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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
29/10/2010 01/01/1970 1 / 5 / 5
Distribuidora

A Suprema Felicidade
A Suprema Felicidade

Dirigido por Arnaldo Jabor. Com: Marco Nanini, Dan Stulbach, Mariana Lima, Elke Maravilha, João Miguel, Maria Flor, Jayme Matarazzo, Michel Joelsas, Caio Manhente, Tammy Di Calafiori, Emiliano Queiroz, Maria Luisa Mendonça, Ary Fontoura, Jorge Loredo.

Depois de quase vinte anos sem atuar como cineasta, Arnaldo Jabor retorna para trás das câmeras com este A Suprema Felicidade, que, visivelmente servindo de válvula de escape para a nostalgia de seu realizador, busca pintar três momentos distintos de sua vida ao trazê-los realçados com as distorções provocadas pela subjetividade de sua memória. Assim, somos apresentados a personagens basicamente unidimensionais que se definem não por suas personalidades, mas por suas ações: o pipoqueiro mulherengo, o padre rígido, o avô carinhoso, a mãe sofrida, o pai volátil e por aí afora – e se por um lado estas quase caricaturas podem ser perdoadas por se estabelecerem como retrato de uma mente infantil, por outro é difícil aceitá-las quando surgem como fruto da lembrança de um adolescente (como ocorre na cena que retrata uma prostituta sendo esfaqueada e aquela que traz todos os vizinhos do protagonista se soltando num improvisado carnaval de rua).

Adotando uma estrutura não linear apenas para ressaltar o caráter episódico da narrativa, o roteiro do próprio Jabor busca flertar claramente com o também autobiográfico Amarcord, de Fellini, mas sem jamais exibir a mesma imaginação no trabalho de câmera ou na caracterização dos personagens. Amarrado por uma teatralidade óbvia na direção de arte (especialmente a casa do protagonista) e na mise-en-scène, o filme ainda conta com uma montagem surpreendentemente pedestre que provavelmente é fruto de uma decupagem descuidada do diretor: freqüentemente, planos sucessivos parecem não se encaixar organicamente e, em dois ou três momentos, há saltos abruptos ao longo do eixo que soam como soluções improvisadas. Como se não bastasse, Jabor aposta num melodrama risível, por exemplo, ao enfiar uma trilha sonora dramática repentina enquanto leva a fraquíssima atriz Mariana Lima a caminhar em direção à câmera solenemente um segundo depois de se despedir de alguém que havia deixado sua casa.

Desperdiçando um elenco invejável, o longa só ganha vida realmente quando Marco Nanini surge em cena como  um avô cujo amor pelo neto encontra-se sempre transparente em seu olhar de imenso carinho, ao passo que Dan Stulbach, preso a uma caricatura implausível, quase faz milagre ao conferir alguma dimensão ao pai do protagonista. Enquanto isso, atores como Ary Fontoura e Jorge Loredo exploram ao máximo suas pequenas participações cômicas, contrapondo-se à dramática (mas também eficiente) ponta da cada vez mais competente (e atraente) Maria Flor. E se a novata Tammy Di Calafiori ao menos se salva pela beleza, o fato é que também acaba sendo vítima daquela que parece ter sido a regra de Jabor ao dirigir seu elenco: manter os olhos sempre marejados com o objetivo de estabelecer algum pathos onde não existe nenhum.

Exibindo um descuido preocupante em seus detalhes (reparem, por exemplo, a cena em que Stulbach manda o filho segurar direito a colher e notarão que, no momento do grito, o garoto nem mesmo manipulava o talher, agarrando-o rapidamente apenas ao ouvir a deixa do outro), A Suprema Felicidade não se preocupa nem mesmo em manter a coesão de sua narrativa, investindo pesadamente no conflito interno de um adolescente que se descobre homossexual, por exemplo, apenas para esquecer o garoto no restante da projeção.

Sabotado também por diálogos capengas e freqüentemente cafonas (“Você é a primeira pessoa real que eu toco”; “Você existe?”), o filme pode até ser sido concebido por Jabor como seu Amarcord pessoal, mas, infelizmente, acaba se estabelecendo embaraçosamente como seu Plano 9 do Espaço Sideral.

Observação: esta crítica foi originalmente publicada como parte da cobertura do Festival do Rio 2010.

25 de Setembro de 2010

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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