam, através do humor, do drama ou do horror, diversos aspectos de nossas fragilidades individuais, comunitárias e/ou governamentais. Porém, como satirizar algo que já se tornou disparatado a ponto de desafiar o mínimo bom senso?


Este é um problema que Não Olhe para Cima jamais resolve completamente. Sim, beira o inacreditável que uma presidente tente indicar a uma posição da Suprema Corte alguém que não apenas foi astro pornô como sequer é advogado, mas Trump não conseguiu emplacar um sujeito acusado (plausivelmente) de estupro? E Bolsonaro não só colocou no STF um ministro que havia mentido em seu currículo ao menos duas vezes como outro cuja maior qualificação era ser “terrivelmente evangélico” e cuja posse foi celebrada pela primeira-dama enquanto esta “falava em línguas”. E se a líder interpretada no filme por Meryl Streep não hesita em politizar uma ameaça à vida no planeta, tanto Trump quanto Bolsonaro fizeram (e, no caso deste último, ainda faz) o impossível para dificultar a vacinação da população enquanto divulgavam medicamentos sem qualquer eficácia. Do mesmo modo, se o principal assessor presidencial da personagem é o próprio filho (Hill), o que normalmente seria impensável, o fato é que Trump concedeu credenciais de alta segurança à filha e ao genro, enquanto Bolsonaro… (suspiro)

Para completar, quando Não Olhe para Cima confronta o espectador com multidões de ignorantes negacionistas que se recusam a admitir, mesmo diante de evidências científicas inquestionáveis, a ameaça representada pelo cometa que se dirige à Terra, o diretor e roteirista Adam McKay parece nos cutucar com o cotovelo e perguntar “vocês acreditam nisso?!” – e minha resposta seria “Sim, acredito. Sem qualquer hesitação.”

E, com isso, rir subitamente se torna bem mais difícil. O que é um problema em uma comédia.

Terceira incursão de McKay ao fértil (mas traiçoeiro) gênero das comédias assumidamente políticas depois do excepcional A Grande Aposta e do interessante Vice (antes disso, o cineasta investia num humor mais “popular”, mas também eficiente), Não Olhe para Cima adota o mesmo estilo narrativo das anteriores, empregando uma montagem ágil, fluida em sua cronologia e que com frequência interrompe cenas no meio para buscar o humor no não-dito e no choque dos personagens (aliás, é possível argumentar que o longa exagera no uso deste recurso). Além disso, o realizador volta a jogar informações na tela através de letreiros e gráficos, mas cometendo o pecado de, desta vez, soar mais condescendente do que elucidativo, o que resume de certa maneira um problema recorrente no tom do filme, que em vários momentos trata como piada algo que é apenas comentário, como se McKay achasse que deveríamos rir apenas por sermos “superiores” aos estúpidos e imorais personagens que retrata.

Mas não só: ao abordar determinados temas, o cineasta acerta no comportamento, mas erra no diagnóstico e, consequentemente, no alvo de suas piadas. Um bom exemplo disso pode ser encontrado nas figuras vividas por Cate Blanchett e Tyler Perry, que apresentam um programa matinal que insiste em tratar até os assuntos mais sérios como entretenimento. Sim, a cultura do clickbait e o déficit de atenção causado pelo bombardeamento de “informações” pelas redes sociais com frequência levam a um tratamento superficial das notícias, mas o roteiro falha grosseiramente ao sugerir que os veículos de comunicação se recusam/recusariam a destacar notícias ruins, já que – sejamos honestos – o que ocorreria seria precisamente o contrário, com grades inteiras de programação se ajustando para manter os espectadores grudados na tela através do sensacionalismo e do horror da situação.

Em contrapartida, Não Olhe para Cima se sai bem melhor ao explorar a frustração crescente dos cientistas vividos por Leonardo DiCaprio, Jennifer Lawrence e Rob Morgan diante da paralisia das autoridades e de seus acólitos em todas as esferas da sociedade civil, que se recusam a agir com a firmeza necessária para lidar com o problema, pensando mais nas consequências políticas da situação do que nas humanas (imaginem se um presidente, diante de uma ameaça à população mais jovem, argumentasse que ainda “não há morte suficiente de crianças que justifique uma emergência”? Implausível até para uma sátira.). Assim, quando o Dr. Randall Mindy (DiCaprio) finalmente explode e faz um discurso raivoso sobre a inação do governo – uma cena com ecos do Howard Beale de Rede de Intrigas -, o resultado é catártico, embora, em última análise, ineficaz. (Um outro detalhe inteligente do projeto é observar como, por ser mulher, a cientista vivida por Lawrence é relegada a coadjuvante para ceder espaço a um homem.)

Retratando a divisão do país em lados que refletem um contraste não apenas de ideologias, mas entre a razão e a pura irracionalidade, o filme inclui na discussão a lógica capitalista liberal que, numa escala cada vez maior e mais nociva, infecta as tomadas de decisão sobre os rumos do mundo com argumentos desonestos que se disfarçam atrás de chavões como “liberdade”, “tradição” e “patriotismo”, manipulando a opinião pública para beneficiar bilionários e suas corporações às custas do bem comum – o que aqui é sintetizado na figura interpretada com a dose certa de caricatura por Mark Rylance, que transforma seu Peter Isherwell num amálgama de Steve Jobs e Elon Musk.

E, no final das contas, o encontro de interesses corporativos e políticos com a inquietação crescente de uma população que se vê cada vez mais massacrada economicamente acaba por formar uma tempestade perfeita de preconceito, ódio e negação da realidade, facilitando o uso destes ressentimentos por parte dos poderosos para insuflar uma divisão que enfraquece a sociedade e fortalece o “mercado” (esta entidade abstrata de especulação financeira cujo sucesso misteriosamente sempre adia o instante em que os ganhos chegarão nas classes sociais menos favorecidas – o que inclui a classe média, embora esta insista em se enxergar sempre perto do alto da pirâmide). Não à toa, enquanto o mundo aguarda seu fim em Não Olhe para Cima, os representantes das grandes fortunas (petroleiras, bancos, etc) hibernam confortavelmente e certos de sua segurança.

Concebido como uma alegoria do aquecimento global, o cometa desta obra poderia também representar a pandemia de Covid-19, a crise hídrica, o ressurgimento do fascismo e tantas outras ameaças que se tornaram triste parte de nosso cotidiano, incluindo o desapontamento de reconhecermos como muitos de nossos parentes, vizinhos e colegas de trabalho revelaram, nos últimos anos, uma faceta de puro descaso em relação à coletividade, negando-se a fazer o mínimo pelo próximo, mas forçando-nos a acompanhá-los enquanto aplaudem a privatização da água, a desregulamentação de indústrias e ajudam a colapsar o sistema de saúde ao recusarem não apenas a vacina, mas até mesmo a usar uma máscara.

E talvez esta seja a falha fundamental de Não Olhe para Cima, que claramente tem a (boa) intenção de fazer com que seu desfecho apocalíptico sirva de alerta e motivação para a ação, mas que, pela exaustão que nos provoca ao percebermos como a sátira se tornou realidade, consegue despertar apenas um sentimento com a chegada do cometa: alívio.

Observação: há uma cena adicional durante os créditos finais e outra depois destes.

26 de Dezembro de 2021

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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